domingo, fevereiro 28, 1993

AS AVENTURAS E DESVENTURAS DE UM TURISTA ACIDENTAL NO REINO DO MICKEY MOUSE


FACE OCULTA



AS AVENTURAS E DESVENTURAS DE UM TURISTA ACIDENTAL NO REINO DO MICKEY MOUSE


Nos tempos de recessão e dificuldade que já, claramente, se vivem seria de esperar uma adequada adaptação do governo e dos agentes económicos.

Rigor e eficiência devem, naturalmente, existir sempre numa sociedade que procura o progresso e o crescimento. Mas esta verdade elementar é bem mais importante em sociedades com as assimetrias e carências como a açoriana e, sobretudo, em época de dificuldades acrescidas como a presente.

A autonomia, e o mesmo é dizer a governação dos Açores pelos açorianos, depende em primeiro lugar destacado da auto-suficiência orçamental do arquipélago. Os Açores têm que ter níveis de conforto e bem-estar compatíveis com as receitas geradas na região.

Quando maior for o fosso entre o dever e o haver, maior será a dependência em relação ao exterior e, o mesmo é dizer, maior será o grau de submissão e subalternidade, seja em relação a Lisboa ou a Bruxelas. Cada vez mais a autonomia tranquila será autonomia de fachada, de dependência.

É bem sabido que a meta da plena auto-suficiência é um objectivo muito difícil e de longo prazo.  Mas é para esse objectivo que a sociedade açoriana tem que se orientar, com determinação e força. Quanto mais alta for a fasquia maior terá de ser o esforço

Os sinais do fim dos tempos das vacas gordas estão aí, por todo o lado. O tempo das dotações generosas do orçamento geral do estado e das contribuições chorudas dos americanos e franceses acabou.

Pura e simplesmente acabou, sem retorno.

Ficou à sociedade açoriana a tarefa, crucial e urgente, de se organizar com trabalho, rigor e eficiência. Toda a gente, desde o trabalhador por conta de outrem ao funcionário público, dos agentes económicos aos membros o governo, tem de se empenhar num processo que é urgente. Porque não há nenhum ente, superior e eminentemente bom, que em desespero de causa nos venha salvar do dilúvio.

Ninguém pode viver acima das suas posses por muito tempo. Ou dá em pedinte ou ladrão. Ou, então, põe a corda ao pescoço. O resto são histórias da carochinha.

O crescimento económico é, por isso, o grande desafio que se põe aos açorianos. E um crescimento económico sustentado e robusto tem que ter por base opções claras e consensuais. Não pode existir com o governo para um lado, os agentes económicos para o outro e os trabalhadores para outro ainda.

Uma dessas opções parece ser, cada vez mais, o turismo que se poderá transformar num pujante e estruturante sector da economia açoriana.

Com níveis de poluição ainda baixos, grandes belezas naturais e condições de segurança; os Açores poderão constituir, se nesse sentido afincadamente trabalharem, um destino apetecido e exclusivo para um segmento de mercado turístico europeu com alto poder de compra e que procura novos destinos de qualidade.

Mas não será a vencer gato por lebre que se chegará aonde quer que seja. O turista que interessa aos Açores não pergunta quanto custa, exige qualidade. Qualidade que tem pouco a ver com luxo, mas sim com serviço que terá que ser eficiente, empenhado e amável.

Por tudo isso assumem a maior gravidade dois episódios que, há bem pouco tempo, sucederam na simpática e acolhedora cidade da Horta.

Num sábado à noite um turista acidental procura, cerca das 23 horas, local para pernoitar. Numa das mais conhecidas residenciais da cidade encontra a recepcionista a namorar ao colo do namorado (?). Solicitando quarto, é-lhe dito que é tarde e que os patrões não gostam de alugar quartos àquela hora!

De rabo entre as pernas o nosso turista procura a maior unidade hoteleira da terra, aonde um atabalhoado recepcionista lhe diz que tem quartos mas que os «quartos não estão preparados» e que não tem ninguém para os preparar. Ponto final, paragrafo.

