sexta-feira, agosto 19, 2005

Será que ainda amamos, de verdade, a nossa Ilha?

Será que ainda amamos, de verdade, a nossa Ilha?



Desde sempre, os nossos agricultores tiveram um papel central na manutenção do ordenamento territorial das ilhas. Foram eles que modelaram, com suor e lágrimas, o que é hoje património da humanidade.

Foram eles que, com sensibilidade e bom senso, conquistaram, pedra a pedra, a terra que lhes permitiu sobreviver e criar as suas famílias. Terra com que estabeleceram uma relação reverencial.

Porque eles percebiam e sentiam que sómente uma relação de muita proximidade e respeito com a terra, lhes poderia assegurar sustentabilidade e, o mesmo é dizer, a sobrevivência.

Eram tempos muito duros em que as ligações com o exterior eram precárias e raras. Tinham, forçosamente, que depender da mãe-terra para tudo. Sentiam estas terras como a sua verdadeira casa, como o ventre da sua mãe.

Quem não se lembra, ainda, de velhos agricultores e do seu apego e verdadeiro amor à terra? Para eles, a terra era muito mais que um meio de sobrevivência – era um modo de vida, uma maneira muito especial de estar na vida.

Vida muito modesta mas temperada por uma dureza que lhe conferia um elevado grau de humanidade e de capacidade de entreajuda. Vida que, no entanto e felizmente, melhorou, a olhos vistos, nas últimas décadas.

E dá gosto ver a substancial elevação do nível de vida dos agricultores, desde a qualidade da habitação, ao poder de compra e à própria escolaridade. Bem longe vão os tempos de profunda modéstia em que viveram durante séculos.

Por tudo isto seria de esperar – pensamos nós – um maior cuidado e sensibilidade pela natureza e pelo ambiente que serão sempre, ao fim e ao cabo, o suporte da actividade agrícola.

Sendo, por conseguinte, com a maior mágoa que começamos a verificar, por toda a ilha, um total desleixo no tratamento do lixo resultante das explorações agrícolas nomeadamente dos sacos utilizados para as rações e fertilizantes, dos invólucros de medicamentos, das coberturas plásticas e, mesmo, de grades de madeira para transporte de carga.

As nossas terras começam a estar invadidas por todos esses detritos que condicionam, de forma crescente, a paisagem e dão uma péssima imagem de nós próprios. E já não é raro ver turistas a recolher esses detritos que, posteriormente, depositam em local apropriado!

Para além das questões de mera higiene e de asseio fica-nos a sensação que há, por trás de tudo isso, um falta de respeito e, mesmo, de amor por essas terras que já deram de comer a tantas gerações e que, ainda hoje, são o primeiro suporte destas ilhas.

Seja por causa da actividade pecuária, seja por causa do turismo ou seja – simplesmente – por causa da nossa qualidade de vida. Sendo que um dos pilares básicos de qualquer actividade sustentável é o total respeito pelos recursos existentes.

Ou – por outras palavras – um crescimento sustentável só é possível se salvaguardarmos os nossos recursos de modo a que os vindouros também os possam vir a usufruir. O que não será, concerteza, o caso de uma paisagem infinda de sacos de rações e recipientes plásticos.

Será que ainda amamos, de verdade, a nossa Ilha?



P E D R O D A M A S C E N O







sábado, agosto 13, 2005

A importancia do estado laico


O Estado deve preservar uma distância primordial em relação à esfera religiosa
Vital Moreira


A importância do estado laico



Desde há muito que se entende - na Europa - que a secularização do Estado é um sinal de modernidade e tolerância. A nossa história provou que o casamento entre Estado e Igreja nunca foi benéfico nem potenciador de desenvolvimento.

Progressivamente, foi ganhando raízes o entendimento de que as opções religiosas são questões da esfera íntima e pessoal e que, por isso mesmo, não se devem repercutir na sociedade como um todo. Tanto mais que a mescla de religiões que existem no nosso seio tem vindo a crescer de forma significativa.

Há muito tempo que a maioria dos estados europeus deixou de precisar da religião para afirmar a sua identidade nacional. Para que alguém se sinta português, hoje em dia, não é forçoso que se sinta católico, embora o Catolicismo tenha sido a religião que mais profundamente marcou a História e a Cultura portuguesa.

O que de modo algum retira às práticas religiosas a importância que podem ter no âmbito pessoal e espiritual. Mas que, apenas, coloca no plano certo uma faceta – embora muito importante – da nossa vida.

Qualquer confissão religiosa tem como base uma posição de fé. Fé que não carece de demonstração para poder ser vivida em plenitude e que, simultaneamente, deixa de fora qualquer necessidade de debate.

Uma religião necessita de estudo, aprofundamento e militância. Mas jamais necessitará do voto democrático como forma de poder exercer a sua actividade. Por definição, só pratica uma religião quem quer.

A opção religiosa é, antes de mais, uma escolha do coração e do espírito.

Após um período relativamente longo (sobretudo no Ocidente) de “adormecimento” religioso, verifica-se, presentemente, um recrudescimento sensível da actividade religiosa e espiritual.

Das grandes manifestações religiosas do pontificado de João Paulo II aos fenómenos de radicalismo islâmico, passando pelos movimentos evangélicos americanos e africanos, sem esquecer o crescimento de práticas espirituais relacionadas com o budismo e o taoismo.

E são, precisamente, as correntes mais radicais que pretendem impor a dessecularização do Estado como consequência da dessecularização da sociedade. Como se a perda de laicismo do Estado fosse condição necessária, ou mesmo imprescindível, para a prática religiosa.

Sendo certo, isso sim, que a mistura entre religião e Estado tem levado a conflitos e guerras como, abundantemente, provam os casos dos Balcãs e o conflito da Irlanda do Norte, ou, pelo menos, criado interferências dramáticas, como no caso do Iraque e do Médio Oriente.

Ou gera novos fenómenos, como é o caso mais mediático da actualidade: o terrorismo de cariz fundamentalista islâmico. Aí, é a própria religião que se pressupunha dever procurar a concórdia e a harmonia que vem, ela própria, espalhar o terror e o ódio!

Por muito contraditório que possa parecer, é o Estado laico quem melhor defende toda e qualquer religião. Só ele poderá garantir que os direitos – cada vez mais actuais – da liberdade, igualdade e da fraternidade sejam respeitados e que, por via disso, se possam desenvolver as mais diversas opções religiosas e espirituais.




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terça-feira, julho 05, 2005

Alice no país dos porreirismos

... uma sociedade à beira do precipício
José Gil



Alice no país dos porreirismos


É um dado adquirido que somos um país de gajos porreiros. Boa gente: simpática, pouco agressiva (brandos costumes?), espertalhona e emotiva – uma malta porreira.

Mesmo nas nossas deambulações por esse mundo, nunca deixamos marca de torcionários e exploradores. Deixamos, sempre, este jeito suave de sorrir e a lágrima fácil. Tesitos mas alegritos.

E foi talvez, também, por isso que “deixamos” as coisas descambarem, desde do entusiasmo igualitário 25 de Abril, para níveis nunca vistos de facilitismo, compadrio e corrupção.

“Enormes privilégios dos funcionários foram inventados, arranjados, organizados e concedidos pelos dirigentes políticos e partidários que, nos governos, no Parlamento e nas autarquias, durante trinta anos, tentaram desta maneira conquistar votos, prender as clientelas e empregar os seus correligionários.”

Tudo à mistura - bem entendido - com grandes doses de porreirismo e desenrascanço. O estado, nas suas componentes central e local, foi o veículo mais eficaz de ganhar votos. Concedendo privilégios e aceitando - como comportamentos normais - o absentismo, o oportunismo e a incompetência.

No que fomos todos, em maior ou menor grau, coniventes. Sendo tolerantes com a corrupção, tendo um baixíssimo nível de participação cívica e, sobretudo, não utilizando a arma do voto para nos promover assegurando administrações isentas e competentes.

Preferimos, antes, continuar a nadar no caldinho do porreirismo e do incumprimento das obrigações fossem elas laborais, fiscais ou culturais. Preferimos embarcar na música que canta que isso dos partidos e dos políticos são todos iguais e que as ideologias morreram.

Dando de comer, cada vez mais, a esse virus nacional que é a inveja.

“Ou comem todos ou haja moralidade” como diria o sapateiro de Braga. Quem triunfa ou é porque anda no negócio da droga ou porque é ladrão e cheio de padrinhos. E os bancos avançam com créditos para consumos desnecessários que apenas visam manter aparências.

Se os outros têm também temos o “direito” de ter. Não interessa nada como nem para quê. E, muito menos, interessa à custa de quem e do quê. Interessa, essencialmente, ter um lugar cativo nas nossas quintas das celebridades.

Não deixa, por tudo isso, de ser irónico (para não dizer patético) que quando um governo se vê na contingência inadiável de apertar o cinto as comadres se zanguem todas.

Os funcionário públicos porque estão a ser vítimas de ataques terríveis e a serem transformados nos maus da fita, os vários partidos porque se acotovelam para tirar dividendos políticos da situação e os sindicatos porque aproveitam para molhar a sopa.

Esquecendo-se os primeiros que durante anos se deixaram “comprar” por privilégios imerecidos, os segundos porque fazem parte do mesmo sistema que tem vivido à custa dessas políticas e os terceiros porque denunciam a perda de direitos para alguns que deviam ter defendido para todos.

E, como sempre, procuramos os bodes expiatórios em todos os outros esquecendo-nos que aceitamos todas as demagogias e populismos que nos quiseram impingir, fingindo que não sabíamos que estávamos a viver acima das nossas possibilidades.

Será que alguma vez vamos deixar de ser crianças grandes?



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segunda-feira, junho 13, 2005

"A côrte do bobo"

Alguns bastardos no continente, para não lhes chamar fillhos da puta
Alberto João Jardim
Presidente do Governo Regional da RA da Madeira





“A côrte do bobo”


As diatribes, insolências e liminares falta de boa educação do “eterno” Presidente do Governo Regional da Madeira, já há muito que fazem parte do roteiro dos políticos pimba e têm lugar cativo no nosso folclore mais foleiro.

E, também, toda a gente sabe e percebe que o poder que se exerce na Madeira tem forte pendor autocrático, amaciado, apenas, por eleições que se exercem com regras do jogo bem difíceis para as oposições.

As oposições na Madeira não se respeitam e muito menos se estimulam à participação. Apenas se toleram o suficiente para “legitimar” eleições que visam, essencialmente, assegurar maiorias dóceis, reconhecidas e obrigadas.

Maiorias “sui generis” que justificam este artigo. Porque os desmandos populistas e grosseiros do Dr. Jardim, que o transformam num verdadeiro “bobo da côrte”, já há muito que deixaram de ser notícia.

Tanto mais que nem o próprio Presidente da República acha que tais desmandos merecem reparo e que nada há a opor a que um responsável por um orgão de soberania não cumpra as mais elementares regras da boa educação e de conduta civilizada.

Sendo, por conseguinte, que o mais grave de tudo isto não foi o presidente do Governo da Madeira ter chamado filhos da puta a alguns jornalistas do continente. Essa atitude ficaria com ele e com quem, tendo competência para lhe chamar a atenção, não o fez. E a tudo isso ele já nos “habituou”.

O que, realmente, foi mais grave é que tenha sido a própria “côrte” (leia-se os deputados do PSD na Assembleia Regional da Madeira) a saudar de pé e com aplausos os insultos proferidos.

