quarta-feira, agosto 30, 1995

O lucro da imoralidade

FACE OCULTA 

«O maior risco que o homem enfrenta como espécie é o seu baixo nível de espiritualidade.»
Stan Islav Grof


O LUCRO DA IMORALIDADE


Até a sisuda BBC decidiu uns bons minutos dos seus noticiários televisivos, em dias consecutivos, ao “escândalo”.

Um conhecido actor britânico tinha sido preso pela polícia americana em Sunset Boulevard – Hollywood por ter sido apanhado em fragrante delito de prática de sexo oral por parte de uma prostituta da zona que tinha sido encontrada para o efeito.

A sociedade americana conhecida pela super hipocrisia em matéria de sexo levou os intervenientes, com o número de identificação de polícia ao peito, às televisões de todo o mundo. Embora se tratasse apenas de um delito (?) privado cujo único ingrediente diferente era o facto de um dos protagonistas ser um actor famoso.

Mesmo em Inglaterra o assunto serviu para extensas reportagens televisivas sobre as reacções da namorada do actor, filmada nas mais variadas situações. Transformando, assim, um assunto, privado, num assunto com honras de “prime time” televisivo.

O actor Hugh Grant não teve, por conseguinte, direito à sua privacidade só pelo facto de ser muito conhecido e pelo seu “deslize” ser matéria suficientemente forte para um público ávido de notícias sensacionalistas e sórdidas.

Tudo isso só por si já seria mau e dá uma boa ideia da decadência em que a nossa sociedade se encontra. Perderam-se as balizas do bom senso e do mínimo decoro e nada nem ninguém é respeitado: nem protagonistas nem público. O que interessa é que a notícia se venda, não interessa porquê.

Mas, infelizmente, o assunto não ficou por aqui.

Veio, agora, a conceituada revista Time publicar uma foto de Divine Brown (a prostituta a acompanhar a notícia de que ela acabou de assinar um contrato de 30 mil dólares com uma companhia de roupa interior para fazer a promoção dos seus produtos!

Ou seja, uma prostituta de rua de Hollywood ganha notoriedade a ponto de ter fotografia na revista Time e assegura um contrato de promoção de lingerie apenas pelo facto de ter exercido a sua profissão na pessoa de actor conhecido. Portanto aquilo que é um lamentável sinal dos tempos – o exercício da prostituição de rua num país com um nível de desenvolvimento como os Estados Unidos – não só foi matéria para parangonas de televisão mas oportunidade de negócio.

Só falta agora, à boa maneira americana, que qualquer dia apareça nos escaparates das livrarias, um livro assinado por Divine Brown em que ela relate em pormenor o seu já famoso sexo oral! E que, logo de seguida, se faça um filme sobre o assunto.

É evidente que nada nos mova contra as preferências sexuais privadas de cada um. É um assunto de foro íntimo e ninguém tem nada com isso.

O que é importante analisar é o facto de um lamentável episódio de sexo de rua, ocasional e desprovido de qualquer elevação, se transforme em matéria noticiosa de primeira página e em motivo de promoção dos prevaricantes e mesmo em oportunidade de bons negócios.
Que conclusões poderão os nossos jovens tirar de episódios como este? Que leitura poderão eles fazer de tudo isto? Obviamente que não há limites para a falta de decoro e bom senso e que o crime (?) ou a imoralidade até compensam. Tudo o que é preciso é que a história tenha algum ingrediente picante.

Imagine-se, por exemplo, o cartaz e o cachet que Divine Brown conseguiria se em vez de fazer sexo oral a Hugh Grant o tivesse feito ao Príncipe de Gales! Em vez dos filmes das lágrimas da namorada do actor teríamos circunspectos comunicados de imprensa emitidos pela Casa de Windsor e seráficas fotografias da rainha. Tudo o resto dependeria de um marketing e feito.

É pena que a cinco anos do ano 2000 num mundo tão problemático como o nosso em que a nossa própria existência poderá estar em causa e em que temos de vencer desafios tão grandes como a guerra, a fome e a doença (e mesmo a ameaça nuclear) ainda haja tempo e mercado para pequenas histórias frívolas e sórdidas sobre nada.

O que só vem atestar o baixo grau de espiritualidade a que chegámos em que tudo tem a ver, apenas, com o que é material e imediato e muito pouco com o que é ético, estético ou emocional. Um mundo que persiste na sua louca correria para o abismo.


P E D R O  DA M A S C E N O




segunda-feira, agosto 14, 1995

Gares, barcos e Companhia, Lda

FACE OCULTA


GARES, BARCOS E COMPANHIA, LDA.


Infelizmente, as ligações marítimas entre as ilhas do triângulo continuarão a ser manancial – pelos vistos inesgotável – das crónicas desta coluna e motivo para infindáveis rosários de lamentação.

Por mais que se diga, que se sugira ou que se critique tudo continua, mais ou menos olimpicamente, na mesma, ano após ano: os horários, os barcos, as gares, etc. Como se não se tratasse de um serviço público da maior importância para esta área dos Açores.

Ainda recentemente a RTP inseriu no noticiário da noite um trabalho da Delegação da Horta em que mostrava imagens de uma Espalamanca, completamente ultrapassada, a fazer a ligação Faial-São Jorge. Numa ilustração da pouca consideração que o confronto e a segurança dos passageiros merecem à transportadora concessionária.

