domingo, agosto 30, 1992

A ESTRATÉGIA DA ROLETA RUSSA


FACE OCULTA

                                                                                                          «Roleta. f. Jogo de azar.»



A ESTRATÉGIA DA ROLETA RUSSA



Ao colocar, à partida, nas mãos do Dr. Mário Machado o cargo político regional mais importante, o Partido Socialista tornou-se, antecipadamente, em seu refém absoluto.

Se o PS ganhar as eleições, o actual Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada será o próximo presidente do governo.

Nem mais nem menos.

Assim, um praticamente ilustre desconhecido da política regional «arrisca-se» a ocupar um lugar da maior relevância. Aparte um curto desempenho de funções autárquicas, ainda que no maior município açoriano, umas entrevistas na RTP/Açores e uns bons índices, segundo se diz, em sondagens encomendadas pelo PS pouco mais se sabe do Dr. Mário Machado.

Sem pretender desqualificar o cidadão, que como qualquer outro deve merecer todo o nosso respeito, é indiscutível que se trata de um curriculum político muito pobre para o desempenho de funções que exigem grande e comprovada experiência, bom conhecimento dos dossiers regionais, capacidade negocial e de estabelecer consensos e, acima de tudo, capacidade de liderança de um estado democrático.

Não faz nenhum sentido que o Partido Socialista tenha travado durante todos estes anos um prolongado e árduo combate político como maior partido de oposição e em que, tantos e tão capazes, militantes se empenharam para entregar, de mão beijada, o poder a um desconhecido que, ainda por cima, nem socialista é.

O único sentido que se pode descortinar em tal estratégia é o desespero de finalmente chegar ao poder, seja a que preço for. Nem que para isso tenha tido que sacrificar os seus princípios programáticos, a sua democracia interna, a dignidade do seu líder e os legítimos direitos de militantes com provas dadas.

Será, assim, tão importante assim para o relançamento da imagem do Eng. António Guterres e do PS nacional uma vitória (?) do partido dos Açores?

Por muito simpático, populista e bom gestor que seja, o Dr. Mário Machado é uma perfeita incógnita para os açorianos em geral e socialistas em particular. E não será a sua peregrinação pelas ilhas nem a campanha eleitoral que o irão dar a conhecer. Porque propaganda não passa de propaganda.

Com base nos dados que se dispõe, o candidato a presidente do governo regional proposto pelo PS tanto pode vir a ser bom, assim-assim ou mau como, muito mau. Será mais uma questão de fé, amor à camisola ou, então de voto útil.

Porque não se sabe se é o Partido Socialista que está a reboque do Dr. Mário Machado ou se é este que anda a reboque do PS. Mas pelo que se tem ouvido nas declarações do candidato, pela composição de alguma listas e por histórias de Ponta Delgada, o mais provável é que seja o PS que anda a reboque do Dr. Mário Machado.

Até pode ser que haja um acordo secreto, escrito em tabelião e tudo, que dê ao PS todas as garantias que o seu candidato vai ser, na prática, um zeloso governante ao serviço do partido que o elegeu  do socialismo democrático. Mas se há, os eleitores não o conhecem e, portanto, terão de se limitar a acreditar nas declarações de boas intenções.

Ao apostar nesta estratégia o PS apostou no tudo ou nada: se ganhar vai ficar com um sarilho, de todo o tamanho, nos braços mas sempre poderá inebriar-se com a tão desejada vitória e esperar que o exercício do poder lhe dê uma oportunidade para pôr a casa em ordem; se perder vai ficar em cacos.

 Ao puxar o gatilho o partido Socialista não sabe se tem alguma bala na câmara ou não. Uma verdadeira estratégia de roleta russa.



P E D R O  D A M A S C E N O


Nota: O último «FACE OCULTA» intitulado «AD – Açores: um arremedo de «Sá Carneiro» regional?» trouxe um parágrafo com uma gralha que lhe alterou o sentido, deveria ler-se assim: «Será difícil que alguém venha a acreditar na validade política de uma proposta que pretende ser um frentismo anti – Mota Amaral, mas que tem no seu interior o vírus da sua própria doença. Seria como tratar um doente com Sida dando-lhe transfusões com sangue infectado com a doença.»
O nosso colaborador Pedro Damasceno não tem qualquer suspeita de que a AD – Açores tenha Sida!
As desculpas aos nossos leitores e à AD – Açores.

sábado, agosto 15, 1992

AD-AÇORES: arremedo de "SÁ CARNEIRO" regional?