“Congratulando-se com o modo, mais uma vez firme, como o presidente do Governo Regional denunciou comportamentos na comunicação social de Lisboa, os quais atentam contra os direitos, liberdades e garantias dos portugueses”.


Ou seja, não só insultos soezes e despropositados são “legitimados” pela tal maioria democrática como ainda se transformaram numa forma de defesa dos direitos, liberdades e garantias dos portugueses!

Um insulto em vez de ser isso mesmo – um insulto – e, desse modo, constituir matéria para os tribunais (art.ºs 180.º ou 181.º do Código Penal) é, bem pelo contrário segundo os membros da “corte”, um modo firme de defesa dos direitos, liberdades e garantias!

Penso que nem nos tempos do Idi Amin no Uganda se conseguiu fazer melhor.

Não pondo em causa a liberdade de qualquer cidadão de opinar sobre questões pessoais suas e contestar quem quer seja incluindo, naturalmente, os orgãos de comunicação social, não lembra – nem ao diabo – transformar um insulto, público e grosseiro, num voto de congratulação de um orgão legislativo regional.

Já passou tempo demais e aconteceram coisas demasiado graves para que se possa continuar a poder considerar a actual situação da Madeira como genuinamente democrática. Democracia é bem mais do que eleições de quatro em quatro anos.

Democracia tem de ser, principalmente, o exercício de uma cidadania integral e responsável com um respeito profundo pela comunidade em geral e por cada cidadão em particular, com enfase redobrado para quem detêm cargos públicos e que, por isso mesmo, deve ter especial elevação na sua conduta.

Possivelmente por estas linhas vou entrar, igualmente, na listagem dos bastardos, para não me chamar filho da puta, do Dr. Alberto João Jardim.

Mas... paciência!


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terça-feira, junho 07, 2005

Uma história de cabo de esquadra


É fartar vilanagem!





Uma história de cabo de esquadra



É conhecida e notória a falta de competência, empenhamento e mesmo de seriedade de algumas empresas públicas que se refugiam no seu estatuto institucional e monopolista e na pesada/lenta máquina da justiça para “brincarem” com os utentes a seu belo prazer.

Está nesse caso a CTT Expresso que, com especial gravidade para as Regiões Autónomas (ou Ilhas como gostam de lhe charmar), se dá ao luxo de decidir em causa própria o que é aceitável ou não e, sobretudo, de pagar ou não indemnizações mais do que devidas.

A história é simples e conta-se em poucas palavras. No dia 1 de Abril de 2005 foi posta no correio no Pico uma carta por EMS (express mail) com destino ao Funchal. Aos dias 8 do mesmo mês foi reclamado por fax o facto de não haver notícia da carta!

Após vários telefonemas veio a “descobrir-se” no dia 12 de Abril que a dita carta estava na estação do Funchal – Deus sabe lá desde quando – e foi preciso o destinatário ir lá buscá-la sob pena de ainda hoje estar, possívelmente, à espera.

Acresce que tudo isto aconteceu num período de normal operação dos aeroportos, sem intempéries conhecidas.

Pela “prestação” desse serviço foi paga na origem a quantia de 17, 6 Euros em vez dos 2,17 Euros normais . Concerteza por se tratar de um serviço especial de caracter prioritário e não, certamente, por masoquismo financeiro do expedidor.

Os documentos enviados na carta tinham grande urgência porque implicariam como implicaram prejuízos financeiros para quem enviou e para quem não recebeu. Era de toda a normalidade, por conseguinte, que a expectativa de entrega, em express mail, desses documentos nunca tivesse atingido o rídiculo número de 11 dias e, ainda por cima, sem entrega domiciliária!

Face ao ocorrido o utente pagador apresentou uma nova reclamação em 18 de Abril de Maio, solicitando o reembolso da quantia paga bem como a indmenização pelos prejuízos causados fisando que o destinatário teve que se deslocar ao balcão dos CTT no Funchal e insistir para que, finalmente, lhe entregassem o EMS!


Após longuíssimas investigações e eventuais circunlóquios burocráticos teve o utente uma resposta no dia 10 de Maio! Em que se comunica “que foi dado início ao desenvolvimento de acções que visem precisamente a sensibilização da nossa rede operacional/distribuidores”.

Acrescentando-se um pedido de desculpas pelo incómodo e uma informação que isso de rembolso nem pensar porque entre Ilhas (?) não existe “qualquer padrão de entrega de objectos”.

Ou, trocando por miúdos, não existe qualquer tipo de regras ou obrigações por por parte do prestador do serviço de EMS que apenas se limita a receber dos incautos quantias exorbitantes que não têm qualquer contrapartida ou garantia!

Não é de admirar, pois, que o país ande pelas ruas da amargura com serviços públicos que, além de incompetentes, não assumem as suas responsabilidades. Que espécie de desenvolvimento é possível, de facto, esperar quando um sector tão crucial como as comunicações se comporta de forma tão totalmente irresponsável?

Escusado será dizer que levar o assunto para tribunal (e será) vai levar a outro fadário de esperas, despesas e frustrações. Mas é tempo de os cidadãoes começarem a assumir as suas responsabilidades e dirimirem essas situações nas instâncias próprias em vez de cruzarem os braços para “não se chatiarem”.

Só assim será possível conter casos como estes que são verdadeiras histórias de cabo de esquadra e que demonstram como, passados mais de 30 anos sobre o 25 de Abril, ainda é tão notória e comum a mentalidade do estado novo.



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terça-feira, maio 24, 2005

Maremotos silenciosos


É tempo de agir
Jamie Drummond




Maremotos silenciosos


Ainda está bem presente na memória de todos nós o maremoto que devastou grandes áreas do sudoeste asiático e trouxe imagens trágicas de sofrimento e terror.

Imagens que desencadearam um grande movimento de solidariedade mundial e nacional, atestando a nossa capacidade de identificação com os outros e de sermos capazes de ser generosos em causa alheia.

E esse momento – único - poderá tornar possíveis grandes mudanças. A confluência de circunstâncias políticas e o aparecimento de fortes movimentos populares proactivos determinaram dinâmicas que podem levar os políticos a dar novos e ousados passos.

“Com cerca de 0,5% da riqueza colectiva, os cidadãos das nações desenvolvidas poderão – num prazo de 10 anos – assegurar a frequência de escola primária de todas as crianças do planeta, abastecer de água potável um bilião de pessoas, vencer a sida, a tuberculose e a malária e fazer baixar para metade a fome no globo!”

De facto, enquanto respondemos com tanta generosidade ao último desastre televisionado em directo, ignoramos verdadeiros maremotos silenciosos como são a extrema pobreza que provoca a morte a 30.000 crianças por dia ou as 6.000 pessoas que morrem, também por dia, de sida em África.

Ao mesmo tempo que ocorrem verdadeiras insanidades como é o caso da política agrícola comum da Europa ou da carta americana da agricultura que subsidiam uma produção agro-industrial excessiva colocando esses produtos de falso baixo preço em países não industrializados, pondo em causa os produtores locais.

Tecnicamente a extrema probreza que ainda, hoje, se vive em grandes áreas do globo é evitável e solucionável desde que haja a necessária vontade política e os nossos líderes se convençam que começou uma nova era de solidariedade global. O que faz perfeito sentido quando tanto se fala de globalização, a propósito de tudo e de nada.

E - mesmo para aqueles menos sensíveis aos argumentos da compaixão, da justiça e da sustentabilidade do ambiente - há argumentos de sobra para que mudem a sua atitude. Como é a situação incontornável de ser, precisamente, a extrema pobreza que leva a práticas insustentáveis para o ambiente com consequências que, em última análise, nos vêm cair à porta.

E são, também, as nações mais pobres e fracas que se tornam mais susceptíveis à falência do próprio estado com a consequente “tomada do poder” pelos traficantes de drogas, de armas e de todo tipo de extremistas. Abrindo a porta a conflitos militares e políticos que criam a destabilização e o clima propício ao terrorismo.

A sida, a tuberculose,a malária e a extrema pobreza são verdadeiros maremotos silenciosos que, sem as honras de directos em todas as televisões, atingem o nosso mundo de conforto com uma gravidade de proporções catastróficas, ainda que de forma bem mais insidosa.

Mais do nunca é indispensável actuar localmente mas pensar globalmente. O nosso destino está cada vez mais ligado ao que se passa no mundo seja em Nova Iorque, Bagdade ou Medelin. As repercussões no nosso dia a dia são, crescentemente, evidentes. Não vale a pena esconder o sol com a peneira.

É tempo de agir.




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quarta-feira, fevereiro 16, 2005

Votar


Uma verdade amarga é mais doce do que uma mentira açucarada


V O T A R
Um dever de cidadania incontornável


Quando esta crónica sair, estará concluída a campanha eleitoral. Ficar-nos-á o sábado para meditar e o domingo para votar.

O Carnaval já lá vai, o Verão ainda não chegou e não haverá, realmente, nenhuma “boa” desculpa para não votar. Tirando as esfarrapadas tiradas do tipo “não quero saber da política” ou “eles são todos iguais” ficará, com o rabo de fora, uma incompreensível falta de cidadania e responsabilidade social matizada de puro comodismo.

Se é certo que se verifica, no nosso país, uma progressiva diminuição da qualidade do desempenho político não é menos certo que esse défice é consequência da nossa falta de participação cívica e da falta de motivação que muitos cidadãos capazes sentem frente a um eleitorado que, nem sequer ao simples “trabalho” de ir votar, se quer dar!

Talvez esta campanha eleitoral não tenha sido capaz de gerar grandes paixões e talvez os nossos actuais líderes partidários não consigam suscitar o entusiasmo que suscitavam os da velha guarda. Talvez se sinta cansaço por tantos ataques pessoais.

Talvez para muito de nós a liberdade de votar já se tenha tornado numa banalidade que até achamos que podemos dispensar. Mesmo para aqueles que ainda chegaram a sofrer na pele as discriminações e as injustiças de um regime autoritário.

Talvez para muitos jovens que já nasceram em democracia tudo isto seja uma “chatice” sobretudo se foram à discoteca no sábado à noite. Uma grande “seca” apesar de começarem a sentir as dificuldades de emprego e falta de oportunidades.

Mas o nosso futuro, queiramos ou não, depende, em grande parte, da administração que escolhermos para o nosso país. Se formos votar com paixão e convicção tanto melhor. E, se assim não for, bastará votar no mal menor ou mesmo votar em branco.

Mas nunca ficar em casa.

Todos devemos viver a vida com sentido de responsabilidade assumindo a nosso papel de cidadãos, de pleno direito, de uma comunidade. Só assim estaremos em condições de poder criticar e só assim poderemos exigir responsabilidades de terceiros.

Portugal é, como se tornou moda dizer, um país de treinadores de bancada. Toda a gente manda bocas e tem, na ponta da língua, solução para tudo. Os problemas aparecem é quando temos de passar da bancada para o campo. Aí, quase sempre, entramos mudos e saímos calados!

Como dissemos em crónica recente o Congresso da Cidadania foi uma semente preciosa, em boa hora, lançada entre nós. Veio chamar a nossa atenção para a imprescindibilidade da participação cívica e do envolvimento social responsável.

O próximo domingo é uma excelente oportunidade para pormos em prática essa participação e esse sentido de responsabilidade. Votar é, por excelência, um dever de cidadania incontornável.