Pena que a televisão não tivesse aproveitado e tomado algumas imagens do modo como se continuam a processar os embarques e desembarques de passageiros e carga no porto da Madalena.

A mais completa anarquia que não só torna a vida dos utentes um inferno como dá uma péssima ideia de todos nós a quem nos visita. Um amontoado de gente que se mistura, de forma totalmente desorganizada: que chega com que parte; quem quer, apenas, ver a lancha ou esperar alguém com que parte e com quem chega. Tudo isto sem áreas definidas para nada, sem sinalização ou qualquer outro apoio.

Mas quando se trata de bagagens tudo se complica, ainda mais. Como não há regras quem parte tenta pôr a sua bagagem junto do barco para ser carregada enquanto os que chegam tentam tirar a sua de lá, de mistura com quem nem parte nem chega e que apenas atrapalha. Situação que se agrava quando chegam ou partem grupos de turistas organizados que têm que se “desenrascar” em tal bagunça.

Se ainda se percebe que tornar a gare da Madalena minimamente adequada para o tráfego que serve tenha custos significativos, quer por envolver remodelação das instalações sanitárias que por implicar o aumento em área coberta; não se percebe, certamente, porque não se organiza, convenientemente, a chegada e partida de passageiros e bagagens.

Porque tudo o que isso implicará será, essencialmente, bom senso, sentido prático e algumas regras de boas maneiras. O fundamental é definir algumas áreas destinadas a fins específicos: um corredor para quem desembarca, uma para que embarca, uma área destinada a colocar as bagagens a desembarcar e outra para as destinadas ao embarque bem como uma área desafogada para quem as vai buscar e levar e, finalmente, uma área para os que não vão utilizar o transporte.

Depois serão apenas necessários alguns sinais indicativos e umas barreiras separadoras amovíveis. E a terminar, alguém, que oriente as pessoas e assegure que as reras civilizadas de utilização sejam cumpridas. O que não deverá ser problema porque entre a autoridade marítima, a policial e os funcionários da empresa concessionária sempre haverá alguém disponível.

Mas, em primeira mão, é imprescindível definir as regras de circulação e as áreas destinadas aos diferentes fins. Se em dias ou horas de pouco tráfego tais cuidados e preocupações podem parecer excessivas não o serão, certamente, nas alturas de tráfego mais intenso.

E, numa perspectiva optimista, o tráfego continuará a aumentar sobretudo na época de Verão e não a diminuir. Aumento que se fará, com toda a probabilidade, essencialmente à custa de visitantes que serão, simultaneamente, para todos nós uma fonte de desenvolvimento para já não falar no direito que nós, também, temos tratamento minimamente civilizado.

Demorou anos e muitas reivindicações e apelos para que os doentes do Pico com destino à Horta, em maca, fossem transportados com um mínimo de dignidade. É tempo, agora, de os passageiros correntes e respectivas bagagens terem o direito a embarques e desembarques com um mínimo de dignidade.

Faria, até, sentido (e porque não?) que nas gares da Horta e Madalena existissem carros de bagagens como existem nos aeroportos. Porque o porto da Madalena continua, porventura, a ser ainda a porta de entrada e saída mais importante do Pico. E nem toda a gente terá capacidade atlética necessária ao transporte de malas pesadas, por entre multidões compactas e empurrões de um lado para o outro, em distâncias significativas.

A questão da funcionalidade das gares é parecida com a dos horários. Tem fundamentalmente, a ver com boa vontade e bom senso e alguma criatividade. Tem muito pouco a ver com dinheiro.

O problema dos transportes marítimos entre ilhas do triângulo é, como repetidamente se tem afirmado, crucial para o seu desenvolvimento. E transporte marítimo não é apenas uma questão de barcos e equipamentos. É, também, uma questão de serviço.



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sexta-feira, julho 28, 1995

Não lembra nem ao diabo

FACE OCULTA


NÃO LEMBRA NEM AO DIABO


Com a pompa e circunstância, próprias dos grandes momentos, o Banco Comercial inaugurou, recentemente, o seu novo balcão na Horta. Um edifício de gabarito, num local sumamente central, a atestar a importância que o, ainda, banco “regional” atribui à capital do, ainda eufemisticamente chamado, ex-distrito da Horta.

E até aqui tudo iria bem. Mais um investimento vultuoso a atesta a importância que, apesar de tudo, a Horta ainda dispõe. Se por mais nada, pelo menos pelo facto de ainda ser um dos ex-três polos em que assentava a organização dos Açores antes do 25 de Abril e que nem sequer tantos anos de autonomia conseguiram apagar.

Mas, como se disse, tudo iria bem se a Administração do BCA não se tivesse lembrado de nomear como gerente da neófita e promissora agência um picoense que, ainda por cima, sempre tem vivido no Pico! Um picoense não assimilado (porque assimilados são muitos os que lá existem e que vão desde ex a actuais presidentes de câmara, membros do governo, etc.) que, “inexplicavelmente”, passou à frente de potenciais candidatos faialenses para vir a ocupar um lugar de algum relevo.