Novamente, de rabo entre as pernas, o malfadado turista acidental demanda, já com medo, a outra unidade de tutela governamental mas consegue, finalmente, uma dormida. Escapou ao banco do jardim, por uma unha negra.

Isto em Fevereiro de 1993 na cidade da Horta.

Aventuras e desventuras dignas do Reino do Mickey Mouse.



P E D R O  D A M A S C E N O


segunda-feira, fevereiro 15, 1993

O AMBIENTE E A POBREZA DE “ESPÍRITO”


FACE OCULTA

«A natureza conduz-se, não se muda»
Voltaire


O AMBIENTE E A POBREZA DE “ESPÍRITO”



Admitindo como premissas iniciais as bolsas de pobreza que existem em Portugal e os ainda medíocres níveis de vida de grandes sectores da população portuguesa, não deixa de ser igualmente verdade que a pobreza de muita gente tem mais de atávico e cultural do que real.

É comum ouvir-se a evocação de que «sou pobre» ou «somos pobres» como explicação para deficiências, incapacidades, demissões, etc. Sem que, em muitos casos, haja qualquer correlação visível ou sequer exista pobreza pecuniária real.

A pobreza é, de resto, um conceito lato que vai desde penúria e estreiteza de posses até à mansidão e escassez de inteligência. Assim é a língua portuguesa, rica e traiçoeira.

Vem tudo a propósito do ambiente e da sua prevenção.

Um pouco como em outros sectores, o público, em geral, tem em relação aos problemas do ambiente uma atitude passiva, esperando do governo e das autarquias as soluções de todos os problemas.

E se é bem certo que os grandes problemas do ambiente implicam, pela sua dimensão, complexidade e custos, a intervenção do Estado; não é menos certo que muito pode ser feito pelos cidadãos, quer a título individual quer comunitário

O tratamento dos grandes lixos, quer industriais quer caseiros, são, por exemplo tipicamente tarefa de entidades públicas. No entanto, actos tão triviais como não cuspir na rua e não deitar lixo de qualquer maneira e em qualquer lado, são tipicamente tarefas de todos nós.

E, contudo, esses «pequenos» actos, aparentemente banais e sem grande significado, multiplicados por milhares ou milhões, constituem um impacto ambiental de grande gravidade.

Da mesma forma, se a defesa do grande património e as actividades legislativas de preservação do ambiente são da competência do Estado, há inúmeras maneiros do cidadão comum participar nessa grande tarefa que é a manutenção e enriquecimento da natureza, primeira condição para a qualidade da vida humana. Não poderá haver vida humana de real qualidade se modificarmos de modo severo a natureza que é o habitat imprescindível para que o homem não se divorcie da sua real identidade: animal, racional e evoluído (?), mas indiscutivelmente animal com necessidades fisiológicas ineludíveis.

Para construir um mamarracho ou poluir não é essencial o grau de riqueza ou pobreza do autor. Um «pobre» não tem necessariamente que ter uma habitação feia, austera e triste. Da mesma forma que um «rico» não tem necessariamente que ter uma habitação bonita, bem integrada e alegre.

Postos de lado os casos de marginalidade e de real pobreza, tudo passa mais pela alma do que pelo bolso.

Uma habitação, bem modesta, pode ser acolhedora, alegre e integrada na natureza. Como também uma habitação, bem luxuosa, pode ser uma agressão ao ambiente, feia e triste. Tudo irá depender, essencialmente, de quem lá vive.

Mais tarde ou mais cedo, o homem terá que concluir que a sua corrida vertiginosa para o consumismo e alienação material é suicida. Os níveis de conforto material terão que atingir, bem cedo, um patamar máximo sob pena de se continuar a depredar, de forma irreversível, o planeta de cuja sobrevivência inteiramente dependemos. Bastará imaginar os biliões de habitantes do chamado terceiro mundo animados do mesmo espírito de competição desenfreado de uma América ou de um Japão. Pura e simplesmente não haverá Terra que resista.