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quarta-feira, novembro 24, 2004

Política e Hipocrisia

Suha, a viúva de Arafat, receberá para além de uma soma avultada de dinheiro uma pensão mensal de 100 mil euros
Comunicão Social


Política e Hipocrisia


O conflito israelo-palestiniano e o Médio Oriente continuam temas obrigatórios dos telejornais mundiais. Tal o manancial de notícias que proporcionam e a importância que têm para a paz e a estabilidade no mundo.

A morte inesperada de Yasser Arafat congregou, por conseguinte, as atenções mundiais. Tanto mais que gerou um verdadeiro fenómeno mediático em França, com romarias fora do hospital aonde passou os últimos dias de vida.

E, como não poderia deixar de ser, não passou despercebida a luta de bastidores que teve lugar ao redor do seu leito de morte com a futura viúva a dirigir acusações graves à Autoridade Palestiniana. Que levaram, inclusivé, a um adiamento da viagem que o primeiro ministro palestiniano viria a fazer a Paris.

Acusações que tiveram a ver com uma hipotética usurpação de poder e que atingiram o mau gosto de falar no desejo dos outros líderes e companheiros de Arafat o pretenderem “enterrar vivo”. Tudo isto enquanto que a Autoridade Plestiniana reunia, pela primeira vez em 10 anos, com a cadeira do líder supremo vazia.

Mais eis que - quando tudo parecia comprometido - a serenidade volta ao redor do leito do líder agonizante e Suha Arafat recebe “carinhosamente” a delegação governamental palestiniana autorizando que o primeiro-ministro Ahmed Qurei veja o seu Presidente.

Depois o resto é conhecido. Arafat morre, finalmente, em Paris tendo um funeral de estado no Egipto e um funeral popular em Ramallah. Estando a viúva presente no primeiro e ausente no segundo. Enquanto nos mercados da Cisjordânia se ouvem “delirantes historias de intriga, suspense e traição”.

E a vida continua como a daquela família dos arredores de Ramallah que quase subsiste apenas de uma refeição diária de tomate frito e que não vê carne há mais de um ano mercê da falta de emprego, num ambiente de total desalento que a morte de Arafat só veio aumentar.

Lá longe em Paris, aonde já regressou, Suha Arafat volta à sua vida com uma pensão mensal que ronda os cem mil euros e que foi objecto da negociação efectuada em Paris. E que terá sido essencial para o fim sereno do resto da história.

Não cabe no âmbito desta crónica avaliar os méritos ou deméritos de Yasser Arafat como líder dos palestinianos. Desses se encarregará a história e o distanciamento que é necessário existir. Sendo certo que a sua personalidade moldou grandemente, nos últimos 40 anos, a face do Médio Oriente.

Cabe antes atentar na miséria profunda e nos graves problemas sociais que se vivem na faixa de Gaza e na Cisjordânia aonde jovens desesperados fazem fila para se fazerem explodir e conquistarem o estatuto de “mártires” numa escalada de violência sem precedentes.

E questionar como é possível que à sombra de um figura idolatrada por tantos se façam negociatas milionárias que vêm dar um toque de opereta bizarra ao destino de um povo tão carenciado e tão urgentemente necessitado de encontrar o caminho da paz e do progresso.

Quanta comida ou medicamentos se poderiam comprar para os bairros pobres de Gaza e da Cisjordânia com cem mil euros mensais?


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quarta-feira, outubro 27, 2004

Hotel do Canal


Hotel do Canal
Um bom exemplo


Em diversas ocasiões e de várias maneiras temos tido oportunidade de defender um conceito de turismo à escala dos Açores e que vise, primordialmente, dar novas oportunidades de negócio aos pequenos investidores açorianos. A favor de um crescimento verdadeiramente sustentável.

Embora defendamos um turismo de pequenas unidades, sobretudo nesta área do arquipélago, temos plena consciência de que os nossos centros urbanos têm necessidade da existência de hotéis de média dimensão que venham dar consistência e escala à nossa oferta. Questionando, embora, a dimensão de alguns hotéis que foram construídos bem como a sua proliferação excessiva.

Sendo um dado assente que a Região jamais será um destino de massas porque para isso não tem condições (sol e praia) e sendo certo que a época dos grandes grupos declina a favor de pequenos grupos e individuais não faz sentido a construção de grandes hotéis iguais aos que fazem em todo o lado.

Bem como não faz sentido que se caminhe para um excesso de unidades numa determinada área o que poderá ter como consequência a necessidade de ,a prazo, proceder a demolições! Como ainda recentemente aconteceu no município de Calvia em Maiorca aonde foi necessário demolir hotéis como única forma de reabilitar a zona costeira e atrair um turismo de mais qualidade!

A experiência de erros acumulados em matéria de desenvolvimento turístico, mesmo no nosso país, deverá ser suficiente para impedir o avanço para um figurino de turismo standardizado e despersonalizado que nada tem a ver com a nosso produto principal – a natureza. Impedindo desse modo soluções que em vez de valorizarem o nosso património, o agridem.

Por tudo isto a construção do novo Hotel do Canal na Ilha do Faial constitui um bom precedente. Sendo um hotel tradicional de média dimensão conseguiu valorizar uma zona da cidade da Horta que se encontrava relativamente abandonada e sem qualquer função útil. Conseguindo resolver, a nosso ver, bem o espaço entre o edifício da capitania e a igreja e constituindo-se num bom exemplo de integração urbana.

Tendo mencionado este exemplo a várias pessoas, algumas habitualmente atentas, tive a surpresa de me dizerem que – por acaso – ainda não tinham reparado! Nada por acaso, diria agora, porque de facto essas pessoas não repararam porque o hotel esta efectivamente bem integrado, quer em termos volumétricos quer em termos tipológicos.

O exterior embora discreto, casa alguma modernidade com o tradicional da envolvente. E por dentro tira o máximo partido da vista sobre o canal e o Pico que são, realmente, os dois grandes atributos da sua localização. Conseguindo assim uma unidade que, embora de hotelaria tradicional, conseguiu “fugir” a modernismos excessivos para encher o olho.

E não enchendo o olho consegue passar despercebido e ajudar a Horta a manter o seu carácter de pequena e simpática cidade açoriana, cativando, simultaneamente, um mercado que procura, crescentemente, hotéis interessantes e amigos do património em vez de hotéis “espectaculares” que ninguém espera nem deseja neste, ainda, paraíso atlântico.

Estão de parabéns os seus promotores e o seu projectista.


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terça-feira, outubro 19, 2004

Líderes Descartáveis

Pode-se saber muito e não se ter sabedoria, porque entre o conhecimento e a acção há um abismo.
Jacques Derrida


Líderes descartáveis
O consumismo já chegou à política?



Para orgulho de todos nós as eleições legislativas regionais decorreram com total normalidade e civismo e tiverem um desfecho, também, perfeitamente normal. Um partido ganhou e vai formar governo, outros tiveram menor votação e terão, a seu cargo, a oposição.

Á frente do partido ganhador está um político experiente quer do lado da oposição quer do lado do poder. Na liderança da coligação que ficou remetida para a oposição estava um jovem mas experiente político com a clara ambição de ser Presidente do Governo Regional.

Como é normal em democracia uns ganharam e outros perderam. Sem dramas e de forma suficientemente clara para que não ficassem dúvidas sobre a opção do eleitorado. Depois de uma campanha muita viva e em que todas as partes usaram de meios robustos para fazerem passar as respectivas mensagens.

É, pois, completamente surrealista que o - até há pouco horas antes - candidato alternativo a presidente do governo se demita no calor dos resultados. Como se o seu prazo de validade fosse uma eleição regional e depois é para deitar fora. Uma forma descartável de fazer política ou então, o que ainda é pior, um lider descartável!

Atitude que ainda poderia ter algum fundamento se tivesse sido o partido de que era líder a ter questionado a eficácia da sua estratégia ou a bondade da sua liderança. Mas, tanto quanto é dado saber, nada disso aconteceu, bem pelo contrário, sendo inúmeras as personalidades partidárias que insistiram e insistem para que se mantenha no seu posto.


Fica, portanto, a ideia de que se demitiu porque não lhe deram o brinquedo que pretendia. Não porque porque tivesse um projecto governativo alternativo devidamente estruturado e credível. Se assim fosse teria, apenas, que se dedicar, ainda com mais afinco, à luta política enquanto líder desse projecto.

Personalidades tão diferentes como Miterrand, Mandela ou Lula souberam lutar e esperar pela sua oportunidade. Porque haveria um jovem político açoriano de ser diferente? Apenas porque teria que enfrentar, como derrotado, um parlamento que lhe será, maioritariamente, hostil? Por mera falta de autoestima? Ou por ter chegado ao fim do prazo de validade?

A credibilidade da política e dos políticos não anda de boa saúde. Exactamente por episódios como este que trazem para a arena política o bicho feroz do consumismo - usar já e deitar fora. Para a próxima haverá mais e mais moderno: moda atrás de moda vem!

Depois do “fast food” e da epidemia do telemóvel o que nos faltava, mesmo, eram líderes políticos descartáveis. Parece que o consumismo chegou, de armas e bagagens, à política.



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quarta-feira, setembro 29, 2004

Eleições

A credulidade dos tolos é o património dos velhacos
Ditado Popular


E L E I Ç Õ E S


Aí estão – as eleições. Já se sente o cheiro e já se vêem os cartazes, sobretudo aqueles de não sei quantos metros que nem a nossa paisagem poupam e que vieram, pelos vistos, para ficar. E que vamos ter que gramar quer chova quer troveje.

Chegou o circo e as tendas já estão a ser montadas. O circo mediático aí está e não faltam, sequer, palhaços, acrobatas e mágicos! Virão, também, os artistas convidados, a música, os confetis e os balões. E as televisões farão directos e as habituais fofocas.

E bem lá por trás, num plano bem secundário, haverá conversas e promessas. Mas que serão muito abafadas pelas pancadinhas nas costas, pelos beijinhos e pelos porta a porta que quase cheiram a visitas de seitas que disso fazem vida e missão.

E, quase com toda a certeza, os assuntos verdadeiramente importantes ficarão, mais uma vez, por discutir. Tentar-se-á fazer num mês o diálogo e comunicação que se deveria ter feito em quatro anos. Todos procurarão o melhor sorriso e o charme adequado e muitos fugirão, como o diabo da cruz, do debate frontal e fundamentado.

O que sendo verdade cá, é verdade por todo lado aonde se vive este menor dos males a que chamamos democracia que até consegue pôr no poder quem teve menos votos! Democracia dos votos manipulados, comprados e oportunistas que põe, em pé de igualdade, com os votos sérios, esclarecidos e comprometidos.

Como em tudo na vida, há gente séria e capaz na política como há, também, os profissionais da demagogia e do oportunismo que aí encontram refúgio para a sua mediocridade e para a incapacidade de terem uma vida própria. Um bom paleio misturado com uma boa dose de desfaçatez e velhacaria ainda consegue fazer, nas nossa terras, um “bom” político.

Por tudo isto a política perde popularidade. Por tudo isto é crescente a abstenção sobretudo entre os jovens que, não tendo grandes convicções, não se sentem motivados para participar em actos que pouco lhe dizem, em termos práticos. A um excesso de “afecto” e proximidade das campanhas eleitorais sucede o afastamento e o alheamento, com as devidas e honrosas excepções.

Sendo estas eleições de âmbito regional e, sobretudo de ilha, bom seria que os eleitores fossem capazes de olhar, sem paixão, para o que foi e não foi feito e, sobretudo, conseguissem avaliar os candidatos pelo seu passado, pelos seus méritos e pelo trabalho desenvolvido. E não caíssem em partidarites agudas nem em cantos de sereia.