Facto, pelos vistos, custoso de engolir para certos sectores da ilha vizinha que desencadearam um movimento que teve honras de jornal, esquecendo, embora, outra nomeação que, pela lógica, deveria, também, ser considerada “estranha” como foi de um micaelense para dirigir os serviços de Obras Públicas do Faial.

Mas a coisa não foi pacífica tendo a administração do banco sido obrigada a deitar água na fervura por causa de assunto cuja competência lhe cabe por inteiro.

Não interessa para o caso se o ex-gerente da agência da Madalena do Pico é ou não a mesma pessoa com melhor perfil para ser gerente da nova agência da Horta. Essa avaliação cabe e compete ao concelho de Administração do BCA, pese embora o facto de se tratar de uma empresa pública. E, naturalmente, que essa administração escolheu, de entre os seus quadros disponíveis, aquele que lhe pareceu que lhe pareceu mais adequado para preencher o lugar.

E tudo ficaria por aqui, na mais rigorosa normalidade, se não se tivesse levantado uma verdadeira tempestade em copo de água pelo prosaico argumento do homem vir do Pico. Crime de lesa ilha e que deve ter deixado os administradores micaelenses boquiabertos.

Situação do mais complexo provincianismo que veio, mais uma vez, demonstrar como região ainda se pauta por critérios do mais puro corporativismo e como a generalidade das ilhas ainda vive um certo ipo de autismo narcisista. Uma região que anda, literalmente, com as calas na mão e com déficites de desenvolvimento, cada vez mais, preocupantes e que ainda se preocupa e perde tempo com situações da mais pura “lama caprina”!

O que é grave não é que o BCA tenha nomeado, no estrito âmbito das suas competências, um picoense do Pico para ser gerente do novo balcão da Horta como poderia ter nomeado um corvino do Corvo ou um Jorgense de S. Jorge.

O que é grave é que os ditos sectores faialenses se tenham preocupado, apenas, com isso. Esquecendo, e isso é que é realmente grave, que o futuro (?) ex-banco “regional”, pesem inaugurações de pompa e os discursos de circunstância, continua a não ser o verdadeiro motor da economia regional (e só por isso é que faria sentido a existência de um banco “regional” – atento e conhecedor das realidades e especificidades regionais). Banco que se limitou, sobretudo no último ano, à obsessão de uma operação cosmética que o tornassem apetecível para compra por parte de algum grupo financeiro continental de 2ª linha, dado que os principais já têm os seus interesses assegurados no arquipélago.

 As oportunidades perdidas na Região já foram e continuarão a ser muitas, em grande parte por falta de uma entidade bancária que – sobretudo nas ilhas mais pequenas – tenha percebido os grandes déficites estruturais dos Açores e tenha ajudado a dar “ o golpe de asas” a uma economia vulnerável. Uma entidade que soubesse identificar e apoiar os investimentos estruturais imprescindíveis ao arranque do desenvolvimento sem o qual nem a própria banca poderá sobreviver.

Seja na Horta, no Pico ou em S. Miguel o BCA continua a ser, fundamentalmente, um banco de pequenos e médios aforradores e um pagador de salários atolado em créditos mal parados, incapaz de responder adequadamente às solicitações do fragilizado tecido empresarial regional e aos mais elementares desafios do desenvolvimento. Circunstâncias que possivelmente ajudaram a minar eventual interesse de compradores credíveis e que levou ao adiamento “sine die” da sua privatização por falta de interessados.

Essa de contestar a nomeação do novo gerente da Horta do BCA da forma e pelas razões que o foi não lembra nem ao diabo.


 
P E D R O  DA M A S C E N O



sexta-feira, julho 14, 1995

Educação e Civismo

FACE OCULTA


EDUCAÇÃO E CIVISMO


Uma das grandes conquistas do 25 de Abril foi, incontestavelmente, a democratização do ensino – a possibilidade da população em geral ter acesso ao ensino. Conquista tanto mais importante dado o semi-analfabetismo que afecta a generalidade do país.

Um bem indispensável que só era acessível a uns quantos privilegiados e que, a partir daí, iria determinar oportunidades de vida, completamente diferentes. Com o advento da revolução, num período de tempo relativamente curto, a generalidade dos jovens começa a ter acesso ao ensino secundário e universitário.

Situação que implicou grandes desafios, desde a construção de uma imensidade de novos estabelecimentos de ensino ao recrutamento de números cada vez mais crescentes de professores. O que não só implicou o dispêndio de grandes verbas que também trouxe, no seu seio, uma inevitável crise de crescimento que, por seu turno, determinou uma compreensível e inevitável quebra de qualidade.

Tudo se passou demasiado depressa e com um crescimento exponencial. Procurou fazer-se em 20 anos o que não se tinha feito em 50! Certas repercussões eram de esperar: quebra de qualidade dos professores com a consequente quebra de qualidade dos alunos, avanços e recuos nos conceitos pedagógicos e programáticos, dificuldades financeiras, rupturas de equipamentos escolares, etc..

O que levou a que um dos desideratos mais importantes da democratização do ensino não tivesse, em grande parte, sido conseguido – o nivelamento durante a escolaridade das grandes discrepâncias sociais e culturais de um país saído de um longo período de obscuridade e descriminações.