O homem terá necessariamente de se virar para dentro, para a sua vida interior. Terá que haver um limite para o número de futilidades e bens de consumo totalmente supérfluos. A «competição» terá de se centrar mais no miolo e menos na casca.

O problema do ambiente passa muito mais pela nossa riqueza espiritual do que pela nossa pobreza material.

Antes dez poetas pobres do que cem «pobres» ricos.


P E D R O  D A M A S C E N O



sábado, janeiro 30, 1993

CARTA ABERTA AO PARTIDO SOCIALISTA


FACE OCULTA


«À semelhança da igreja católica, a pior publicidade do socialismo são os seus seguidores»
George Orwell



CARTA ABERTA AO PARTIDO SOCIALISTA


Caro P.S.

A poucos dias da tua reunião magna, decidi escrever-te esta carta na dupla condição  de cidadão comum e pessoa preocupada com o nosso destino colectivo.

A democracia para ser plena tem que conter alternativas políticas e de pessoas, credíveis e equilibradas. Em nenhuma circunstância deverá o voto popular servir para sufragar oligarquias. Estaríamos perante uma candidatura de nefastas consequências.

Deste modo, e no caso concreto dos Açores, qualquer cidadão responsável, socialista ou não, tem que reconhecer que és uma peça imprescindível no quadro democrático regional. Imprescindível porque és a única força partidária com dimensão e peso para poder disputar o poder.

Sendo assim as tuas responsabilidades ultrapassaram, em muito, os teus militantes e as tuas estruturas organizativas. És, também, responsável perante os eleitores, que sendo militantes e mesmo não socialistas, em ti votaram e perante todos aqueles que potencialmente poderão mudar o seu sentido de voto.

À semelhança do que acontece um pouco por todo o lado, a faixa dos eleitores descomprometidos, que decidem o voto à boca das urnas, não pára de aumentar. Do mesmo modo que o eleitorado fixo e incondicional dos partidos não cessa de diminuir.

E ainda bem que assim acontece pois é claro sinal de amadurecimento político e democrático.

Estamos numa época em que as ideologias se esbatem perante um conjunto de princípios de solidariedade, igualdade e justiça social que tende a tornar-se património das sociedades com democracias estáveis e economias equilibradas. Os grupelhos, nomeadamente os de caracter neonazi, são preocupantes mas não deixam, contudo, de ser manifestações marginais.

Caro P.S.
Ninguém te pede que renuncies aos teus princípios, bem antes pelo contrário. A força de um partido reside, em boa parte, na coerência que mantém na defesa dos seus princípios, sejam eles quais foram. As imitações e as prevenções, não compensam. E ainda há pouco tempo, se bem te lembras, tiveste essa experiência.

O que se espera de ti é que, de uma vez por todas, abandones o casulo em que te fechaste e te abras à renovação. Mesmo que isso acarrete a eventual falta de tacho para grande parte dos medíocres carreiristas que te têm tornado num partido baço, frouxo e arrogante.

Se queres ter credibilidade tens de deixar de ser o partido do que tem de ser ou do que não há outro remédio. Um partido do género «Que chatice, fulano não serve mas tem que ser porque não há outra alternativa». A distância entre consenso/compromisso e cedência/bandalheira é, muitas vezes, bem pequena.

Ninguém espera nenhum milagre deste teu congresso regional. A humilhante derrota de Outubro ainda está demasiado próxima e um líder não se faz por encomenda.

Apenas se pode esperar que, finalmente, te resolvas assumir de corpo inteiro como um partido credível e cries condições para enquadrar um vasto número de quadros disponíveis para participar num processo de modernização e progresso da sociedade açoriana.

O eterno dilema que a tua liderança (Goulart vs César) é um falso problema. Uma verdadeira autoflagelação, que apenas poderá ter explicação no divã do psiquiatra.

Se não tens o militante XYZ que desejarias para líder, então escolhe um militante seguro, sensato e, que não sendo humilde, tenha humildade. Se não tiver grandes dotes mediatários, paciência. O que é importante é que encontres alguém que te possa transformar num espaço de diálogo, de trabalho e de equipa, aproveitando os muitos recursos humanos que, apesar de tudo, ainda se encontram «perdidos» nesta ultraperiférica parcela europeia.