Porque a factura dos nossos votos virá sempre bater-nos à porta. Por muitos compadrios que existam e por muitos favores que se consigam, o futuro da nossa terra e dos nossos filhos dependerá, em grande parte, da qualidade dos nossos políticos. Os partidos são importantes porque são um pilar insubstituível da democracia mas, por isso mesmo, não podem tornar-se num simples sucedâneo dos clubes de futebol.

Os partidos são, ou deveriam ser, espaços e formas de intervenção cívica baseados em convicções e depositários de compromissos formais. Nunca trampolins de poder e escolas de como se pode vender gato por lebre!

O circo está aí e até pode ter piada se o espectáculo for bom. Mas ao soar o gongo final será tempo de metermos a mão na consciência e tornarmos o nosso voto num acto responsável e responsabilizante .

A política é, e deve ser, de todos nós.


P E D R O D A M A S C E N O


domingo, setembro 19, 2004

Quo Vadis Esquerda?

Apesar de sermos máquinas genéticas podemos virar-nos contra os nossos criadores
Richard Dawkins



Quo Vadis Esquerda?


A economia de mercado baseia-se na ideia de que os seres humanos só trabalham duro e mostram iniciativa quando disso possam tirar benefício económico, pessoal e directo. Uma premissa a que se pretende dar um caracter genético e imutável.

Premissa que, em conjunto com a lógica da sociedade de consumo, torna – no ver de muito boa gente – obsoletas as ideias de direita e esquerda. Daí que se apressem a proclamar o fim das ideologias. Que no fundo, mais coisa menos coisa, vai tudo dar ao mesmo.

E a esquerda, ainda com as orelhas a arder do descalabro da Rússia e países de leste, tem mostrado acentuadas dificuldades em assumir um papel pro-activo na definição daquilo que deve ser o seu caminho face ao falhanço do mundo comunista europeu. Porque no chinês outro galo canta...

Ou seja a esquerda permitiu que que se aceitasse de barato que quando se fala em benefício próprio se está falar de dinheiro. Quando, parece óbvio, que interesse ou benefício próprio tem um âmbito muito mais vasto do que o dinheiro.

Se é certo que a maior parte das pessoas querem ter vidas felizes, preenchidas e com significado e que tudo isso passa, em parte, pelo dinheiro não é menos verdade que este, por si só, fica longe de resover tudo. E que as pessoas sentem, também, necessidade de se sentirem necessárias, úteis e amadas.

E, de facto, o homem afluente da sociedade de consumo está cada vez mais stressado e incapaz de gozar os prazeres simples da vida sendo – crescentemente – escravo das gaiolas de oiro que vai construindo mas que lhe minam a saúde a alegria de viver.

Todos os estudos internacioanais têm demonstrado que não há uma correlação clara entre riqueza e felicidade. Demonstrando, pelo contrário, que as sociedades altamente competitivas não são aquelas em que a maior parte dos cidadãos se sentem felizes e/ou realizados. Como alguém disse: “ninguém pode viver uma vida privada feliz em estado de sítio, desconfiando de todos os estranhos e transformando a própria casa num campo armado”.

Sendo certo, por outro lado, que a maior parte das pessoas, independentemente do sistema económico e social em que vivem, respondem positivamente às oportunidades genuínas de participarem em formas de cooperação, mutuamente benéficas. Sendo essencial promover estruturas que promovam cooperação em vez de competição e tentem canalizar a competição para fins socialmente desejáveis.

Mantendo a esquerda os seus valores tradicionais de defesa dos fracos, pobres e oprimidos deveria ser, ela própria, a promotora de um modelo de sociedade que venha – realmente – defender aqueles. Substituindo muitas das suas utopias sociais por uma visão mais fria e realista que assegure essa defesa.

Aonde existir uma oportunidade de sobreviver sem trabalhar vai aparecer sempre alguém para a aproveitar. E, por isso, o desafio será desenhar um modelo social - cada vez mais rigoroso - que tenha em linha de conta, a dita “natureza humana” (sobre a qual saberemos sempre mais) mas que saiba potencializar, também, o lado altruísta e cooperativo que existe na maioria de todos nós e que é um dos ingredientes indiscutíveis da felicidade.

A economia de mercado e a sociedade de consumo não são, comprovadamente, a autoestrada da nossa felicidade. Atingido um patamar aceitável de progresso e bem estar é indispensável que nos voltemos para o culto da cooperação, da amizade e da solidariedade.

Quo Vadis Esquerda?


P E D R O D A M A S C E N O


terça-feira, agosto 31, 2004

Paisagem Protegida da Vinha e Secretaria Regional do Ambiente

Quem porfia e não cansa, sempre alcança!
DITADO POPULAR



Paisagem Protegida da Vinha
e
Secretaria Regional do Ambiente




Já vem de longe a defesa, nesta coluna, da criação de uma Secretaria Regional no Pico. Ideia álias assumida, em declarações públicas recentes, pelo actual Presidente do Governo Regional.

Com as eleições regionais, ali ao dobrar da esquina, é uma tema de grande actualidade e que bem poderia fazer parte do rol de promessas que as várias forças partidárias nos vão fazer mas, nomeadamente, as duas com hipóteses de chegar ao poder.

Defendemos primeiro a necessidade da criação de uma Secretaria do Ambiente que, entretanto, foi criada. Defendemos, a seguir, a lógica de que essa Secretaria faria todo o sentido na Ilha do Pico pelas suas carateristicas naturais das quais ressalta a integridade da nossa flora endémica - a Laurasilva.

A dimensão da ilha, a sua ruralidade e a montanha tornam o Pico um destino único para tursimo e usufruto da natureza. Surge, agora, a consagração da Vinha como património mundial que lhe vem trazer uma visibilidade nacional e internacional sem precedentes. Bem como as correlativas responsabilidades.

A verdadeira liquidação do conceito de ex-distritos que, apesar de trinta anos de democracia, ainda subsiste – embora de forma encapotada – só ocorrerá quando for criado outro real centro de decisão fora das ex-capitais de distrito. A tripolaridade, como alguns lhe chamam, só desaparecerá quando o poder deixar de ser milimetricamente distribuido por aquelas.

A abertura das novas ligações áreas directas com o exterior do Pico e de Santa Maria serão, também, um passo decisivo na descentralização do arquipélago e na consolidação de uma nova lógica de desenvolvimento regional. Um lógica assente na eliminação de assimetrias que se têm mantido por pura inércia e por força de lobis que queram a todo custo manter privilégios que já não fazem, hoje, qualquer sentido.

O próximo passo lógico será a criação de uma secretaria fora de Ponta Delgada, Angra e Horta. Os custos não serão, certamente, maiores e ter-se-á, desse modo, dado um passo verdadeiramente inovador num conceito de Região assente na realidade ilha (como de resto está na lei) e potenciador de novas abordagens do conceito de arquipélago.

Nesta linha de pensamento faz, também, todo o sentido que seja a segunda ilha do Açores em tamanho, a terceira em população e aquela que apresenta perspectivas de crescimento mais interessantes para além de S. Miguel e Terceira que venha a ser a contemplada.

Do mesmo modo que faz todo o sentido que seja a Secretaria do Ambiente a ser escolhida. Aqui encontrará a possibilidade de expressão máxima de um trabalho de proteção e valorização do ambiente e o enquadramento numa área de património natural da humanidade, moldura sem paralelo na Região.

Não se trata de uma questão de bairrismo. Trata-se de uma questão de elementar justiça e de criatividade política que só ficará bem a quem decidir dar esse passo histórico para o Pico e para os Açores.

A palavra cabe, agora, aos senhores políticos.


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segunda-feira, agosto 16, 2004

Os selvagens do nosso tempo

De pequenino se torce o pepino
Ditado popular



Os selvagens do nosso tempo


Bem sabemos que as questões da área da Educação são difíceis e que a sua solução será, a prazo, o passaporte para nossa viabilidade como nação. Apenas um elevado nível educacional da nossa população poderá permitir um desenvolvimento global.

O caso da Irlanda é um bom exemplo disso. De país na cauda da Europa “competindo” connosco pelos últimos lugares passou a país do pelotão da frente. Essencialmente porque apostou forte na área da Educação e das tecnologias de ponta.

Mas essas, são matérias de fundo que, tendo que ser resolvidas com brevidade, não impedem que outras – não menos importantes – mas mais simples sejam, entretanto, solucionadas. Questões que se prendem com áreas cívicas e de comportamento social.

Sendo as matérias curriculares e as estratégias de ensino problemas, inquestionavelmente, difíceis tudo levava a crer que questões de elementar comportamento cívico e social seriam simples de resolver. Mas, puro engano, a um maior nível de escolaridade parece corresponder uma crescente falta de conhecimento das mais elementares regras de cortesia e vida em comunidade.

Seja ao nível das crianças de mais tenra idade que vitimizam tudo e todos com os seus gritos estridentes e as suas correrias desordenadas em qualquer lugar público seja ao nível dos adolescentes e jovens que passaram a desconhecer que existem saudações entre as pessoas ou que poluem, indescriminadamente, o ambiente que os rodeia.

Tudo isto perante a omissão e complacência da generalidade dos pais que parecem resignar-se diante daquilo que começa a ser um fenómeno incontrolável. Pais tantas vezes com elevados níveis de escolaridade que debitam conhecimentos aos filhos sem, contudo, se preocuparem com o seu comportamento pessoal e social.

Fenómeno que, também, acontece ao nível das escolas, mesmo as do ensino básico, aonde se parece ter entrado num clima, também, de omissão por um conjunto variado de factores que vão desde problemas de disciplina até um laxismo que tem muito a ver com a atitude dos próprios pais.

Pais que, crescentemente, dedicam menos tempo aos filhos que trazem a este mundo – sabe-se lá tantas vezes porquê! – mas que, talvez por causa disso, se tornam progressivamente permissivos e, simultaneamente, reactivos ao papel disciplinador que os professores devem ter. Não educando nem deixando educar e criando nos professores uma atitude de desmobilização e desinteresse.

Sem defender um recuo para um modelo autoritário de educação e percebendo que as crianças e os jovens devem ter acesso a um pleno desenvolvimento das suas personalidades e potencialidades torna-se, contudo, imperioso que elas sejam ensinadas a respeitar limites. Limites que terão de respeitar em relação às outras pessoas, como indivíduos, e em relação à comunidade em que vivem.

Sendo que essa é uma das lições que podemos tirar da natureza. A biodiversidade, ou a diversidade de espécies, é uma das condições essenciais à manutenção do equilíbrio do nosso habitat. Sempre que uma espécie começa a crescer desmesuradamente à custa de outras que desaparecem gera-se aum desiquilíbrio que, por seu turno, põe em causa o ecosistema indispensável à vida.

As nossas crianças e os nossos jovens tem que conhecer os limites da sua própria liberdade e que são os limites da liberdade dos outros sob pena de se tornarem nos verdadeiros “selvagens” do nosso tempo. E, ainda por cima, bem mais depradadores.

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domingo, agosto 01, 2004

Vinha do Pico, Património Mundial e Desenvolvimento

Vinha do Pico, Património Mundial e Desenvolvimento


“A medida virá “penalizar” fortemente, em termos de desenvolvimento, o concelho da Madalena”
Presidente Camara da Madalena do Pico



A aprovação na China, por unanimidade, da Paisagem Protegida da Vinha do Pico como Património Mundial é um acontecimento de tal modo fundamental para a Ilha do Pico e para os Açores que custa a perceber porque, para além das reacções imediatas, pouco se tem dito ou escrito sobre o assunto.