Esperava-se que o ensino democrático viesse, rapidamente, repor os déficites culturais e sociais da generalidade dos cidadãos, colmatando as diferenças de ambientes familiares e sociais de que provinham. A escola, sobretudo secundária, deveria, assim, repor a igualdade. Teríamos, portanto, um número crescente de cidadãos com formação intermédia e universitária que viria, assim, engrossara população devidamente escolarizada e, consequentemente elevar o nível escolar, cultural e cívico do país.

Circunstância que, naturalmente, nos conduziria a um país mais apto para responder aos desafios da modernidade e do desenvolvimento. O desenvolvimento e os crescimentos económico e social passam, inexoravelmente, pelo crescimento do nível global dos cidadãos. E a base de qualquer democracia efectiva – e não o simples exercício periódico do direito de voto – tem a ver com o nível dos cidadãos.

Não basta, apenas, assegurar a igualdade de oportunidades, é preciso, também, assegurar a igualdade de ferramentas. Obviamente se vários pescadores estiverem a pescar do mesmo lago não é suficiente assegurar idêntico acesso às águas, é, igualmente, necessário assegurar idênticos equipamentos para pescar. O resto, então, é que terá que depender da capacidade de cada pescador. Factor que está, por isso mesmo, não mão de cada um desenvolver e que constitui uma das bases do direito à diferença.

Os cidadãos, em última análise, não são nem deveriam ser iguais. Isso deveria a um completo aniquilamento das perspectivas de aperfeiçoamento e crescimento que, cada um de nós, deve ter no seu âmago. Circunstância imprescindível ao desenvolvimento integral do homem e da sociedade.

Infelizmente a mercê de algumas das dificuldades e dos desvios apontados, o nosso ensino está ainda bem longe de conseguir assegurar a igualdade de oportunidades aos cidadãos. Se é certo que temos uma sociedade, genericamente, mais escolarizada também é verdade que temos uma sociedade, genericamente, menos cívica e menos portadora de valores de solidariedade e de respeito social.

Ao crescimento da escolaridade tem, infelizmente, correspondido um decréscimo de civismo e de valores de referência. Temos mais cidadãos alfabetizados mas menos civilizados. Ironia que se torna evidente a níveis elementares da convivencialidade e do dia-a-dia.

O que seria normal esperar de cidadãos mais alfabetizados seria uma concomitante melhoria do comportamento cívico e social. Mas passa-se exactamente o contrário. A uma maior alfabetização tem correspondido um decréscimo cívico perfeitamente patente na generalidade dos nossos jovens que parecem desconhecer, inclusive, as maiores elementares regras de cortesia e de consideração para com os outros.

Por tudo isso é fundamental uma reflexão profunda dobre o sistema educativo e a descoberta de novas pistas que venham pôr cobro a essas contradições. Talvez o melhor seja começar com uma política de pequenos passos.

Porque não iniciar, por exemplo, o ensino de disciplinas na área do civismo e do comportamento social que venham trazer aos jovens alguns valores e hábitos imprescindíveis à viabilização de uma sociedade verdadeiramente humanista e igualitária? Da mesma forma que é imprescindível andar antes de correr.


P E D R O  DA M A S C E N O


sexta-feira, junho 30, 1995

VANDALISMOS

FACE OCULTA


VANDALISMOS

(A MORTE DA GALINHA DOS OVOS DE OURO?)


Parece não merecer dúvidas a ninguém de que o novo modelo de desenvolvimento dos Açores terá de assentar no turismo. Ainda há poucos dias essa afirmação foi feita à RTP pelo vice-presidente da Câmara do Comércio dos Açores sem que tivesse sido contestado por qualquer dos outros participantes no programa. Nomeadamente não o foi por parte do Secretariado do Comércio e Indústria, Gaspar da Silva.

E essa análise decorre não só das insuficiências que a Região apresenta noutros sectores – nomeadamente da indústria, na agricultura e nas pescas – mas porque oferece excepcionais condições para o crescimento daquele.

Desde logo pelas belezas naturais mas não esquecendo outros aspectos não menos importantes como a tranquilidade e a segurança. Conjugação de factores que potencializa um destino turístico com a procura crescente na Europa que se começa a cansar dos chamados destinos exóticos. A procura do regresso à natureza não para de ganhar adeptos sobretudo entre os quadros médios e altos dos países mais industrializados que demandam férias que lhe reponham as energias perdidas no stress dos grandes meios.

Conjuntura que põe os Açores à frente da própria Madeira que proporciona um bom destino de mar/sol mas que já se afastou demasiado da ruralidade imprescindível para satisfazer quem procura um regresso à natureza.

E, dentro dos próprios Açores, o Pico tem se vindo a posicionar como uma ilha especialmente dotada para se constituir um destino de natureza. Pelo seu avantajado tamanho, pela sua pequena população e baixo tráfego, pela sua ruralidade e insignificante poluição, pela sua tranquilidade e segurança. Esta ilha, majestaticamente, situada entre o Faial e São Jorge tem todas as condições para o desempenhar um papel ímpar no desenvolvimento do sector no arquipélago.