Que deixes, o mais depressa possível, o ghetto do «não há outro remédio» e do «é uma chatice mas tem que ser» e te definas pela positiva com um trabalho sério, persistente e competente.

Outubro passado foi um aviso bem claro. Não te fies que o que aconteceu de deveu apenas às habilidades do PSD.

Atentamente


 P E D R O  D A M A S C E N O

sexta-feira, janeiro 15, 1993

PÃO, CATRAPÃO, CATRAPUM


FACE OCULTA



PÃO, CATRAPÃO, CATRAPUM



A cerimónia oficial teve lugar nos Paços do Concelho que conseguiu ganhar o privilégio, com o prosaico jogo da moeda ao ar.

Como as câmaras da ilha não tinham conseguido pôr-se de acordo quanto ao local (as Lajes insistiram que devia ser no sul, S. Roque que devia ser no norte e a Madalena que devia ser lá), não houve outro remédio senão utilizar a moedinha para desenrascar.

Naturalmente por sorte, mas também por ironia, calhou à Madalena. Ironia porque bem em frente, lá na cidade da Horta, alguns jovens mastigavam, à mesma hora que decorria a cerimónia, uns saborosos pregos em pão (papo-seco) mirando a beleza inconfundível da montanha do Pico.

A hora era concebida ao Pico, como ilha e como parcela ultraperiférica da Comunidade Europeia. Os dignatários do Livro Guiness de Recordes chegaram num voo proveniente de Londres e destinado ao aeroporto de St. Luzia mas que, como é costume, não pode aterrar por razões atmosféricas.

Assim tiveram que vir pela Horta, aonde tiveram de pernoitar, dado que o horário de chegada do avião não atinou com o horário das lanchas do Pico. Como não estavam habituados com hábitos madrugadores da Transmaçor perderem a lancha da manhã e acabarem por vir na da uma que por não ser obrigada e desdobramento nem a velar pela integridade física e psicológica dos utentes, foi a Espalamaca. Escusado será dizer que levaram um arrocho dos diabos mas cá chegaram numa só peça.

As flores que os acolheram já estavam meio-murchas porque eram de véspera e tiveram que acarretar malas até ao Hotel Caravelas. Mas de resto chegaram muito bem e acharam, logo, a ilha lindíssima. Wonderful!

Depois de se banharem no Hotel com excelente água de Luso ficaram quase prontos para outras e partiram para a Quinta das Rosas onde foram obsequiados com um Pico se Honra e queijo da Cooperativa da Almagreira. Um grupo de jovens locais bailou gentilmente um chamarrita que, de imediato, cativou os ilustres visitantes.

Ao jantar, como o Garcia estava fechado para obras, o restaurante do Calhau fechado para férias e o Pinóquio para descanso do pessoal, foram jantar ao Salão da Criação Velha aonde lhes foi oferecido um abundante copo de água (Cit. De «O Dever»), servido por graciosas moçoilas locais.

A cerimónia, propriamente dita, começou, por isso, já um pouco mais tarde.

Presentes todas as forças vivas: deputados de todos os partidos, presidentes das assembleias municipais e câmaras dos três concelhos, todos os presidentes de junta de freguesia da ilha, todos os chefes de repartições públicas, presidentes das Santas Casas das Misericórdias, os presidentes dos conselhos de administração de centros de saúde, presidentes de conselhos directivos das escolas C+S, todos os chefes de bombeiros de todas as corporações da ilha e respectivos estandartes e treinadores de clubes de futebol, todos os maestros de filarmónicas, todos os chefes de agrupamento de escuteiros, etc., e muito povo anónimo.

Intrigados, os ingleses perguntaram pelos outros representantes da sociedade civil (câmaras do comércio e da indústria, associações agrícolas, sindicatos, associações culturais). Um pouco desconcertado o mestre de cerimónias balbuciou que não sabia mas que lhe parecia que não era costume.