A citação acima reproduzida do presidente de camara do concelho aonde se situa a parte mais importante desse vinha passará, sem dúvida, a fazer parte do anedotário político nacional pelo que representa de falta de visão de futuro. Aquele que deveria ser o primeiro a congratular-se é precisamento aquele que pretendeu matar, na praça pública, a galinha de ovos de ouro!

O reconhecimento mundial da riqueza da vinha do Pico como património vem, para além de prestar justiça ao trabalho insano dos nossos antepassados, confirmar a Ilha do Pico como um destinos incontornáveis para quem demanda os Açores em busca de de coisas que não poderá encontrar noutras paragens. Sabido que ninguém procura a Região atrás de sol e praias.

E o Pico que já contava com a notoriedade da sua montanha, da extensão da sua laurasilva (a mais bem preservada do arquipélago) e da saga baleeira passa a contar, agora, também com o reconhecimento mundial unanime da importancia de uma das suas actividades mais emblemáticas que nos deixou uma herança que poderá ser um das chaves fundamentais para o nosso desenvolvimento.

O Pico não se vai desenvolver porque - como pensa o autarca da Madalena - se vão construir muitas casas e adegas grandes ou hoteis dinossauricos, a torto e a direito. O Pico apenas se irá desenvolver na medida em que conseguir preservar a sua identidade patrimonial, seja natural ou erigida. Só, desse modo, conseguirá atrair visitantes que buscam o que ainda existe de autêntico por esse mundo fora.


Visitantes, habitualmente cultos e com posses, que não procuram os grandes hoteis (iguais a todo os outros em todo mundo) mas sim pequenas unidades integradas e turismo de habitação ou rural dando, desse modo, oportunidades de negócio para pequenos investidores locais que poderão completar outras actividades nomeadamente a agrícola.

O Pico terá que se afirmar pela diferença. Diferença que passa pela afirmação e preservação dos seus valores e actividades tradicionais. Se tentarmos imitar o que quer que seja – desde a Madeira ao Algarve ou mesmo a S. Miguel – estaremos irremediavelmente perdidos porque faremos sempre imitações mais baratas. A nossa força reside, precisamente, na nossa diferença.

E se o nosso desenvolvimento passa pelo turismo é preciso discernir qual o tipo de turismo. Que não será o turismo de grande unidades hoteleiras que apenas interessam a grandes grupos económicos ou a especuladores imobiliários mas o turismo de muitas coisas pequenas e boas sejam na área do alojamento, da restauração, do comércio ou da animação.

O turismo que interessa à Ilha é aquele que possa dar uma oportunidade ao maior número possível de pessoas que cá vivem e precisam de complementar os seus proventos familiares. Um turismo de face humana e personalizado que mobilize as populações locais e ajude a manter a autenticidade da nossa terra, único trunfo com que podemos contar.

A Paisagem Protegida da Vinha do Pico é, por tudo isso, uma grande oportunidade histórica de desenvolvimento.




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quarta-feira, julho 07, 2004

Pornografia e Fundamentalismo


Pornografia e Fundamentalismo



De país conservador e tradicionalista, próprio do Estado Novo, Portugal oscilou, nalguns aspectos, para o outro extremo do pendulo. Hoje a pornografia é entre nós, como no resto da Europa, um fenómeno perfeitamente banal. E será dificíl fazer uma viagem através dos canais de televisão sem com ela topar, quase sempre, com material altamente escabroso.

E assim vão as coisas. Em vez de informação/esclarecimento sexual e planeamento familiar (que os sectores mais conservadores se apressam a condenar) estamos nós condenados a levar com pornografia barata e sórdida (que muitos conservadores se “esquecem “ de atacar). Pornografia que, ao fim e ao cabo e em termos práticos, se tornou na verdeira “educação” sexual dos nossos jovens.

Por razões que se prendem, no essencial, com questões comerciais. Pornografia vende e vende bem. Mesmo, e talvez sobretudo, para os sectores conservadores hipócritas que fazem um discurso público num sentido e que se comportam, privadamente, em sentido oposto. No fundo os herdeiros da mentalidade dos “ballet rose” da antiga senhora.

Uma sexualidade sã e verdadeiramente gratificante nada tem a ver com pornografia mas sim com hormonas, afectos e comunicação. E também com informação desinibida e correcta que nos venha dar um conhecimento adequado dos nossos corpos e da nossa fisiologia. Informação que nos ensine que sexo não é apenas uma maratona de posições, modalidades e parceiros.

Sendo uma força natural extremamente poderosa, o sexo tanto pode ser uma forma superior de gratificação afectiva como pode dar origem a perversões abomináveis como a tristemente célebre pedofilia. Perversões que são claramente estimuladas por uma pornografia que procura explorar todos os lados sórdidos da personalidade humana com o objectivo único de negócio.

Sensualidade e erotismo – facetas da sexualidade humana – nada têm a ver com pornografia. Pornografia que apenas mata a imaginação e os afectos banalizando, de forma grosseira, aquilo que os orientais sempre consideraram uma forma especial de comunicação entre seres humanos e de que cultivaram de formas extremamente requintadas.

Pornografia leva a que os sectores conservadores do mundo não ocidental exerçam um poder repressivo crescente sobre as mulheres: desde a ablação do clitóris até ao uso das “famosas” burcas. Uma reacção de pendulo no sentido oposto: quanto mais despimos as nossas mulheres e vulgarizámos o sexo mais eles tentam vestir as suas e reprimir o sexo.

De um lado a mulher ocidental totalmente banalizada e exposta, do outro a mulher oriental escondida e reprimida. Dois extremos de uma realidade que deveria, pela sua importância nas nossas vidas, centrar-se num ponto de equilíbrio entre liberdade e respeito e entre prazer e afecto.

Se é lamentável ver ser humanos reprimidos e despojados de direitos básicos não é menos lamentável vê-los objectos de mera recreação comercial sem quaisquer critérios estéticos ou de respeito.

Pornografia e fundamentalismo andam de mãos dadas.




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quarta-feira, junho 30, 2004

Uma coisa muito feia

Uma coisa muito feia


Ainda algo atordoado com o terramoto político que caiu sobre Portugal
Diogo Freitas do Amaral


Não tencionávamos voltar, tão cedo, à problemática do descrédito da política e dos políticos embora haja razões recorrentes para que esse assunto não saia da ribalta. Como foi o caso, ainda há dias, do epípeto de “sentença de merda” com que o insubstituível Avelino Ferreira Torres decidiu brindar a decisão do colectivo de juízes que o julgou e condenou.

O caso agora é, contudo, bem mais grave. Um primeiro ministro que reiteradamente afirmou a sua decisão inabalável de cumprir o mandato para que foi eleito – ao contrario de outros como dizia – e que ainda há uma semana se mostrava indisponível para ser candidato a um cargo em Bruxelas dá o dito por não dito e demite-se para assumir um tacho que, providencialmente, lhe caiu na sopa.

Uma pessoa que ocupava um cargo político da maior importância não teve o mais pequeno pejo em lançar o país, que dizia tanto o preocupar, numa inevitável turbulência de consequências ainda imprevisíveis. Matando, desse modo, dois coelhos de uma só cajadada: safar-se do beco político aonde estava encurralado e prosseguir o seu projecto de poder pessoal.

Qualquer eleição envolve sempre um contracto entre eleitor e eleito. O eleitor ao votar confere ao eleito um voto de confiança para que execute as suas promessas e compromissos eleitorais. O eleito ao receber um mandato assume as responsabilidades para executar aquilo com que se tinha comprometido.

Durão Barroso quando se candidatou, pelas listas do PSD, a primeiro ministro fê-lo para um mandato de quatro anos como ele próprio confirmou à exaustão. E os contractos, mesmo os não escritos, são para se cumprir, pelo menos para quem seja pessoa de bem. E ao proceder como procedeu o ex primeiro ministro demonstrou não ser pessoa de bem dando um exemplo lamentável de falta de integridade e de caracter.

E não serão os argumentos de patrioteirismo balofo que poderão branquear aquilo que ficará como mais um exemplo extremamente negativo sobretudo para os jovens que não acreditam, minimamente, na política nem nos políticos. E porque deveriam acreditar?

Durão Barroso foi escolhido para Presidente da Comissão Europeia exclusivamente pela negativa. Porque os grandes blocos não se entenderam, porque o primeiro ministro do Luxemburgo não quiz trair os eus compromissos eleitorais, porque o ex-primeiro ministro português não é uma figura controversa, porque dá garantias de não bulir com os grandes interesses em jogo, por pertencer a um país que não é grande e também não é recem chegado.

Não foi, certamente, escolhido pelo seu prestígio político angariado à frente de um governo suportado por partidos que acabaram de averbar una derrota humilhante, precisamente para a Europa. A ida de Durão Barroso para a Comissão Europeia apenas seria uma honra para Portugal se, cumulativamente, ela se fizesse pela positiva e num contexto de disponibilidade política do próprio. Doutro modo não passa de um tacho que, fundamentalmente, serve para quem o vai usufruir e que deixa um país à beira de um ataque de nervos.

Não faltava mais nada que agora, ainda por cima, nos devessemos sentir honrados por ter sido traídos. Era quase como se a nossa mulher nos tivesse traído com Bill Gates e nos sentissemos honrados por ter sido uma portuguesa a conseguir a “feito” de ser a amante do homem mais rico do mundo!

Durão Barroso fez uma coisa muito feia.

PS: se calhar já era altura de os legisladores pensaram na possibilidade de condicionarem as saídas, a seu belo prazer, de políticos dos cargos a que se candidataram. Sejam eles de primeiro ministro ou presidente de camara: se não vai a Maomé a Meca terá que ser Meca a ir a Maomé! Ao fim e ao cabo trata-se da liderança de um povo ou de uma população que não pode estar à mercê dos meros interesses ou disposições pessoais de quem quer que seja. Ser político não é nem deve ser obrigatório mas quem não quer ser lobo não lhe vista a pele...



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terça-feira, junho 22, 2004

Serviço Nacional de Doença

Serviço Nacional de Doença



Dado que o Serviço Nacional de Saúde vem em nossa ajuda, essencialmente, quando estamos doentes seria mais apropriado designá-lo de Serviço Nacional de Doença. E, também, porque, genericamente, não promove a saúde nem evita a doença não prevenindo sistematicamente, como deveria, as causas da doença sejam elas pessoais, sociais ou ambientais.

As listas de espera crescem, os hospitais rebentam pelas costuras, o orçamento de estado para a saúde (ou doença?) dispara e temos, cada vez mais doentes. E o que é verdade para o país, é verdade para sítios como Pico aonde se passou de 3 medicos para 12 para não falar em enfermeiros e, muito menos, em técnicos/administrativos.

O consumismo de actos médicos/medicamentos continua aumentar em flecha ao mesmo tempo que proliferam os “doentes” e diminuem os “sãos” e as pessoas se queixam de falta de acesso ao sistema com os serviços de “urgência” a ficarem entupidos por casos que nada têm a ver com urgência.

Segundo estimativas do Infarmed (organismo oficial) o consumo de medicamentos vai disparar este ano para um recorde de 11% que só foi atingido em 1998 vindo a confirmar o pendor marcadamente curativo do nosso sistema que se limita a tratar - e nem sempre com a devida eficácia - a doença e a investir, muito pouco (para ser simpático), na sua prevenção.