É, por conseguinte, causadora de grande apreensão e existência de alguns fenómenos – por enquanto ainda em pequena escala- de vandalismo impune. A mesma política que se revela completamente incapaz para disciplinar o tráfego automóvel (que, apesar de todos os apelos feitos a quem de direito, se continua a deteriorar ininterruptamente com uma sinistralidade preocupante) revela-se, também, totalmente incapaz para suster os, ainda pequenos actos de vandalismo que têm vindo a crescer.

Actos que, apesar de tudo, já preocupam uma população ainda habituada a deixar a porta de casa aberta. Delitos que vão desde a prática de pequenos furtos à destruição de sinais de trânsito e tabuletas passando por espancamentos a forasteiros e roubo sistemático de combustível em máquinas de trabalho e acabando nas tropelias de motocicletas-filhos-de-papá-com-menos-juízo-que-eles. Naturalmente para não falar das recentes descobertas de droga na costa da ilha e de que nunca mais se ouviu falar (!) apesar de já serem evidências de “caça” bem mais grossa.

Mas, tudo isto não teria uma gravidade por aí fora, se as pessoas sentisse que algo é ou será feito e sua defesa. Mas, infelizmente, tal não acontece. Ninguém acredita a política que, deste modo, se torna motivo de chacota. Pelo que grande parte dos ofendidos ou lesados nem se dá ao trabalho de apresentar queixas que não passarão de mais uma chatice burocrática.

Naturalmente que o Pico, infelizmente, está, ainda, muito longe do clima de insegurança e medos que se vive noutras zonas do país sobretudo nos grandes centros urbanos. Mas para lá iremos se não acabar, rapidamente, com o clima de total impunidade que aqui se vive.

E o que dói, mais do que tudo, é a constatação de que tudo isto se poderia resolver de um dia para o outro com a maior das facilidades. Sem precisar de super-esquadras ou, se calhar, mesmo de mais efectivos policiais. Bastaria apenas que a polícia começasse a desempenhar cabalmente a sua missão em ligação e colaboração com as autarquias, nomeadamente as câmaras, que também são responsáveis pela segurança dos munícipes.

No fundo o Pico não passa de ima terra pequena aonde todas a gente sabe tudo o que se passa sobretudo se tiver a ver com as histórias de alcova do vizinho ou outras de teor igualmente picante! Como toda a gente, também, sabe quem são os delinquentes e os desordeiros habituais. E por consequência se não se actua, pelo menos na grande maioria dos casos, é porque não há vontade de quem pode e deve agir.

Será que vamos mesmo matar a nossa galinha de ovos de ouro?



P E D R O  DA M A S C E N O


quarta-feira, junho 14, 1995

Subsídio pra o Cidadão

FACE OCULTA


“DEIXAR VOAR EM CONDIÇÕES DE IGUALDADE”
SUBSÍDIO PARA O CIDADÃO E NÃO PARA A COMPANHIA


O recente e inadmissível aumento das tarifas aéreas entre Lisboa e a Região veio, na minha opinião, repor na primeira linha das preocupações regionais uma questão que se revela da maior importância para o arquipélago.

Porque é rigorosamente inadmissível que um bilhete de avião Açores-Lisboa-Açores, com preço especial (?) de residente, seja mais caro que um bilhete Lisboa-Londres-Lisboa ou Lisboa-Paris-Lisboa! O que torna, para a maioria dos açorianos, absolutamente proibitivo viajar para Lisboa ou seja utilizar um voo doméstico que é a única alternativa de ligação com o continente, o mesmo é dizer, com o resto do país. Só mesmo em caso de doença!

Para já não falar do espaço europeu em que estamos inseridos e que é, também para a maior parte de nós, uma realidade completamente intangível. Sendo, por outro lado, mais barato para os portugueses em geral viajar para qualquer parcela do continente europeu do que para uma parcela do seu próprio país. Situação que, embora tendo alguns eventuais fundamentos económicos, não deixa de ser completamente castrante do desenvolvimento económico da Região para não falar de evidentes desigualdades de direitos dos açorianos face aos restantes cidadãos do seu país.

Desvanecido que foi o “sonho” da SATA – Air Açores de viajar para fora da Região, mantém-se, contra toda a lógica, um monopólio da TAP mesmo em relação à Portugália, companhia tão portuguesa como aquela e que tem provado ser gerida com maior rigor e sentido de viabilidade que o verdadeiro elefante branco em que se transformou a nossa companhia de bandeira.

Toda a gente sabe que a TAP é uma companhia com uma estrutura de custos completamente inviável. Facto que os milhões injectados pelo estado não têm conseguido alterar sendo mesmo questionável que os próximos milhões de contos (700 milhões?) que o governo vai ter que disponibilizar nos próximos 4 anos para a tentativa de viabilização da empresa consigam resolver o problema.

E é, também facto incontroverso que os grandes déficites da TAP nada têm a ver com as ligações aéreas com as regiões autónomas. Os déficites da TAP têm, sim, a ver com os outros factos que não passam, nem de perto nem de longe, por essas ligações. E tudo leva, mesmo, a crer que as rotas para as nossas ilhas são bem positivas para a TAP. Se assim não fosse não faria sentido o interesse que a transportadora nacional tem na manutenção do monopólio.