O primeiro discurso, bastante inflamado, foi o de um fogoso deputado que descreveu a sua luta titânica na Assembleia Legislativa Regional com uma avalanche de requerimentos. Mas nada feito, concluiu. Nem o órgão máximo da sua autonomia conseguiu fazer prevalecer a sua vontade.

Depois falou o presidente da câmara anfitriã que descreveu, com maior detalhe, a luta travada pela Associação de municípios do triângulo. Em reuniões plenas na Horta e na Vela de S. Jorge, tudo fez para que o insólito terminasse mas nada, também, conseguiram. Pelo que achava justa a atribuição do galardão que, como representante de todas as câmaras, iria receber.

Foi, pois, com um frémito de emoção (e em momento magistralmente captado pelo Luís Bettencourt) que a sala apinhada ouviu o anúncio público do galardão e a sua entrega.

Também ligeiramente emocionado, o ancião inglês anunciou:

- Mr. President I have the great honor of presenting you with The Guiness Book award for the only place within Europe without dry-breads.

Foi o delírio quando o fogoso deputado traduziu que se tratava da atribuição do galardão Guiness para único local da Europa sem papos-secos.

No fundo da sala, uma mãe embaraçada repreendia o filho – vê lá se não queres levar uma tapona – que cantarolava em tom brejeiro:

- Pão, Catrapão, Catrapum!


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terça-feira, dezembro 15, 1992

Minha EDA gentil


FACE OCULTA

MINHA EDA GENTIL
DE EMPREGADOS MIL
NINFA DE DESENCANTOS
CEGUEIRA DOS MEUS PRANTOS
«Um PT anónimo»


Minha EDA gentil


Nem os poetas te resistem, Eda das nossas noites à moda antiga!

Bem podemos pregar e protestar contigo que nada adiantamos. Para ti o silêncio é de oiro e como o oiro, apesar da crise, está caro…estamos conversados.

Cortes tem-los de rodas as qualidades: de dia e de noite, de madrugada e ao entardecer, longos e curtos, totais e parciais. Terás defeitos mas também tens qualidades e destas avulta a democraticidade. Comem todos: do norte e do sul, do oeste e do leste, pobres e ricos, trabalhadores e preguiçosos, pêésses e pêpêdês. Até, coitados, os das Aliança Democrática.

Altiva e serena, continuas o teu rumo de fada. Espraiando teus raios cintilantes, por serrados e encostas, vales e montanhas, lagos e falésias, és a rainha incontestada e incontestável da nossa modernidade. Não há nada que te resista: televisões e vídeos. Computadores e caixas registadoras, arcas e frigoríficos, lâmpadas e holofotes. Através de ti bebemos a beleza e a arte, o trabalho e o pão.

As baleias, grandes seres que povoam a nossa memória colectiva, lá vão passeando, à custa da CEE, nos mares aos nossos pés. Deixando-nos sem óleo que em nossas candeias ardeu e que, modestamente mas sem cortes, nos iluminou. Quase que apetece dizer que antes vale uma baleia em terra do que duas centrais térmicas a cortar.

Mas a vida passa e os poetas que ladrem, dirás tu.

E, se calhar, tens razão. Sempre foi assim: os cães a levantarem a perna, os poetas a sonharem, a más-línguas a mexericarem, os trabalhadores a trabalharem, os outros a olharem para eles.

Porque havias tu, bem pensado, de dar mais luz do que aquela que o teu ventre, delicado e mimado, dá? Porque haveria a tua face mimosa de levar chapada dos filhos das trevas que pululam por todo o lado? Quem não te ama é porque é cego e a pior cegueira, bem o sabes, não é a que é provocada pela falta de luz mas falta de vontade de querer ver.

Por isso, hoje estou contigo. Sobretudo quando afirmas que se as pessoas soubessem o que custa dar à luz não haveria pirilampos nesta vida. Mas o que mais dói, concordo contigo, é andarem para aí alguns filhos da luz a comportarem-se como filhos das trevas e a tentarem trazer-te para a lama. Mas sempre foi assim em terras pequenas: cortar as asas a quem quer voar, puxar para baixo quem quer subir, escurecer quem dá luz.