FACE OCULTA



«Um aliado tem de ser vigiado da mesma maneira que um inimigo»
                                                                                                      Leon Trostky



AD-AÇORES: ARREMEDO DE «SÁ CARNEIRO» REGIONAL



As coincidências são mais do que muitas para não passarem apenas disso. Até o PPM, partido que nunca teve qualquer expressão na Região, foram buscar.

Contudo há, também, diferenças consideráveis que podem tornar a AD – Açores numa imitação, de duvidosa qualidade. Para além do indiscutível mérito de ser mais uma força política a oferecer os seus préstimos ao eleitorado açoriano, poderá haver dúvidas legítimas quanto ao seu futuro desempenho na política regional.

Desde logo porque tem como matriz o CDS, partido que sempre tem tido prestações eleitorais muito baixas. De seguida porque como uma força que tem essencialmente como referência a ilha Terceira, facto que lhe retira, uma base regional de apoio.

Mas as dificuldades não ficam por aí. É uma força que procura colher votos no eleitorado PSD, mas excluindo este partido. Ou seja vai buscar dissidentes deste partido pra funcionarem como «a peninha no chapéu». Trata-se, portanto, de uma AD sem PDS, mas a fingir que o tem.

Naturalmente que quando escolheram o nome AD – Açores, os seus mentores não o fizeram por mero acaso mas por motivos políticos e que seriam, mutatis mutandi, os da AD de Sá Carneiro, contudo o que a AD – Açores pretende não é, evidentemente, a constituição de um bloco de centro direita para vencer a esquerda liderada para vencer o Partido Socialista. Mas quase o contrário: ajudar aquele partido a derrubar o PSD. Circunstância que torna a escolha do nome difícil de perceber, a menos que se esteja perante uma perfeita demagogia destinada a capitalizar o saudosismo de certas camadas de eleitores sociais-democratas.

A AD – Açores mostra-se determinada a participar no derrube de Mota Amaral, mas propõe-se conseguir esse objectivo usando, até ao pormenor, num modelo conhecido para derrubar o PS e a esquerda. Determinação esta que levou mesmo a que o CDS cedesse a liderança desse dissidente de última hora do PSD e, ainda por cima, uma ex-figura de proa do estado laranja regional que essa mesma AD pretende derrubar!

É o que, com propriedade, poderíamos designar de «tratar o bicho com o pelo do mesmo animal»!

Se a AD – Açores o inimigo número um é o PSD/Mota Amaral porque não se coligou o CDS com o PS em torno da candidatura de Mário Machado? Porque se refugiou atrás de argumentos de ordem ética e correu a servir de base de apoio aos novos políticos de um dos grandes responsáveis pela actual situação política regional?

Será difícil que alguém venha a acreditar na validade política de uma proposta que pretende ser um frentismo anti- Mota Amaral, mas que tem no seu interior o vírus da doença da Sida, dando-lhes transfusões de sangue infectado com a doença.

O CDS pese, embora, a pequenez do seu grupo parlamentar na Assembleia Legislativa Regional deu contributos muito válidos quer para a melhoria do funcionamento daquele órgão quer para a vida política regional. Como também é sabido o CDS conta, entre os seus militantes, com quadros técnicos de valor reconhecido a que, inclusive, abriram e abrem o apetite do PS e de Mário Machado.

Porquê, então, a estratégia seguida? Será sina dos partidos da oposição regional, hipotecarem os seus líderes e dirigentes máximos e os seus princípios a hipotéticos ganhos eleitorais?

Será que o CDS acredita que poderá vir a desempenhar um papel de partido charneira na próxima assembleia, preparando-se para negociar o poder com um PDS enfraquecido e sem maioria absoluta? Ou será que não tendo, pudicamente, querido entrar na «nave» Mário Machado, se prepara para o obrigar a baixar a bola, eventualidade de ele ter de formar um governo de coligação?

E quanto ao cabeça de cartaz da AD – Açores?

Não discutimos as razões do Dr. Borges de Carvalho porque essas são óbvias. Só não percebe quem não quiser.

Fica-nos, apenas, a dúvida de qual é o seu objectivo final: simplesmente manter um lugar ao sol na política regional ou um regresso triunfal a um PSD, órfão, desorientado e vergado pela derrota?

AD – Açores: arremedo de «Sá Carneiro» regional?