Apesar dos milhões gastos gastos todos os anos nunca há dinheiro suficiente para tratar uma população crescentemente “doente”. O que decorre, em primeira mão, da não existência de um verdadeiro serviço nacional de saúde desenhado para se preocupar com a saúde das pessoas e do próprio planeta e baseado em conceitos holísticos e de integração e cooperação entre os vários departamentos, compartimentos, fragmentos, etc.


A saúde que é, ou deveria ser, o bem de primeira necessidade por excelência, tornou-se num vulgar bem de consumo para vender ou comprar e uma oportunidade de negócio de contornos nem sempre claros ou límpidos. A vulnerabilidade dos doentes torna-os numa presa fácil.

Muitas das nossas doenças são causadas pela nossa civilização. Cancro, obesidade, hipertensão, tromboses, doença coronária e muitas outras são causadas pela poluição dos alimentos, do ar e da água, pelo stress, pela solidão, pela destruição do espirito comunitário, etc.

A nossa saúde pessoal flui do facto que o corpo não está separado da mente: se não estivermos bem psicológicamente ou tivermos carencias afectivas ou sociais não há medicamento que nos valha. Daí que não possamos contar apenas com a medicina curativa, eminentemente técnica, para atingirmos um estado de pleno bem estar físico/psicológico/espiritual e social que é verdadeiro estado de saúde. Saúde não é a mera ausência de saúde.

Do que resulta que velar pela nossa saúde implica muito mais do que a simples prática – ainda que de boa qualidade técnica – de medicina curativa. Implica o ambiente (nossa verdadeira casa), o bem estar social, a segurança. Como a nível pessoal implica alimentação saudável, exercício físico, gratificação nos planos afectivo, social, profissional e espiritual. Como implicará, a nível médico, a integração da medicina científica com as medicinas complementares e os saberes tradicionais.

Jamais o tradicional modelo de Serviço Nacional de Doença!



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domingo, junho 06, 2004

Uma bofetada sem mão

Uma bofetada sem mão



No passado dia 2 um conceituado cientista inglês, o Dr. Malcom Clarke, inaugurou em S. João do Pico uma exposição que designou de “Cachalotes e Lulas”. Em 2 salas interiores, num terraço coberto e num espaço ao ar livre conseguiu montar uma exposição brilhante, quer no plano científico quer no plano estético.

Um evento que estará aberto ao público de segunda a sábado das 9,30 às 17,00 horas, entre Junho e Outubro. Sito na Rua do Porto, quase no ínicio, do lado do mar, para quem vem das Lajes do Pico. Uma visita obrigatória para quem quiser tomar contacto com a realidade dos cachalotes e das lulas.

No exterior, junto ao mar, foi construída uma estrutura estilizada feita em tubo que reproduz as dimensões do maior cacholote apanhado nos Açores e, através da qual, se pode ter uma ideia bem aproximada do tamanho de tal mamífero. Porventura uma ideia bem interessante para ter sido aproveitada para o monumento aos baleeiros e à sua saga!...

Porque os actores principais da baleação, quer se queira ou não, foram os cachalotes pese, embora, a coragem e o espírito de sacrifício dos baleeiros. Razão, também, porque esta exposição é preciosa: vem de uma maneira sucinta, mas de forma extremamente criativa e apelativa, trazer conhecimentos sobre os cetáceos que, apenas quem dedicou uma vida à investigação, pode dar.

O Pico passou a ter, para além do acervo dos baleeiros e da indústria baleeira, um conjunto inestimável de informações sobre a fisiologia, os hábitos, os stocks, etc dos cachalotes e lulas que vêm completar a oferta museológica já existente e, por isso, ajudar a constituir esta ilha como um destino priveligiado para quem estar em contacto com a temática baleeira.

Acontece, porém, que tudo isto ocorreu por iniciativa, exclusivamente, privada do Dr. Malcom Clarke que para tal utilizou a sua casa de habitação tendo custeado, também, todas as despesas de instalação, materiais, concepção, execução,etc.!... Uma obra cultural e científica de indiscutível valor que não conseguiu recolher nenhum tipo de apoio, por mais modesto que fosse!

Após uma iniciativa do Governo Regional destinada a assegurar a adaptação da Fábrica da Baleia das Lajes do Pico a Exposição Permanente do Cachalote que chegou, mesmo, a constar de orçamento da Região tudo parece ter ficado em águas de bacalhau. Não se sabendo se o assunto está ferido de morte ou se ainda existe alguma hipótese de vir a ser concretizado.

Ou seja nós - como comunidade - seja a nível pessoal, associativo, autárquico ou governamental não fomos capazes de, em tempo útil, dar os passos necessários para que a iniciativa não tivesse ficado apenas dependente de uma pessoa que, ainda por cima, se viu obrigado a ser pau para toda a obra. Dando de nós próprios uma imagem lamentável.

Mas ainda bem que há pessoas que, mesmo não sendo daqui, conseguem reunir energias e determinação para fazer aquilo que deveria ter sido uma obra pública emblemática. Uma lição de que, quem de direito, deverá retirar as respectivas ilações.

Uma verdadeira bofetada sem mão!



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domingo, abril 25, 2004

China, Marx e João César das Neves

China, Marx e João César das Neves





Em tempos de grande promiscuidade ideológica em que os capitalismos liberal e neo-liberal parecem constituir, para muitas cabeças bem pensantes da nossa praça, a única saída para o progresso e êxito económico o recente artigo “A desforra de Marx” de João César das Neves foi uma verdadeira pedrada no charco.

Tendo em atenção o perfil ideológico e o percurso daquele economista que foi assessor económico de Cavaco Silva o seu reconhecimento de que a China “é um caso espantoso e formidável de sucesso económico” é, também, um caso espantoso de sinceridade e coragem política.

Sendo a China, como todos reconhecemos, um estado ditatorial com graves défices democráticos não deixou, apesar disso, de conseguir um processo de desenvolvimento extraordinário constituindo mesmo um verdadeiro caso para estudo que ocorreu nos últimos 25 anos.

Após os excessos e desvarios de Mao Zedong (como agora se chama) a China entrou, pela mão de Deng Xiaoping, numa via original que tem, indiscutivelmente, conseguido um enorme sucesso no campo da economia e do desenvolvimento. Assumindo-se claramente marxista, o estado chinês conseguiu destruir o mito que marxismo é igual a fracasso económico.

Para tudo isso terá contribuído o peso cultural milenar dos chineses e o grande pragmatismo e flexibilidade dos seus dirigentes. Mas também comprova exemplarmente, a nosso ver, que as receitas liberais e neo-liberais não são as únicas para os desafios de progresso e estabilidade que procuramos nesta Europa que parece não ter encontrado ainda o passo certo.

Não prescrevendo, obviamente, para a Europa uma inflexão para o marxismo não deixa de ser importante parar e meditar no que acontece na China. Salvaguardadas todas as diferenças, será prudente re-equacionar determinados preconceitos e fundamentalismos que nos continuam a condicionar fortemente.

Porventura João César das Neves sabe bem do que fala quando diz que “não restam dúvidas de que o que se passa hoje na China e na Índia determinará o mundo na nossa geração”. Porque realmente a globalidade que vivemos não se resume apenas à hegemonia americana. Biliões de pessoas vivem outra realidade bem distinta.

Se existe vida depois da morte – coisa em que ele não acreditava – Karl Marx estará, sem dúvida, a esboçar um largo sorriso trocista. Depois de ser o bombo da festa durante tanto tempo nada mais irónico, sobretudo vindo o reconhecimento de onde vem...



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terça-feira, março 30, 2004

O Clube dos "A gente não pode fazer nada"

O Clube dos “A gente não pode fazer nada”


Um dos bens de que nos podíamos orgulhar – nos Açores - era a segurança. Bem, álias precioso, para quem pretenda transformar a Região num destino turístico diferente, sobretudo em dias em que a segurança começa a tornar-se num bem de primeira necessidade.

Mas, tudo leva a crer, um bem em extinção, também entre nós. O pequeno crime, os actos de vandalismos, a total indisciplina e insegurança na estrada, o consumo de droga crescem, exponencialmente, nestas ilhas, até há bem pouco tempo, pacatas. Desde Ponta Delgada, aonde começa a ser problemático andar sózinho a certas horas, até às ilhas mais pequenas e rurais.

Tudo isto perante a complacência e a indiferença das forças de segurança acantonadas nas suas “repartições”, progressivamente idênticas a tantas outras aonde se pratica a lei do menor esforço e do ordenado que já está no bolso. E aquilo que ainda é perfeitamente controlável começa a tomar proporções preocupantes.

Doia a quem doer a nossa polícia não aparece, não actua e parece decapitada de qualquer comando que assegure que essa cultura de indiferença e irresponsabilidade tenha fim. Sá assim se percebe que - apesar dos artigos de opinião que surgem, quase diariamente, na nossa imprensa - tudo continue na mesma.

Só assim se percebe que a mesma polícia que, simultaneamente, assume posturas de arrogância e mesmo de má educação se mostre, súbitamente, incapaz de resolver assuntos da maior banalidade refugiando-se, quase sempre, atrás de chavões como “a gente não pode fazer nada”, “não temos meios”, ou ainda “não temos efectivos”.

Das duas uma: ou a PSP passa a a ter meios e efectivos e a poder fazer as coisas ou então, pura e simplesmente, não é precisa. Bastará, apenas, uma repartição para tomar conta das ocorrencias e uns fiscais de papeis e radares nas estradas. O que ficará, para além de tudo, muito mais barato a todos nós.
Um das caracteristicas fundamentais de um estado de direito é, justamente, a segurança de pessoas e bens e o cumprimento da lei. Objectivos só possíveis com a e existência de forças policiais devidamente preparadas para o exercício de funções que implicam empenhamento, sentido de responsabilidade e uma preparação cívica exemplar. Ser polícia não pode continuar a ser, apenas, uma saída profissional para quem não conseguiu melhor.

O País e os Açores precisam de segurança, protecção e muita pedagogia cívica. Não, certamente, de um mero Clube dos “ A gente não pode fazer nada”.

PEDRO DAMASCENO



terça-feira, março 16, 2004

O Crime de Madrid

O Crime de Madrid
(tratar os bois pelo nome)


O nacionalismo basco é absurdo; e o mundo islâmico é uma civilização medieval e falhada.
Pulido Pulido Valente



Quer concordemos ou não com a guerra no Iraque, com o nacionalismo basco, com o fundamentalismo muçulmano ou com o “imperialismo” americano o que se passou em Madrid no passado dia 11 foi “apenas” um crime gravíssimo que nenhum tipo de argumento político poderá branquear trazendo-o para a órbita de qualquer outro contexto que não seja o combate, sem tréguas, ao crime organizado.

E jamais o conceito de estado de direito – como o entendemos na Europa - poderá dar cobertura a atitudes brandas ou de putativo diálogo sob pena de estramos a dar o ouro ao bandido. Sem cair na tentação de enveredar por cowboyadas teremos que exigir dos nossos serviços de informações e investigação um trabalho urgente, profundo e competente. Qualquer coisa nas antípodas do trabalho que fizeram em relação ao Iraque.

Esses serviços, que são públicos e pagos por todos nós, não poderão continuar a prestar-se ao papel caricato de dizerem aos politicos aquilo que eles querem ouvir. Justamente como aconteceu com as armas de destruição maciça. Numa época de tecnologia de ponta e de recursos vultuosos não faz qualquer sentido que os serviços secretos não sejam de um total profissionalismo e eficiência.