Por isso aguenta-te no teu posto e não dês cavaco.

Ilumina enquanto puderes e quando não puderes manda-os todos levar no contador.



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segunda-feira, novembro 30, 1992

A BELICA DA TELEVISÃO


FACE OCULTA


                                             A BELICA DA TELEVISÃO         

   

A inusitada, repetida e desapropositada mostra de uma anónima belica lusitana com que a nossa única televisão nos «brindou» ultimamente, bem justifica estas belicosas linhas!

 Nada faltou, desde os primeiros planos aos desenhos explicativos. Belica sozinha, depois bélica já cozida ao dono e finalmente belica meia arrancada. Tudo acompanhado de sumarentos detalhes clínicos e cirúrgicos.

Nada nos move, obviamente, contras a belicas de uma forma geral e certamente nada contra esta em particular. Como nada nos move contra a liberdade de expressão, nos seus termos mais latos.

Apenas nos surpreende que uma televisão estatal e, por conseguinte, um serviço público, se preste ao mais insólito e sórdido sensacionalismo enveredando por uma completa e inconsciente falta de decoro e, ainda por cima, num dos tempos mais nobres - o telejornal.

 A história conta-se em dois tempos. Um doente mental mutilou, em virtude da sua doença, o pénis. Situação que não sendo de todos os dias acontece com alguma frequência em certos tipos de perturbações mentais.

Dados os avanços cirúrgicos que, felizmente, se registam neste país, uma equipa médica conseguiu suturar o órgão amputado ao doente, com aparente êxito. Dias mais tarde o doente tentou novamente a mutilação, desta vez por arrancamento. O que terá posto em risco o sucesso da intervenção cirúrgica.

Questiona-se que esta história, embora pouco comum, devesse ter honras de aparecer duas vezes no telejornal. Mas concede-se que tendo em conta que implicou um acto médico complexo, tenha constituído matéria aceitável para aquele programa. Mas apenas por tal, evitando os pormenores escabrosos como a belica na ambulância, no tabuleiro, etc..

O resto é, liminarmente, lamentável.

Em primeiro lugar porque constitui uma inaceitável quebra da privacidade de um cidadão que teve a sua intimidade exposta de forma perfeitamente explícita com a agravante de se tratar de um doente do foro psiquiátrico e consequentemente fortemente incapacitado até para protestar em tribunal o aproveitamento que foi feito da sua doença. Em segundo lugar porque veio explorar o bizarro e o insólito sem terem em linha de conta o eventual espectador, fosse ele maior ou menor, sensível ou não. Sem esquecer o papel formativo que a RTP / A, por única e omnipresente, tem.

Uma perfeita pirataria ao nível do «jornal do sexo» ou «jornal do Incrível». Ontem foi um pénis, amanhã pode ser uma vagina ou uns testículos!

Ficou-nos a sensação de se tratar de um bom exemplo da subcultura ou pseudocultura que, cada vez mais, prolifera e que se distingue pela abordagem dos temas de uma forma superficial, sensacionalista e inconsequente. Há assuntos que pela sua complexidade e importância devem ser abordados e discutidos em sede própria e com a necessária profundidade. Se assim não for arriscamo-nos a produzir informação «enlatada» e a estimular uma banalização de temas que deveriam ser tratados com sobriedade e seriedade.

A cultura é fundamental para a qualidade de vida das pessoas na medida em que lhes proporciona melhor entendimento de si próprias e promove o culto pelo belo e pela inteligência.

Mas jamais deverá deixar-se que cultura involua para subcultura, um subproduto caracterizado por «conhecimentos» cozinhados em «supermercados de informação» e engolidos de forma crítica e consumista. No fundo falar de tudo e de todos de maneira arrogante, ignorantes e irresponsável.