P E D R O  D A M A S C E N O


quarta-feira, julho 15, 1992

As danças da TAP-AIR PORTUGAL e a Chamarrita da SATA


FACE OCULTA



AS DANÇAS DA TAP-AIR PORTUGAL E A CHAMARRITA DA SATA



Muitas vezes, e algumas com razão, se tem queixado a TAP-AIR PORTUGAL da SATA-AIR AÇORES. E vice-versa, também às vezes com razão.

Mas pesadas bem as coisas, e salvaguardadas as diferenças, são água da mesma fonte. Ambas portuguesas, empresas públicas e muito senhoras dos seus respectivos narizes. A TAP dos seus monopólios para as ilhas e a SATA da sua hegemonia entre elas.

Ambas também a precisar, como pão para a boca, de uma política aérea de céu aberto. De competição a sério, por outras companhias de peito. Porque senão aí continuaremos: a TAP a aperrear a SATA e esta a aperrear a OCEAN AIR – água da mesma fonte.

Porque é urgente que as leis de mercado cheguem, também ao transporte aéreo. Não, apenas, para que a TAP perca os seus monopólios ou a SATA os seus narcisismos. Mas para que ambas, finalmente, realizem que prestam serviços a pessoas que têm direito a ser tratadas como gente, a serem informadas e respeitadas. A TAP e a SATA não estão a fazer favores a ninguém. Estas duas companhias estão a desempenhar um serviço público, e como tal, de grande responsabilidade.

Quantas vezes, todos nós, temos perdido horas a fio no aeroporto sem direito a qualquer informação atempada e correcta? Quantas vezes não fomos tratados como simples objectos passivos e incomodativos para aquelas companhias e respectivos funcionários? Quantas vezes fomos, por outro lado, devidamente informados ou foram os nossos mais elementares direitos de cidadãos de um estado de direitos tidos em linha de conta?

Certamente que todo o passageiro habitual das duas companhias tem várias histórias para ouvir. Por mim vou contar, rapidamente, uma história de cada.

No passado dia 10 de Junho saiu de Lisboa para a Horta o voo da TAP. Depois da habitual viagem de 2.30 horas o avião chega à Horta aonde não aterra por falta de condições meteorológicas. Arranca para a Terceira aonde aterra. Aí, sem mais informações, os passageiros ficam retidos acerca de 2 horas. Finalmente é anunciado o embarque com destino à Horta. Cerca de 20 minutos depois o avião dá 2 ou 3 voltas sobre o aeroporto da Horta e torna a ganhar altura. Cerca de 10 minutos depois o comandante anuncia, com voz lacónica, que o avião se encontra a caminho de Lisboa. Mais 2.30 de viagem para Lisboa aonde o voo chegou pelas 23. 

Questionados os funcionários de terra da TAP no aeroporto de Lisboa, encolhiam os ombros sem qualquer explicação para dar. Até que um teve a ideia de que talvez tivesse sido por falta de alojamento na Terceira! Tudo para o Hotel (era o que mais faltava que a TAP, ainda por cima, não cobrisse as despesas decorrentes de opções exclusivamente suas) e, no dia seguinte, mais um voo de 2.30 para a Horta. Tudo isso no maior mutismo como se fosse completamente normal que em vez de optar por um aeroporto alternativo na região, se tivesse optado por impor mais de cerca de 5 horas de avião aos passageiros. Faz todo o sentido como um voo de Londres – Faro, voltar para Londres em vez de aterra em Lisboa. Até mesmo em horas de voo!

Dia 1 de Julho de 1992, o voo SP 622 da SATA Terceira – Pico não chega às 17.10 como previsto, por razões meteorológicas. Contudo o tempo rapidamente melhora. Durante toda a tarde os funcionários da SATA no aeroporto do Pico vão dando sucessivas hipóteses de horas de chegada, enquanto que na Terceira os passageiros com destino ao Pico vão vendo, sem qualquer explicação, adiamentos sucessivos nos placards. Finalmente o aeroporto do Pico informa que o voo proveniente da Terceira (via Horta) chegará cerca das 20.30 como de facto chega. Como é normal quando o avião estaciona as pessoas aproximam-se ansiosos por verem amigos, familiares e até filhos menores. 