A menos que existam razões de “conveniência” política ou de pura incompetência tudo o que aconteceu em Madrid terá que ser esclarecido em dois tempos e os resultados tornados públicos com vista à identificação e punição dos culpados. Porque ninguém, minimamente informado, pode aceitar qualquer outro caminho. Os meios e as tecnologias existem logo terá que haver também uma determinação profunda e incontornável.

E não poderá haver qualquer contemplação na perseguição dos culpados. Embora dentro das regras que se esperam de uma sociedade civilizada não se poderá no ridículo de tratar com paninhos quentes quem não respeita a lei ou os príncipios da convivencia democrática. O crime não pode jamais compensar sobretudo em casos hediondos como este. Que se contractem os melhores profissionais e se lhes proporcionem os maiores meios com outro fim que não sejam os de identificar e prender os culpados e trazê-los à justiça.

Tudo isto num contexto em que não podem entrar em linha de conta os interesses das indústrias das armas ou dos senhores do petróleo. Porque não pode existir liberdade sem segurança e esta não pode estar dependente de grupos de interesses que, a coberto dos ditos estados de direito, fomentam e apoiam em privado aquilo que dizem combater em público.

As sociedade democráticas não se podem refugiar, apenas, atrás de conceitos de aparente benignidade de costumes. Devemos ser os primeiros a limpar a nossa própria casa e a erradicar a violência do nosso seio robustecendo e dando meios adequados à justiça para punir, exemplarmente, aqueles que, entre nós, são coniventes ou se aproveitam de crimes sem perdão.

O crime não começa nem acaba apenas nas entranhas do nacionalismo basco ou do fundamentalismo islâmico.



P E D R O D A M A S C E N O



terça-feira, fevereiro 17, 2004

Bravo Franceses!

“Nas escolas, colégios e liceus públicos, são proibidos os sinais e as vestes manifestam ostensivamente a confissão religiosa dos alunos”
Lei aprovada na Assembleia Francesa


Bravo Franceses!


É facto comprovado que as religiões, à medida que se institucionalizam, perdem a sua pureza original e passam a servir interesses, instalados ou a instalar, que pouco ou nada têm a ver com a sua filosofia original. Primordialmente interesses dos seus agentes, sejam eles políticos ou meramente económicos. Sem excepção.

E é, indiscutivelmente, esse o caso do Islamismo. Religião que persegue, em muitas partes do mundo, o controle político para melhor exercer o seu poder repressivo e castrante. Castrante, mesmo no sentido mais objectivo como é o caso da ablação do clitóris de jovens adolescentes. Religião que defende o papel secundário da mulher para quem concebeu vestes que têm como preocupação central mostrar, no dia a dia, esse ferrete.

Uma religião controlada por homens e para os homens. Uma religião que procura infiltrar todo o aparelho de estado e, se possível, controlá-lo em absoluto e que encontrou a sua expressão mais clara na antiga Pérsia, hoje o Irão dos mulahs. Sem que tudo isto tenha, necessariamente, alguma coisa a ver com os ensinamentos do profeta Maomé.

Sendo certo, também, que as sociedades dominadas, explicita ou implicitamente, pelo Islão não são sociedades abertas, tolerantes e democráticas como as nossas sociedades européias. São sociedades fechadas e autoritárias que procuram incutir nos seus jovens, desde o nascimento, o radicalismo religioso de modo a perpetuar e expandir o reino dos “donos” da palavra de Ala!

Embora este radicalismo não seja, apenas, apanágio dos muçulmanos. Todas as religiões, em maior ou menor grau, tem os seus radicalismos e o seu séqüito de fanáticos. Sejam eles católicos, judeus ou protestantes.

Mas na Europa moderna e laica esses excessos foram devidamente contidos e as escolas públicas vieram a assumir, progressivamente, um papel laico deixando as questões de religião para os agentes religiosos. E, desse modo, dando aos jovens a possibilidade de escolherem, em liberdade, o seu próprio caminho no domínio do espírito e da religião. Único caminho que, a nosso ver, pode conduzir a sociedades tolerantes e abertas.
Situação que começou a conhecer um claro retrocesso com o advento de grande número de emigrantes, sobretudo muçulmanos, que, numa lógica de preservação de identidade social e religiosa, começaram a “invadir” as escolas francesas (e não só) com sinais de ostentação religiosa nomeadamente o tristemente célebre véu – sinal externo do papel menor que atribuem às mulheres.

Naturalmente que sociedades, abertas e democráticas, devem respeitar as diferenças incluindo as religiosas. Da mesma forma que o estado deve assegurar a todos os jovens o mesmo grau de liberdade não permitindo quaisquer lavagens ao cérebro, seja a jovens origem francesa ou de qualquer outra.

Os emigrantes, muçulmanos ou não, quando procuram um outro país fazem-no pelos seus próprios interesses e porque não conseguiram lograr uma vida digna nos seus países de origem. O mínimo que podem, em contrapartida, fazer é saber respeitar o estilo de vida dos países anfitriões sem prejuízo de viverem, dentro de portas, uma vida ao seu jeito.

O papel da escola não deve ser apenas o de transmitir conhecimentos. Tem de ser também o de uma escola de civismo e de liberdade. E jamais poderá ser o palco de manifestações religiosas retrógradas e lesivas de direitos, liberdades e garantias.

Só não vê quem não quer: o espírito da lei francesa não é combater qualquer tipo de símbolo religioso nem combater qualquer convicção religiosa mas apenas aqueles símbolos que ostensivamente pretendem manifestar uma confissão religiosa que, obviamente, não sabe ou não quer respeitar as outras.

Bravo Franceses, pela coragem na defesa da conquista maior da vossa Revolução!


P E D R O D A M A S C E N O

terça-feira, fevereiro 03, 2004

A Tragédia e a Indiferença

A Tragédia e a Indiferença
A Tragédia


Um jovem morre, na flor da vida, de forma súbita e inesperada. Trágica e chocante como todas as mortes inesperadas, e mesmo esperadas, de jovens para quem se espera uma longa vida, eventualmente recheada de êxitos pessoais e profissionais.

Uma jovem vida que desaparece de repente - como tantas outras desaparecem todos os dias - seja na estrada ou no trabalho, no lazer ou na doença. Só que, neste caso, trata-se de um jogador de futebol de um grande clube e o episódio acontece, praticamente, em directo. E, alas, o assunto passa a assumir proporções nacionais com horas inteiras de “prime time” televisivo com todos os ingredientes próprios de uma novela em directo, numa verdadeira catartase nacional.

Se o mesmo jovem, da mesma idade tivesse morrido das mesma causas só que noutro contexto e sem ser jogador de futebol (ainda que relativamente obscuro) não teria sido sequer notícia em telejornal, quanto mais objecto de tal dilúvio mediático. Nem que porventura tal morte tivesse envolvimentos pessoais e familiares bem mais trágicos.

Não seria notícia e não teria os ingredientes necessários para provocar o choro em directo. O país continuaria a sua vida, pacato e sereno. Seria apenas uma morte precoce como tantas acontecem sem que o país disso tomasse conhecimento ou se preocupasse minimamente. Mesmo que uma de uma morte perfeitamente evitável se tratasse - essa sim uma verdadeira tragédia pela sua evitabilidade e pelo seu desperdício.

Para quê tantas lágrimas inúteis e tantos holofotes efémeros gastos quando não somos, crescentemente, capazes de ser solidários uns com os outros a uma escala de vizinhos?


A Indiferença


Um ministro de estado, munido das suas vestes ministeriais, terá evitado numa sala de VIP’S um ex-presidente da Nação por causa de desamores públicos. A tal ponto que terá decidido anular a seu bilhete em avião de carreira e mandar buscar o dispendioso avião Falcon das deslocações oficiais para se furtar a um encontro desagradável.

Sendo ou não verdade a história circulou nos jornais e nunca foi, que se saiba, desmentida. Mas mais importante do que confirmar ou não tão caricata hipótese interessa assinalar a indiferença que gerou. Num país em que se faz o discurso oficial de contenção e se tomam medidas draconianas para conter o putativo defice orçamental ainda é possível que uma história assim não passe de um rodapé!

Mais importante do que fazer um linchamento político importa constatar o comportamento da nossa classe política que torna verosímeis tais episódios e, sobretudo, acentuar a indiferença pública que geram como se de outro fatalismo lusitano se tratasse. Os políticos são mesmo assim, lê-se nas entrelinhas...

Não houve directos na SIC-Notícias, não houve folhetim mediático logo não houve notícia. Mesmo que o erário público tenha sido prejudicado e que andemos, todos nós, a pagar as birras de um ministro.

Pior que as lágrimas inúteis do circo mediático só mesmo a indiferença patológica de um país que “não” existe para além das luzes da ribalta e do politicamente correcto e que prescinde do exercício diário da sua cidadania em troca por brandos costumes que nos corroem a alma e matam a esperança.
PEDRO DAMASCENO


segunda-feira, janeiro 19, 2004

Aventuras e Desventuras do Transito no Pico

Aventuras e Desventuras
do
Transito no Pico



É sobejamente conhecido o perigo que representa circular, hoje em dia, nas estradas do Pico. E se mais acidentes não há, isso deve-se exclusivamente ao baixo tráfego viário que torna a hipótese de acidente menos provável. Porque de resto os ingredientes estão todos lá: manobras perigosas para todos os gostos, álcool, excesso de velocidade, falta de civismo e, em último lugar mas não menos importante, policiamento praticamente inexistente.

Polícia que para além de umas patrulhas (?) de objectivos não identificados e de estacionar nos respectivos postos se especializou na caça à multa e em chatear, com documentos ou questões menores, os condutores. Conseguindo, desse modo, a proeza notável de conseguir não estar presente em “95,5%” das situações em que devia estar!

Mas como se tudo isto não fosse, por si, um fado bem triste está, agora, a consolidar-se a última moda que é colocar um radar num sítio em que se sabe, antecipadamente, que as pessoas circulam a velocidades superiores às autorizadas, tirar a fotografiazita e ... pum ... multar, sem apelo nem agravo, o incauto que por acaso não sabia que nesse dia a polícia estava a fazer uma “operação stop”. Sítios escolhidos a dedo, ou por serem especialmente convidativos à velocidade ou por terem limites ridículos como os malfadados 30 Km que nunca ninguém respeita, nem mesmo os polícias a menos que se saiba que o radar está lá!...

E, assim, fica o “dever cumprido” e os condutores prevaricadores “exemplarmente” punidos. Embora no minuto seguinte volte tudo à mesma e valha tudo mesmo tirar olhos. Como as tais beatas que vão à igreja tomar nosso senhor e bater com a mão no peito enquanto que pensam no próximo mexerico!

Isto num contexto em que se sabe que o excesso de velocidade (mesmo aquele que é mesmo excesso a sério) é apenas um dos componentes do acidente sendo que as manobras perigosas e o álcool no sangue são factores bem mais relevantes. Os acidentes ocorrem, habitualmente, pela associação de um conjunto de causas diversos que urge evitar na sua globalidade, incluindo as questões relacionadas, tão somente, com a fala de civismo.



Naturalmente que não se contesta a necessidade ou mesmo a obrigatoriedade de cumprir a lei. O que se contesta, em absoluto, é que apenas se procure fazer cumprir aquilo que dá menos trabalho à polícia e que, pelo seu pendor administrativo, seja menos difícil de contestar. É, com certeza, muito mais fácil tirar uma fotografia de circulação a 50 Km num local de 30 do que intervir numa situação de uma ultrapassagem perigosa (mais susceptível de gerar discussão e contestação) sendo que esta é muito mais susceptível de gerar acidentes.