Monopólio que nas palavras de Ribeiro da Fonseca, presidente da Portugália, “é contra o desenvolvimento económico e turístico das Regiões Autónomas” não entendendo, também, aquele empresário que o subsídio de residente vá parar às mãos da companhia e não do cidadão que, de outro modo, poderia procurar alternativas. Situação que cria desigualdade de condições para voar a empresas igualmente nacionais, retirando competitividade ao mercado aéreo das regiões insulares que se vê, assim desprovido de uma das mais elementares regras da economia de mercado.

Ao definir uma política aérea nacional, sobretudo no que diz respeito aos Açores e Madeira, com regras claras e equitativas que permitam voar em condições de igualdade outras companhias nomeadamente, portuguesas está-se, iniludivelmente, a julgar o nosso futuro. É já um chavão mais do que conhecido a ideia de que o nosso desenvolvimento passa por transportes adequados e a preços acessíveis mas nunca foi tão verdade como hoje em dia.

De facto, os Açores, cada dia que passa, afastam-se mais de uma economia de subsistência para terem metas de desenvolvimento e bem-estar ao nível europeu como é justo e legítimo. Ora estas metas jamais poderão ser atingidas se o peso da insularidade aumentar em vez de diminuir. E o peso da insularidade conhece o seu expoente máximo ao nível dos transportes sobretudo quando a sua saúde financeira depender, de forma cada vez mais significativa, do turismo.

A actual política aérea para a Região autónoma dos Açores não serve e é, objectivamente, um dos maiores travões ao desenvolvimento regional. A TAP serve mal e caro. É, por isso, prioritária a definição de uma nova política para as ligações Lisboa-Açores que respeite as regras do mercado, proporcionando igualdade de condições de voar para a Região e pondo as mãos nos cidadãos residentes qualquer eventual subsídio que se atribua e que, desse modo, terão uma palavra a dizer.

Que queiram impedir que as companhias estrangeiras operem para os Açores nos voos domésticos ainda se percebe, embora a palavra estrageiro em termos europeus faça, cada vez mais, pouco sentido.

Mas impedir que a Portugália o faça só faz sentido por razões perfeitamente obscuras, pelo menos, para o cidadão comum.


P E D R O  DA M A S C E N O


sexta-feira, maio 12, 1995

Carta aberta ao Director

FACE OCULTA


CARTA ABERTA AO DIRECTOR DO ILHA MAIOR
(TRIÂNGULO OU MITO?)


Caro Director

Após vários anos de colaboração regular é a primeira vez que lhe dirijo uma carta. E fi-lo porque vi um repto seu, público, cair em saco roto, como se diz.

No penúltimo número do jornal tentou, em editorial, abrir um debate público sobre a momentosa questão dos transportes marítimos entre ilhas do triângulo com especial ênfase para as ligações São Jorge-Pico.

Ao contrário do que seria de esperar – dada a importância do assunto – a resposta foi nula. Facto que inspirou o subtítulo desta crónica pois a questão do triângulo ainda continua a ser muito mais um mito/fantasia do que uma realidade palpável. Nem mesmo a constituição da associação dos municípios do Faial, Pico e São Jorge conseguiu corporizar o arranque efectivo dessa ideia que continua tão longínqua como a do Pico – ilha do Futuro.

A ideia do triângulo continua, ainda, a ser sentida (a sério) apenas por um punhado de pessoas que perceberam, realmente, que o destino destas ilhas – numa perspectiva de desenvolvimento, de progresso e de qualidade de vida – passa pela união desses três pequenos universos ilhéus que separadamente pouco ou nada podem mas que, em conjunto, poderão constituir uma das mais férteis apostas da região sobretudo num sector que se postula como uma grande aposta de futuro nos Açores: o turismo.

Por isso, caro director, resolvi eu, já que mais ninguém o fez, escrever-lhe esta carta. Para o felicitar pela iniciativa e para tecer armar a seu lado.

A ideia da imprescindibilidade de boas e regulares ligações marítimas entre as três ilhas que defendeu é, também, no meu entender, crucial para que o conceito de triângulo tenha expressão prática.

Ou, sendo um pouco mais radical, nunca haverá triângulo enquanto as três ilhas não forem ligadas por transportes marítimos regulares (no mínimo diários), eficientes e económicos. Esses são os alicerces em que terá que assentar o triângulo. E, por consequência, se eles não existirem não haverá triângulo.

São Jorge e Pico tem estado afastadas, exactamente, porque não têm ligações diárias – uma de manhã e outra tarde. Ligações que, numa primeira fase, terão, necessariamente, déficites de exploração mas que, rapidamente, poderão ser rentáveis. Para tanto bastará que as populações das duas ilhas se habituem a aproveitar as mútuas potencialidades, para já não falar do turismo.

E as potencialidades de intercâmbio (industriais, comerciais, de saúde, culturais e de lazer) são inúmeras mas bastará reflectir apenas no alargamento do universo de consumidores, que a ligação entre as duas ilhas implicará. E que ficará, naturalmente ainda mais reforçado com o Faial.

A recente decisão da Associação dos Municípios do triângulo de desenvolver acções no sentido da aquisição de um barco para garantir as ligações regulares São Jorge- Pico é extremamente positiva, a nível oficial e institucional, a urgência e a importância desta questão.