As portas do avião abrem-se, as escadas encostam-se e aguarda-se. Mas nada acontece. Ninguém sai! As pessoas olham-se surpreendidas mas ninguém saiu! Entretanto dirigem-se ao balcão da SATA aonde um funcionário, também com ar atónico, confirma que não veio ninguém e não sabe porquê. Instado a informar-se vem finalmente dizer que a SATA, por razões comerciais (sic), tinha cancelado o voo Terceira-Pico e que os passageiros se encontram alojados no Hotel de Angra. Entretanto, do outro lado, na Terceira, as pessoas que secavam à espera do voo e de explicações desde as 15.30, foram informadas cerca das 20 horas que o voo fora cancelado. Assim mesmo.

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!

Com boa vontade, até poderemos imaginar que por trás das decisões na TAP  e da SATA estiveram algumas explicações lógicas, mesmo que de carácter comercial. O que ninguém pode perceber e, muito menos, aceitar são as prepotências, as incompetências e o total desrespeito pelo direito à informação dos cidadãos. Tudo isto no jeito delicado e tão comum aos funcionários das nossas companhias aéreas. Chá, café ou laranjada?

Até quando teremos de aguentar as danças da TAP e a chamarrita da SATA?



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segunda-feira, junho 15, 1992

O FAX DO MEU DESCONTENTAMENTO


FACE OCULTA



O FAX DO MEU DESCONTENTAMENTO



Nada como um exemplo concreto para elucidar um ponto de vista, uma perspectiva. 

Tantas vezes, bater e rebater num assunto sem dar exemplos, provas concretas, acaba por não dar em nada. Acaba por perder força, por muita razão que exista.

É ponto assente que as nossas telecomunicações são péssimas. Toda a gente se queixa: das horas perdidas para obter ligações telefónicas, das chamadas que sistematicamente vão dar números completamente diferentes, de linhas cruzadas, das contas exorbitantes, da falta de educação e de profissionalismo dos serviços de informação e apoio, dos anos de espera para obter um simples telefone, etc.,etc..

Situação que atinge proporções verdadeiramente preocupantes em regiões insulares como a nossa. Não só pelas distâncias que nos separam de ilha para ilha mas também das que nos separam do exterior. Tudo isso numa época em que as telecomunicações conhecem uma importância crucial: telefone, telex, fax, modem, videoconferência.

A falta de tempo é, talvez infelizmente, um dado, cada vez mais presente, na vida moderna. Quem pode perder horas a fio para a obtenção de uma simples ligação telefónica? Como contabilizar os custos dos contactos, da mais variada ordem, que não se concretizam?

São custos humanos e económicos que constituem um verdadeiro estrangulamento ao nosso desenvolvimento e um grande peso no nosso isolamento. Um flagelo com que temos que nos debate diariamente.

Contudo nunca se viu qualquer responsável pelas telecomunicações – que continuam a ser monopólio, a nível nacional e europeu, dos CTT – vir publicamente admitir este lamentável estado de coisas e se disponibilizar para a sua solução. Antes pelo contrário, só aparecem para se desculpar ou então para anunciar grandes investimentos que tardam em se traduzir em melhoras objectivas.

Porque o primeiro passo para a solução de um problema é saber e reconhecer que ele existe. Enquanto a administração dos CTT não admitir publicamente o estado verdadeiramente calamitoso das nossas telecomunicações não haverá condições para uma solução.

Entretanto toda a actividade económica regional sofre distorções acrescidas e dificuldades insuperáveis, desde as instituições financeiras aos agentes económicos em geral. Para além dos barcos que não existem ou dos portos que não servem e dos aviões que não aterram porque as pistas não têm tamanho ou porque não há planeamento adequado dos voos, ainda nos resta o tormento das comunicações.
Mas vamos ser concretos.

Na minha frente repousam comprovativos impressos de 10 (dez) tentativas que foram necessárias para mandar um fax do Pico para a Madeira. Sem contar com as inúmeras (mesmo «muito inúmeras») vezes que o aparelho de fax não conseguiu estabelecer ligação com a Madeira, estabeleceu nove ligações abortadas que contabilizaram 17 (dezassete) minutos durante 2 (dois) dias. Apenas à décima ligação efectuada foi passado o fax na sua totalidade, o que demorou 4 (quatro) minutos. Assim, para um fax de 4 minutos, foram gastos 21 para além do tempo, que foi muito, necessário que foi para operar a máquina embora esta tenha diapositivo automático de envio.

É evidente que para além do tempo e dinheiro gastos, este incidente criou grandes dissabores para quem estava dependente do malfadado fax.