Quanto a nós um dos erros mais elementares da política de cobertura policial das ilhas é a colocação em meios, necessariamente pequenos, de agentes naturais dessas ilhas. Situação que apenas potencia um grau de permissividade inadmissível no plano institucional, embora compreensível no plano humano. Não nos parece curial nem prudente colocar os agentes, sobretudo aqueles que iniciam a sua carreira, em dilemas que não podem existir quando se tratar de aplicar e fazer aplicar a lei.

A polícia deve, a nosso ver, ser essencialmente uma força de presença, persuasão e mesmo de pedagogia. Sem esquecer aspectos repressivos e punitivos que têm que existir, a polícia tem um papel imprescindível na segurança dos cidadãos e dos seus bens, de forma activa e empenhada. Não se pode ficar pelos gabinetes e pelas resmas de papeis. Ser polícia não pode ser apenas outra forma de ser funcionário público (com o devido respeito para os ditos funcionários que cumprem os seus deveres!) mas tem de ser uma forma de garantir liberdades, direitos e garantias.

Se há poucos polícias que se contractem mais. Se ganham pouco que se lhes pague mais. Mas que se assegure uma presença forte e pro activa da polícia. O crime é como a droga, atrás do pequeno vem o grande. Que se multe menos e patrulhe mais.

A não ser assim conduzir no Pico continuará a ser uma aventura e, tanta vezes, mesmo uma desventura. Basta olhar apenas para o número crescente de pessoas que perde, desnecessariamente, a vida nas nossas estradas.




Nota do A: o número 95, 5 % é aleatório mas traduz com grande acuidade a realidade


P E D R O D A M A S C E N O

domingo, dezembro 28, 2003

O Aborto no País-Para-Inglês-Ver

O Aborto
no País-Para-Inglês-Ver


É perfeitamente fascinante assistir a alguns debates sobre o aborto que ocorrem neste País-Para-Inglês-Ver aonde as aparências continuam a contar mais do que tudo. Num misto de hipocrisia e de intelectualismo barroco centra-se o debate nas altas questões da biologia e nos conceitos de memória celular. Num país, ainda, fortemente rural e com níveis de escolaridade abaixo da média europeia transforma-se uma questão eminentemente social e de caracter prático no debate último sobre a essência da vida e no seu valor supremo!

Num país aonde, semanalmente, morrem pessoas na estrada integrado num mundo aonde, todos os dias, morrem milhares de seres humanos de fome, de sida e em conseqüência dos mais variados conflitos militares e políticos; numa realidade, à escala mundial, em que a vida humana vale tão pouco; não deixa de ser irónico que percamos horas de intermináveis debates que não passam, em grande parte dos casos, de uma mescla de interesses religioso-institucionais e político-eleitoralistas.

Com ou sem lei despenalizadora, o aborto ou a interrupção voluntária da gravidez (IVG), como se preferir, é em Portugal uma prática extremamente difundida. Situação que transitou do tempo da “antiga senhora” e que mantem acutilante actualidade apesar da proliferação de meios anti-conceptivos e das ditas políticas (?) de planeamento familiar. Medidas que, em 30 anos de democracia, foram insuficientes para resolver o problema.

A questão da legislação sobre a IVG não é, por conseguinte, uma questão religiosa ou moral. É uma questão eminentemente social e política que tem lugar num estado laico e de direito. O Estado Português não pode nem deve deixar que toda esta questão se centre em debates de natureza religiosa ou moral. Portugal não é um estado religioso e não representa nem pode representar orientações de caracter confessional e, muito menos, consagra-las na lei.

O debate religioso e moral cabe, com toda a legitimidade, às várias confissões religiosas e/ou morais com preponderância especial da Igreja Católica que continua a representar, pelo menos teoricamente, um elevado número de portugueses. Mas, como é sabido, a questão da despenalização do aborto não passa por o tornar obrigatório!.. E, certamente, essas instituições/organizações saberão como manter a ordem no seu seio através de todos os debates e/ou campanhas que entendam promover.

O que não é legítimo nem aceitável é essas instituições interfiram, com base em conceitos morais ou confessionais, numa área que é de caracter estritamente jurídico e social já que se trata de decidir sobre uma norma que visa enfrentar, de forma realista e socialmente justa, uma questão maior de saúde pública e de defesa dos mais desprotegidos/vulneráveis. Uma área que embora - reconheça-se - tendo implicações religiosa e/ou morais tem que ser tratada com bom senso e equilíbrio sob pena de se questionar a própria democracia.

Uma área que é, também, do foro íntimo e pessoal. Porque se o problema da IVG fosse apenas uma questão moral então não faria sentido, também, qualquer tipo de excepção como as que já estão consagradas na lei: violação, deformações graves do feto, perigo de vida eminente para a mãe. Hipótese totalmente absurda num estado democrático que visa promover e defender os seus cidadãos. E se é verdade que as situações de excepção que a lei já consagra são casos limites há, contudo, um interminável conjunto de situações intermédias de índole pessoal e social que ninguém pode, antecipadamente, julgar.

Há, pois, que investir a sério no planeamento familiar e no acesso, universal e gratuito, aos métodos anticoncepcionais bem como nas áreas educacionais susceptíveis de elevar o nosso nível cívico e o nosso sentido de responsabilidade no contexto de uma sensibilização e informação na área sexual e dos comportamentos de risco.

Quer queiramos quer não, o nosso país continua a manter défices sociais, culturais e, mesmo, de iletracia muito elevados. Somos um país em que as classes mais desprotegidas têm um peso muito significativo e em que as desigualdades sociais são, ainda, muito marcadas. Situação que, por si só, implica evidentes défices democráticos que só poderão ser supridos mediante o investimento sistemático e profundo na educação, quer seja nas escolas quer seja fora delas.

Está totalmente provado que a penalização do aborto não tem efeitos visíveis no controle da sua prática tendo, antes, efeitos indiscutíveis a nível da penalização da saúde das portuguesas em conseqüência de uma florescente actividade ilegal e incompetente de abortamentos. Único grupo que lucra, objectivamente, com a presente situação.

E verdadeira democracia é aquela que diagnostica os seus défices e os procura corrigir e não aquela que os procura ocultar. E o combate ao aborto, prática perfeitamente evitável com os meios técnicos que dispomos, faz-se no plano do combate à exclusão social, à iletracia e ao desnorte cívico e de valores da nossa juventude. Não se faz punindo quem não encontra outra alternativa/saída.

Há, portanto, que legislar com bom senso e equilíbrio tendo em linha de conta os valores da vida humana mas em toda a sua plenitude e não apenas no sentido mais restrito. Há que pensar em tudo: no direito à vida mas também na sua qualidade e viabilidade pondo de lado chavões de qualquer tipo. Como, de resto, acontece no espaço europeu aonde nos integramos.

Temos, em definitivo, que deixar de ser apenas o País-Para-Inglês-Ver.



P E D R O D A M A S C E N O

quinta-feira, outubro 23, 2003

Os noticiários do nosso descontentamento

Os noticiários do nosso descontentamento
ou os arautos da desgraça


Quase (inversamente) proporcional ao avanço das tecnologias multimédias e de telecomunicações decresce a nossa vontade de ver noticiários televisivos, quer das privadas quer das públicas. Ou porque são chatos (entrevistas intermináveis sobre assuntos desprovidos de interesse com pessoas que nem falar sabem) ou porque se limitam a dois ou três temas da moda (Médio Oriente, Iraque, Casa Pia) que repetem até à exaustão como este mundo multifacetado e, tantas vezes, fascinante não passasse disso.

Os noticiários que deveriam ser uma oportunidade de oiro para trazer junto do grande público um sentido positivo da vida e do que de relevante acontece em termos do nosso progresso a todos os níveis, não passam – na generalidade – de palco de disputa de audiências e, o mesmo é dizer, de procura de sensacionalismo que passa por escândalos, política barata, violência e mesmo por pura ordinarice.

Se não andássemos por este mundo de olhos abertos (quem anda!) seríamos tentados a pensar que o Juízo Final se aproxima a passos de gigante porque pouco ou nada de puro, positivo ou, simplesmente, interessante acontece. E assim, a nossa percepção colectiva vai sendo inquinada de um pessimismo/derrotismo que vai minando a nossa vontade de participar na vida comunitária remetendo-nos para um individualismo feroz, tantas vezes, perto de verdadeiro autismo.

É importante que haja rigor e verdade na informação e que não se escamoteiem matérias que, embora deprimentes e dolorosas, devem ser conhecidas das pessoas porque este mundo não é um mar de rosas e é importante que haja consciência colectiva dos atropelos, injustiças e crimes que se cometem neste planeta. Mas não faz sentido que, simultaneamente, não se faça, sistematicamente, eco das coisas extremamente positivas que podem ser exemplos importantes para sociedades que, em crise aberta de valores, procuram um caminho.

Sobretudo não se entende que as próprias televisões públicas, que deveriam ter um papel pedagógico inestimável, caiam precisamente no mesmo rol de desgraças e se prestem a um papel que em nada dignifica um serviço que deveria estar do lado de uma apresentação equilibrada do que acontece no país e no mundo sem receio de conquista de audiências a qualquer preço. Não se tratar de tentar infantilizar as pessoas através de lupas cor de rosa mas tão somente de fazer o trabalho de casa, em condições, de modo a poder apresentar diariamente aos cidadãos deste país informação digerida e global que represente aquilo que, efectivamente, acontece cá e no mundo.

Suspeito bem que é mais fácil e barato apresentar os “enlatados” noticiosos que estão na moda do que fazer o trabalho de pesquiza e de campo que uma informação verdadeiramente consistente e rigorosa exige. Vamos todos para aqui e para ali, aos bandos de câmaras e repórteres, e deixemos de mão aquilo que é considerado pouco ou nada mediático (?) embora possa ser da maior importância e qualidade. Não há escândalo, não há crime, não há sexo, não há violência, então que chatisse! Já viram a chatisse que os noticiários seriam se não houvesse a Casa Pia, o Carlos Cruz e o Paulo Pedroso? E que seria de nós que assim não poderíamos armar em juízes e dar “doutas” sentenças à mesa do café?

A chatisse que seria se tivéssemos que falar da poluição, do ambiente, da falta de valores e referencias que, cada vez mais, se fazem sentir na nossa sociedade?! A sensaboria que seria se tivéssemos reflectir sobre as perpectivas do nosso desenvolvimento e da necessidade imperiosa de mais educação e formação para podermos enfrentar os desafios do alargamento da Europa aos países de leste ou então que tivéssemos que começar a pagar impostos para assegurar as receitas indispensáveis ao investimento público que falta por todo lado?!

E a desgraça que não seria se nos tirassem as horas e horas de intermináveis de debates sobre o futebol? Iríamos falar de quê? O que poderia substituir aquelas imagens que nos permitem chamar cego e burro, entre outros mimos, aos árbitros que não viu aquilo que todos nós vimos? É bem verdade que vida não pode ser só de coisas sérias ou “intelectuais” mas não pode também ser também apenas futebol, fado e circo.

Os nossos noticiários (sobretudos os públicos) deveriam ser, por excelência, momentos de informação, reflexão e formação. Oportunidades de trazer à colação temas e assuntos que apenas uma câmara de televisão e jornalistas competentes e com talento podem fazer. Sobretudo num país em que as assimetrias sociais e culturais ainda são tão vincadas.

É bem pena que se limitem a ser apenas os arautos da nossa desgraça e do nosso descontentamento





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