Não vamos ser conservadores nem puritanos, mas vamos ser sensatos. O sexo deixou, e muito bem, de ser um tabu. Deve fazer parte das nossas vidas como qualquer outra função do corpo humano e como tal deve ser encarado. Mas com respeito e equilíbrio.

Interessante seria imaginar o que pensaria o Dr. Sigmund Freud se tivesse tido acesso àquelas duas peças televisivas? Iria simplesmente rir-se ou iria mesmo levar o assunto a sério e propor, à Administração da RTP, umas sessões de psicanálise ao responsável pelo programa?

Abaixo a belica da televisão.



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sexta-feira, outubro 30, 1992

NEM O PRÓPRIO CRIME, ÀS VEZES, COMPENSA


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                                                                                                            O PS está a transformar-se num desgosto
                                                                                       Augusto Abelaira (23/10/92)


NEM O PRÓPRIO CRIME, ÀS VEZES, COMPENSA


As últimas eleições regionais foram, certamente, uma excelente lição para muita boa gente.

A começar pelos «três mosqueteiros» da AD Açores que sofreram a maior humilhação das respectivas e defuntas carreiras políticas. Levaram um «nyet» que nenhum político, mesmo no maior pesadelo, esperava levar. E deles, mais não rezará a história.

Seguidos do PS/Machado/Guterres/César que não atingiu qualquer dos objectivos que se propôs obter. Não conseguiu maioria, nem absoluta nem simples, para governar nem tão pouco o mais modesto de todos – retirar a maioria absoluta ao PSD.

 Apesar dos deméritos do PSD e de um desejo de mudança patente em largos sectores da população, o PS conseguiu uma meta notável: o aumento da maioria do PSD na Assembleia Regional! Ficou com o modesto prémio da consolação de ter subido 0,9% na Região.

O PS sofreu, por isso, uma clara e pesada derrota eleitoral que nenhum seu dirigente, por muito bem-falante que seja, conseguiu ou conseguirá escamotear.

A aposta de Mário Machado, com consequente descaracterização do partido e subalternização do seu líder, falhou redondamente. Sobretudo em S. Miguel onde se jogava, e toda a gente o sabia, o resultado eleitoral. Um claro aviso à navegação: fazer política à base de sondagens, passando por cima de projectos e pessoas, não pegou.

A derrota do projecto PS/Mário Machado/Guterres/César não foi grande mal para ninguém, para além dos seus principais protagonistas. Era à partida, um projecto «hermafrodita», uma manta de retalhos de cariz exclusivamente eleitoralista, sem coesão política nem chama.

Se calhar até foi bom porque, assim, não se queimou a ideia de que é necessário mudar. Como também não se abriu a porta a uma mudança que, por ter pés de barro, se arriscava a ser apenas uma mudançazinha que mais não traria do que maior descrédito ao sistema democrático e aos políticos. O que, de facto, se queimou foi (apenas) oportunismo; incoerência política e ambição de poder pelo poder.

O PS tem, agora uma encruzilhada e dois grandes caminhos.

O primeiro é aceitar, com humildade e inteligência, os resultados eleitorais e, finalmente, arregaçar as mangas e começar a trabalhar a sério para daqui a quatro anos. Trabalho que, essencialmente, terá de se desenvolver em duas frentes: por um lado repensar, o partido, o projecto e a liderança; por outro desenvolver um trabalho político e parlamentar profícuo e credível.

O segundo é limitar-se a lamber as feridas e a culpabilizar os natalinos e os sacos de cimento pela derrota e continuar à espera que algum truque de mágica (seja ele Mário Machado ou outro) lhe o poder.

Os Açores precisam do PS porque precisam de democracia e, o mesmo é dizer, de alternativas. E o PS é, simultaneamente, um partido com dimensão para ser poder e que se situa na grande área ideológica (social democracia/socialismo democrático) da maioria esmagadora dos açorianos. O problema do PS/Açores não é de dimensão nem de ideologia. É de liderança, trabalho e credibilidade.

Águas paradas só criam limos. Da diferença e do conforto é que surge a vida.