Claro está que os 17 minutos de utilização de rede que foram desperdiçados e o tempo do operador foram integralmente suportados pelo utente que continua a ter que pagar sem bufar. Ou melhor, pode bufar, mas sem que isso adiante nada porque quem decide é quem prevarica e não me consta que ser juiz em causa própria tenha alguma vez conduzido à justiça.

O verdadeiro fax do meu descontentamento.



P E D R O  D A M A S C E N O

PS.: Até este fax para chegar à Madalena…sofreu…e passou pelo Cais do Pico.


sábado, maio 30, 1992

OS MAMARRACHOS


FACE OCULTA



OS MAMARRACHOS




Mamarracho é uma palavra pouco habitual mas que significa «obra mal feita / pinta-monos» e que, sobretudo, se apropria para classificar muitas construções que, cada vez mais, surgem nesta ilha.

Se é certo que o gosto é uma questão eminentemente pessoal e que deve ser respeitada como parte da liberdade individual, não é menos certo que o ambiente é de todos, verdadeiro património comunitário. Desse modo há que respeitar o gosto pessoal mas há, também, que condicioná-lo a regras que respeitem o ambiente.

O ambiente que deve ser entendido num sentido lato: desde os aspectos eminentemente naturais a intervenções humanas. O Pico tem uma face própria que não se resume à montanha, aos verdes ou aos mistérios. Tem também um património arquitectural com características próprias que vão desde tipologias de construção até à volumetria dos edifícios.

Basta atentar-se em certas povoações que ainda estão pouco alteradas para se perceber que o Pico tinha e tem (?) uma linguagem arquitectural própria e tipologias bem definidas. Linguagem que integrava plenamente na natureza circundante, criando valores estéticos muito interessantes.

Contudo o grande surto de construção dos últimos dez anos tem vindo a fazer-se, quer a nível oficial quer privado, de forma caótica e desordenada acarretando grandes agressões da unidade arquitectural e paisagística da ilha.

Os maus exemplos, infelizmente, abundam. E tantas vezes da responsabilidade do Estado que, antes de todos, deveria velar pela manutenção e enriquecimento do Património.

E, assim, a face do Pico tem vindo, perigosamente, a transformar-se – perdendo identidade.

O progresso é necessário, mesmo imprescindível, mas pode fazer-se de forma a valorizar o património existente. Para isso há que respeitar a matriz arquitectónica tradicional da ilha condicionando as construções a regras que terão de ser definidas por critérios culturais, técnicos e políticos devidamente amadurecidos. Papel que cabe, em primeira linha, às autarquias que devem impedir as agressões que diariamente, surgem na paisagem picoense. O exercício do gosto pessoal deverá ter balizas bem definidas e uma eficaz fiscalização terá que ser exercida.

Finalmente chegaram os planos gerais de urbanização e os planos directores municipais. Ainda bem, sejam bem-vindos, mas que sejam instrumentos vivos da transformação criteriosa que a Ilha tem, necessariamente, que sofrer e não se transformem em resmas de papel nas gavetas.

Para isso é importante que haja a maior participação possível de toda a gente que tem uma palavra a dizer sobre o futuro do Pico. Porque só assim esses planos atingirão os seus objectivos e os picoenses serão co-autores na definição das linhas de força que a todos nós irão condicionar.

Sendo o ambiente o património colectivo por excelência, maior é a nossa responsabilidade na sua defesa. Defesa que bem pode começar pelo refrear e impulsos de gosto mais do que duvidoso que tanto abundam!

Abaixo os mamarrachos.




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sexta-feira, maio 15, 1992

OPORTUNISMO OU SURREALISMO POLÍTICO?


FACE OCULTA



OPORTUNISMO OU SURREALISMO POLÍTICO?



Quando, calmamente, os partidos aqueciam os motores para a disputa de Outubro para a Assembleia Regional e tudo parecia no seu lugar (Mota Amaral e PSD de um lado, Martins Goulart e PS do outro) estoura a novidade política (?) do ano: afinal de contas o PS muda de ideias e parece decidido a apresentar Mário Machado como adversário de Mota Amaral. 

Num ápice o Partido Socialista manda às malvas as sua liderança e a sua estratégia, decididas em congresso, e decide optar por uma coligação pré-eleitoral com o CDS e por uma candidato a Presidente do Governo estranho ao partido!...

Assim mesmo.

De repente o Eng. Martins Goulart passa de líder regional do PS e de candidato, como é lógico e sempre foi afirmado, a Presidente do Governo Regional para o limbo, Para tanto terá bastado uma sondagem efectuada em S. Miguel e que parece ter demonstrado um melhor perfil eleitoral para Mário Machado, actual presidente da Câmara de Ponta Delgada.