Obviamente a Transmaçor, que não consegue sequer ligar, adequadamente, o Pico ao Faial não vai, por maioria de razões, ser um parceiro credível para iniciar este tipo de ligações. Essa transportadora que continua a mostrar uma completa insensibilidade para responder aos desafios do desenvolvimento e da modernidade (em pleno mês de Maio ainda não tem a lancha da tarde, senão a partir do dia 14!!) não vai certamente considerar uma linha de “risco”.

Mas, e nisso estaremos todos de acordo, os custos de exploração inicial das ligações regulares São Jorge Pico terão custos eminentemente sociais e que terão que ser suportados, em grande parte pelo menos e no início da exploração, pelo erário público. Porque é, exactamente, para esse tipo de coisas que é importante que exista autonomia: para perceber e suprir as especificidades das diferentes ilhas e áreas do arquipélago. E a especificidade máxima das ilhas do triângulo, é, justamente, a necessidade fulcral e inadiável das ligações marítimas regulares.


Caro Director

O repto está, agora, nas mãos dos políticos (sobretudo dos autarcas e dos deputados) e dos agentes económicos que, em colaboração estreita, deverão procurar os meios e exercer as pressões necessárias à concretização desse objectivo.

Penso que o seu desafio veio numa altura muito oportuna e seria óptimo que mais gente viesse dar o seu contributo para uma questão da mais alta relevância para essa área e cujo desfecho dependerá, sem dúvida, do montante do apoio e empenhamento público das mais variadas entidades e da população em geral.

Com os melhores cumprimentos,


P E D R O  DA M A S C E N O

sexta-feira, abril 28, 1995

Uma questão de sensibilidade

FACE OCULTA 


UMA QUESTÃO DE SENSIBILIDADE E BOM SENSO



Infelizmente mais dois promissores jovens picoenses perderam a visa num trágico acidente de viação. O que vem, mais uma vez, chamar a atenção – para quem quiser ver – sobre os perigos que as estradas escondem, quer seja sob forma de potentes motos quer seja sob forma de um voluntarismo de condução que a maioria dos jovens tem.

Ninguém quer morrer mas poucos pensam, até pela idade, no perigo.

Mas, infelizmente também, não foram apenas duas vidas que se perderam. Foram, também, algumas vicissitudes que as famílias sofreram para poderem passar as derradeiras horas juntos dos seus filhos. O que acabou por ter sido possível apenas porque se conseguiram reunir um conjunto de boas vontades (desde os médicos até à entidade judicial).

Não se questionam, naturalmente, nem a legitimidade nem a competência de quem ordenou a autópsia nem tão pouco se pretende atribuir-lhe culpas +ela falta de condições locais (inexistência de uma morgue com um mínimo de condições) para fazer face – de forma digna – a situações legais incontornáveis.

O que se questiona, isso sim e não pela primeira vez, é a falta de condições locais para responder, de forma digna, a situações excepcionais (a hora tardia do óbito e os condicionalismos extremamente emotivos gerados pela idade dos sinistrados) se junte uma falta de filosofia de fundo que se preocupe em lidar de forma específica com as diversas situações.

Porque se não tivesse sido possível reunir o conjunto de boas vontades que acima se referiram, as jovens vítimas teriam permanecido pelos menos 30 horas encerrados numa garagem a servir de morgue sem poderem ser acompanhados nem sequer pelos próprios pais que se teriam limitado a ver, pela derradeira vez, os filhos mesmo em cima do funeral!

E, no entanto, é de mais elementar justiça poupar pais e amigos e mais essa provação extra. Ninguém tem culpa – nem os que morreram nem os que ficaram - que o acidente tenha ocorrido de madrugada e que portanto o térmito das 24 horas que a lei prescreve ocorra também de madrugada. Mas é importante criar a cultura de suprir, de forma mais célere e expedita, os requisitos legais.

Requisitos legais que têm que ser, indiscutivelmente, cumpridos mas que não têm que, necessariamente, ignorar questões emocionais e culturais da maior relevância.

Nos grandes meios onde tudo é mais impessoal talvez tudo possa acontecer de forma diferente, também mais impessoal. Mas no Pico a ilha ficou literalmente de luto, atordoada na sua pequenez e no seu pessoalismo.

Não é objectivo desta crónica descortinar responsabilidades nem descobrir culpados do que quer que seja. Mas tão somente chamar a atenção para um tipo de situação que já ocorreu e que poderá, infelizmente, vir a repetir-se.

A questão da morgue/morgues (?) do Pico tem que se devidamente equacionada de modo a que no futuro as pessoas possam ter a possibilidade de acompanhar com dignidade os seus defuntos e não terem que, eventualmente, disso serem privados permanecendo, literalmente, à chuva e vento.

A lei tem que ser cumprida mas as pessoas, mesmo depois de mortas, têm de ser respeitadas.

Ao fim e ao cabo é uma questão de sensibilidade e de bom senso e para a qual se chama a atenção dos intervenientes mais responsáveis, nomeadamente do Ministério da Justiça e da Secretaria Regional da Saúde e Segurança Social.