É imprescindível para o desenvolvimento da região que a vida democrática seja revigorada e que a Assembleia Legislativa Regional se transforme num verdadeiro fórum de trabalho político e debate.

O imobilismo e o unanimismo só servem a corrupção e o atraso.

Mas o PS se não mudar, será o eterno número dois. Teve uma oportunidade política de oiro e perdeu-a. Fundamentalmente porque preferiu a cábula ao trabalho, a improvisação ao planeamento.

Nem o próprio crime, às vezes, compensa.


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quinta-feira, outubro 15, 1992

CASOS EXEMPLARES


FACE OCULTA


«A civilização é um movimento e não uma condição, uma viagem e não um porto»
                                                                                                                                Arnold Toynbee


CASOS EXEMPLARES


É praticamente um lugar-comum falar mas dos telefones e dos correios. Tal é a frustração que as contínuas incompetências, abusos e prepotências criam nos cidadãos.

Os correios e Telecomunicações de Portugal continuam a ser um grande elefante branco que, sobranceiramente, caminha sobre o nosso quotidiano insular.

As reclamações e críticas são de todo o lado, das mais variadas e, por vezes bem exaltadas. Mas tudo termina, invariavelmente, no cesto dos papéis da empresa. Raríssimas vezes esta se dignou dar esclarecimentos públicos e adequados. E, quando o fez, foi mais para publicitar os milhões que investiu e vai investir na Região.

Mas não adianta gritar e espernear. Haverá sempre uma desculpa e tudo ficará, habitualmente, na mesma.

As situações, hoje já clássicas, repetem-se diariamente: contas de telefone exorbitantes que os utentes têm de pagar sem qualquer possibilidade de controlo, telefones que funcionam aos soluços e quando do calha, anos de espera para um telefone, cartas que desapareceram misteriosamente ou que demoram meses a chegar aos destinatários, tarifas especiais (expresso e correio azul) que não cumprem os prazos anunciados, etc. etc..

Mas mesmo que o cidadão se sente e escreva uma queixa perfeitamente fundamentada não tem qualquer garantia de ter uma resposta escrita, atempada e satisfatória. Pode esperar, debalde, mais um ano sem que o assunto ande. Por muito gravoso que isso seja para a sua vida. O que pode é deixar de pagar o telefone na alturinha certa e por muito disparatada que seja a conta, aí a empresa é mesmo eficaz. Adeus viola!

Os CTT funcionam para o imaginário comum como quele criminoso que faz trinta por uma linha e que acaba sempre por escapar. Arranja sempre um expediente, uma desculpa, um silêncio e está feito.

Só que, talvez, desta vez a empresa terá que enfrentar um situação muito concreta e da qual terá dificuldade em se deslindar com a habitual impunidade.

Numa estação de correios desta Região não uma ou duas cartas desapareceram, mas centenas! Desaparecimento que teve o tratamento que é habitual: encolher os ombros. Não estavam registadas, paciência. Ainda por cima os caminhos andam cheios de buracos.

Acontece, no entanto, que o «milagre» aconteceu: as cartas apareceram. Mas não por via de qualquer diligência dos CTT, apenas porque um cidadão comum as descobriu enterradas na terra e as foi entregar a um dos seus remetentes!... Assim mesmo, enterradinhas da costa. Cartas, mesmo sujas e tudo, que os CTT andam, finalmente, a entregar aos destinatários.

Naturalmente que haverá um responsável directo por esta situação mas não se trata de crucificar ninguém ou procurar bode expiatório para as deficiências desta verdadeira calamidade regional.

Importa, sim, pegar num caso exemplar e extremo como este e perguntar a quem de direito como é que é possível que situações destas acontecem em 1992. Como é possível que actuações desta gravidade possam existir e passar despercebidas e impunes, não fora uma coincidência?

Se calhar, grande parte dos nossos sofrimentos são devidamente a papeis que se enterram ou deitam fora, funcionários que não arranjam os equipamentos, responsáveis que não fiscalizam adequadamente os seus serviços, etc..

Quem faz um cesto, faz um cento.

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