Situação que é, no mínimo, estapafúrdia e surrealista.

Um partido com grandes responsabilidades na vida politica regional passa, na maior das calmas, um estatuto de parvo ao seu líder e de verbo encher ao seu congresso regional. Que se danem as pessoas e os princípios: o que importa é ganhar.

O partido Socialista que, ao longo destes anos de autonomia, sempre se afirmou como uma alternativa ao PSD, quer a nível de projecto político quer de pessoas, vem ao fim e ao cabo, confirmar aquilo que já muita gente pensava: que os partidos e os políticos são todos parecidos e o que querem é poder.

Só assim se percebe que alguma vez o PS possa sequer ter encarado semelhante hipótese a sério. Só assim faz sentido que um partido com as suas responsabilidades se tenha deixado segar pela obsessão de derrubar Mota Amaral.

Porque não é indiferente a forma como se chega ao poder. E essa sempre foi uma das bandeiras do PS.

Que autoridade passará a ter o PS, agora, para acusar o PSD de se querer manter no poder de qualquer modo quando, ele próprio, quer lá chegar a qualquer preço.

Situação que configura, mesmo, logro.

E em política o que parece é.

E mais. Suponhamos que a coligação ganha e que Mário Machado se torna Presidente do Governo Regional. Que vai acontecer então? Vai ele inscrever-se no PS e disputar a liderança do partido ou vai este passar a ter uma chefia bicéfala: Martins Goulart para constar e Mário Machado para mandar? Na primeira hipótese estar-se-á perante um claro oportunismo, na segunda perante puro surrealismo político.

Na política como na vida tem que haver uma componente ética sob pena de tudo se reduzir a competição desenfreada e implacável. Embora esteja sobejamente provado que a competição é a grande mola da vida – desde o nível pessoal ao social – não pode permitir que ela se transforme em objectivo último e único.

Ainda que seja verdade que a recta final do século vinte tenha trazido consigo perspectivas mais pragmáticas em detrimento das ideologias, não se pode fazer tábua rasa dos princípios bob pena de se dar origem a perversidades sociais graves como é o caso do «fenómeno» Le Pen em França ou dos neo-nazis na Alemanha.

Essas perversidades surgiram e, possivelmente, agravar-se-ão, em grande parte, devido à competição selvagem e amoral que ganha raízes na sociedade moderna. Situação que frequentemente leva ao saudosismo simplório de autoritarismo como forma de repor a ordem e a justiça num sistema que se mostra demasiado vulnerável à corrupção e ao oportunismo.

O Partido Socialista se vier a confirmar a troca da sua posição ideológica e ética por um prato de lentilhas estará a contribuir, também e fortemente, para a descrença e a apatia que grassam na sociedade açoriana e o mesmo é dizer para a descaracterização e abandalhamento do regime democrático e autonómico.

Oportunismo ou surrealismo político?



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quinta-feira, abril 30, 1992

A GUERRA DOS PAPOS-SECOS


FACE OCULTA



A «GUERRA» DOS PAPOS-SECOS



Por incrível que pareça, o Pico está privado, há meses, de um bem de consumo de 1ª linha: o papo-seco.

Um diferendo sobre o preço de venda ao público entre as padarias e o governo terá levado aquelas a deixarem, pura e simplesmente de fabricar o papo-seco. E pronto, sem apelo nem agravo, as pessoas que se virem e passem a comer outro tipo de pão!...

Os dias e meses passam e nada.

Enquanto nas outras ilhas (para não ir mais longe no próprio Faial) se continua a consumir o papo-seco, no Pico não. Porque as, pelos vistos, todo soberanas padarias decidiram que não estavam dispostas a fabricar o produto a não ser pelo prelo que entenderam ser o melhor que os convinha!

Perante a total passividade do governo, dos deputados, das autarquias e do próprio público em geral uma situação caricaturalmente anómala mantém-se. Numa parcela da Comunidade Europeia e numa ilha com pretensões a conquistar um espaço no difícil segmento alto do mercado europeu.

Abrenúncio!

Imagine-se apenas o ridículo de um turista solicitar um papo-seco num restaurante e responderem-lhe que não há, que as padarias decidiram não o fabricar e que o governo não se importa. Um verdadeiro «farwest» de mercado, sem regras nem fiscalização.

Será que se perdeu por completo o senso critico?