P E D R O  DA M A S C E N O

quarta-feira, abril 12, 1995

As lanchas do Pico

FACE OCULTA


AS LANCHAS DO PICO UMA AUTÊNTICA POUCA VERGONHA


Embora este tema já tenha feito correr muita tinta, pouco ou nada mudou na mentalidade de quem continua a planear (?) este serviço público de importância crucial para as duas ilhas vizinhas.

Com frequência crescente, vemos citar os números extremamente significativos de passageiros que cruzam o canal Faial-Pico ao longo do ano. Citações que têm mostrado incapazes de suscitar as correlativas e fundamentais mudanças.

Os terminais, com especial ênfase para o do Pico, continuam a não oferecer um mínimo de condições de dimensão, conforto ou mesmo higiene. As condições de chegada e saída e o tratamento das bagagens continuam a ser perfeitamente caóticas, não respeitando qualquer tipo de regras. E os horários, sobretudo estes, continuam a fazer-se segundo um figurino completamente ultrapassado e já não corresponde a qualquer realidade actual.

De bom, pouco mais se faz do que adquirir o Cruzeiro do Canal que, é forçoso reconhecê-lo, veio melhorar de forma dramática as condições de travessia do canal. Quem não se lembra das travessias na Calheta ou mesmo na Espalamanca? Mas ficámos por aí, em matéria de inovação.

Continua a ser completamente proibitivo transportar um carro entre o Faial e o Pico, situação que poderia ser extremamente frequente e, deste modo, altamente lucrativa para que a empresa concessionária. Está anunciada a vinda de um barco com condições para transportar veículos. Aguardemos os preços e horários.

Hoje, mais do que nunca, a vida das duas ilhas vizinhas depende da qualidade e frequência das ligações marítimas. Como compreender, portanto, que se continuam a praticar horários completamente desajustados de todas as realidades nomeadamente do facto de a TAP escalar o aeroporto da Horta e serem inúmeros os passageiros provenientes ou com destino ao Pico?

Nada é feito a pensar nessa realidade ou mesmo no facto de que as pessoas que deslocam entre as duas ilhas não dependem, na esmagadora maioria dos casos, de ligações terrestres completamente obsoletas. Ou então que os utentes que se deslocam em função dos mais variados interesses e necessidades não podem estar condicionados por horários que apenas faziam sentido há 20 anos.

Como se perceber que a última lancha entre o Pico e o Faial seja às 16H45 com saída da Horta às 16 quando às 20 horas ainda é perfeitamente dia!? Ou que ao Domingo e dias feriados continue a haver apenas duas lancha? Ou que, mesmo de Inverno, se continue a não fazer viagens de noite com argumentos perfeitamente pueris?

Será que os horários das lanchas são feitos com o objectivo primordial de defender os interesses das tripulações em vez dos interesses dos utentes que deviam constituir a razão de fundamental da companhia?

O serviço de lanchas do canal é um serviço público da maior importância para o quotidiano de faialenses e picoenses e, sobretudo destes, agora que o governo decidiu que os doentes do Pico têm quase que passar, sempre e inexoravelmente pela Horta mesmo que tenham indicações para especialidades não existentes no Faial!...Se já dantes essas ligações eram importantes, ganham, agora, redobrada importância até no plano ético.

Já que os doentes do Pico têm que passar a vida a corres para o Faial, ao menos que se lhes poupe as despesas e os incómodos das noites que lá têm que ficar por causa de uma simples consulta ou exame. Porque são muitas de facto as pernoitas e refeições que os picoenses têm que fazer no Faial por causa de horários de lanchas completamente desajustados da realidade.
Nos dias que correrem já não faz qualquer sentido – a não ser por interesses que nada têm a ver com os passageiros – que haja o corte da lancha da tarde durante o inverno. Possivelmente poderia ser um pouco mais cedo, por exemplo com partida, antecipada, da Horta paras as 17H30 e com a consequente alteração também da lancha das 13 que poderia antecipar-se para as 12 ou 12H30, mas nunca eliminada, pura e simplesmente.

Os utentes das lanchas do canal já não utilizam na sua grande maioria, como já se disse, os transportes públicos.

O que as pessoas de facto precisam, hoje em dia, é de horários que comecem cedo no dia e acabem ao fim da tarde com uma lancha intermédia organizada em função da última seja de Verão seja de Inverno. Horários que lhe permitam utilizar a TAP na Horta, ir ao médico ou às compras ou então fazer o seu negócio sem terem que andar às correrias ou então, o que ainda é pior, terem que gastar desnecessariamente dinheiro (que às vezes nem possuem) em alojamentos e refeições.

Para já não falar nas repercussões extremamente negativas para o turismo, sector que tem vindo a assumir importância crescente para as duas ilhas e cujo sucesso muito contribuirá a política dos transportes não só entre o Faial e Pico mas também entre estas e S. Jorge porque está, novamente na moda falar no triângulo. Mas nunca haverá qualquer triângulo, seja de ângulo aberto ou fechado, enquanto estas ilhas não forem ligadas pelo mar de forma racional e sistemática.

É urgente que a política de ligações marítimas entre o Faial e Pico seja devidamente repensada e que não se deixe ficar ao simples arbítrio da empresa concessionária.

Assim o mandam os imperativos de carácter social e económico para já não falar em linear senso comum.


P E D R O  DA M A S C E N O