Imaginemos, por redução ao absurdo, que esta lógica de mercado se estende a outros sectores. Poderemos ter, por exemplo, os pescadores a venderem apenas cherne ou goraz porque lhes dá mais lucro, os talhantes a venderem apenas carne com osso e cortada a direito porque rende mais e dá menos «chatices», as farmácias a deixarem de vender os produtos com pequena margem de comercialização, os comerciantes a deixarem de vender farinha e açúcar a retalho porque não dá nada, etc., etc..

Naturalmente que a indústria de panificação tem, como qualquer outro parceiro social, direito a defender os seus pontos de vista e lutar pelos seus interesses. O que não se percebe é como podem, imponentemente, retirar do mercado produtos de consumo diário e generalizado como é o papo-seco. 

Faria sentido que fizessem uma suspensão simbólica do fabrico para marcarem uma posição. É abusivo e inteiramente absurdo que decidam, pura e simplesmente, deixar de fabricar um produto por tempo indeterminado. Ou será que a indústria da panificação não está regulamentada e que, se calhar, qualquer dia só podem comprar pães de cinco quilos que dão mais lucros e menos «Chatices» para os padeiros!

Que actue quem tem que actuar.

Trata-se, ao fim e ao cabo, de defender os interesses dos consumidores que não podem, num estado de direito e democrático, estar apenas dependentes dos interesses, mesmo que parcialmente legítimos, de qualquer indústria, seja ela de panificação ou outra.

Se assim não acontecer estaremos, mesmo, perante uma autêntica «guerra» dos papos-secos numa atlântica e europeia república das bananas.


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quarta-feira, abril 15, 1992

A SELVA DO TRANSITO


FACE OCULTA


A SELVA DO TRÂNSITO


O problema do trânsito rodoviário no Pico está, cada dia que passa, a consolidar-se como uma praga.

Não fugindo ao que se passa a nível nacional, o trânsito nesta Ilha é uma questão muito preocupante tal o nível de sinistralidade que está a atingir. Sinistralidade que ultrapassou os pequenos acidentes, do farol partido ou do pára-choques amolgado, para atingir elevados prejuízos materiais e, o que é bem mais trágico, irreparáveis danos pessoais com uma frequência inusitada.

Situação a merecer reflexão serena. Problema complexo que envolver múltiplos factores. Questão que não pode ser abordada de forma simplista procurando apenas bodes expiatórios.

Nos últimos dez anos o parque automóvel do Pico conheceu um aumento em flecha. Também durante este período foi muito elevado o número de pessoas que tiraram carta. Factores que conjugados criaram, só por si, uma grande alteração no trânsito picoense: Muitos mais carros e muitos mais novos condutores necessariamente inexperientes.

Crescimentos que não foram acompanhados por equivalentes melhorias na rede viária. Esta não só não cresceu como não foi objecto de indispensáveis melhoramentos e, o que ainda é bem pior, não foi sequer submetida a adequada manutenção.

São do conhecimento de todos as variadíssimas situações de grande perigo com que os automobilistas se defrontam em estradas inadequadas, mal sinalizadas e sem protecções. Todos conhecem a verdadeira tortura e aventura que constitui a travessia da grande maioria dos aglomerados urbanos.

Mas, se todos os factores já mencionados são importantes, há um outro que é crucial par o entendimento cabal deste problema: os condutores. São, na generalidade, maus. Não só porque fizeram e fazem a sua aprendizagem de modo deficiente numa rede viária muito escassa mas porque também não são, habitualmente, sujeitos a qualquer vigilância significativa. Têm pouca perícia e não respeitam, minimamente, nem as regras do Código de Estrada nem elementares regras de civismo.

Quem não depara todos os dias com as situações mais bizarras? São um longo rosário: estacionamentos em curvas e outros locais de nula visibilidade e mesmo nas faixas de rodagem impedindo o fluxo normal do tráfego; entradas de marcha atrás nas vias principais, desrespeito total pelas prioridades; ausência de luzes e piscas sobretudo em tractores e veículos pesados; excessos de velocidade e fora de mão; pneus carecas e falta de travões; condução no nevoeiro sem luzes; condutores sem carta; condução em estado de embriaguez, etc. etc.

Claro que, teoricamente, cidadãos maiores deveriam ser responsáveis e respeitadores das regras porque, ao fim e ao cabo, todos são vítimas potenciais. Mas a verdade é que o não são e por isso, muitas vezes, os justos pagam pelos pecadores.

  E aqui urge o último, mas não menos importante, factor: a vigilância – polícia. Que, em termos práticos, não existe no Pico. Para já não existe polícia de trânsito o que é um verdadeiro absurdo. E depois a P.S.P. refugia-se atrás de desculpas esfarrapadas, como é o caso de falta de pessoal, para não exercer cabalmente a sua missão. São terras pequenas, todos se conhecem, blá, blá!

Ninguém leva a polícia a sério e a polícia não leva a sério a grande fatia de responsabilidade que lhe cabe neste estado de coisas. A P.S.P. tem, certamente, muitas limitações de que não é directamente responsável e os polícias estão de longe de serem os únicos maus da fita. Mas que o seu trabalho deixa muito a desejar em matéria de fiscalização das infracções e de prevenção de acidentes é um facto indiscutível.

Há portanto um grande número de causas que explicam o estado muito preocupante do trânsito no Pico. Toda a gente protesta mas ninguém faz nada. Todos se acomodam com a esperança secreta de que os acidentes só acontecem aos outros.

Mas de facto há muito a fazer: mais e melhores estradas devidamente sinalizadas e protegidas; criação de locais de estacionamento ao longo das estradas e de parques nas povoações; ensino na condução mais cuidado e envolvendo ensino de condução mais exigentes com prova de estrada; adopção por parte dos condutores de uma atitude responsável, respeitando o código, não criando situações de perigo, não conduzindo embriagados; lançamento de campanhas para uma condução prudente; adequado policiamento não só com carácter penalizador mas também com atitudes de aconselhamento e esclarecimento; etc.; etc..

Se assim não for continuaremos a ter um trânsito que é uma autêntica selva.


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segunda-feira, março 30, 1992


FACE OCULTA


O COMBATE É DE TODOS


É questão pacífica e incontroversa que a Educação é uma área de crucial importância. Dela depende a maturidade e o progresso dos povos. Todos os discursos políticos, oficiais ou partidários, hipócritas ou não, lhe atribuem a maior prioridade.   

E pode ser mesmo uma máquina de trucidar ministros, como ainda recentemente vimos. Tal o seu peso na sociedade e tantos os sectores com que mexe.

Mas a Escola, centro de educação por excelência, está longe de constituir, entre nós, um centro de formação global. Entendendo-se por isso uma área de aprendizagem e de convívio com objectivos de formação cívica, técnica, intelectual e cultural.

A escola é sobretudo uma zona de transmissão de conhecimentos, de forma mais ou menos passiva e mais ou menos competente. Pouco vai para além disso.

E se atendermos a que as Escolas Preparatórias têm alunos entre os 10 e os 28 anos, senão mais, o assunto assume outras proporções. Trata-se de um período de vida determinante na formação do indivíduo.

Ora o Pico, como o restante país rural, ainda tem uma grande percentagem de pais semi-analfabetos. Pais que não estão em condições de acompanhar o desafio da educação escolar e geral dos filhos. No espaço de uma geração criaram-se fossos de índole cultural, intransponíveis, entre pais e filhos.

Quase de repente, graças ao 25 de Abril, Portugal avança para a democratização do ensino que deixa de ser privilégio de alguns para ser um direito de todos. Mas essa soberba conquista trouxe no seu seio dificuldades de toda a ordem para um país pobre e periférico: de instalações, de professores, de programas, de baixo nível cultural da população, etc.

No entanto, quase 18 anos são passados e, não esquecendo as muitas facetas positivas e os muitos esforços despendidos, a Escola ainda está longe de se ter constituído em trave mestra, como devia, da democracia. A Escola ainda não consegue ser o grande artífice do combate às desigualdades, já que ao nível da formação dos alunos não consegue suprimir os grandes défices (higiénicos, cívicos, intelectuais e culturais) de que a maioria deles é portadora.

E é, justamente, na superação destes grandes défices que deveria ser posto o acento tónico. Doutro modo os alunos, independentemente das capacidades individuais, estarão, também longe de serem iguais quando saem da Escola. A igualdade só será resposta quando a Escola for capaz de dar uma resposta integral às assimetrias económicas e culturais que herdamos da ditadura.

E neste combate temos que intervir: Estado, professores, pais, alunos e comunidade em geral. Não pode haver passividade de quem quer que seja e muito menos de quem, comodamente, se habituou a ver no Estado um protector omnipotente.

O combate é de todos.

P E D R O  D A M A S C E N O