quarta-feira, setembro 29, 2004

Eleições

A credulidade dos tolos é o património dos velhacos
Ditado Popular


E L E I Ç Õ E S


Aí estão – as eleições. Já se sente o cheiro e já se vêem os cartazes, sobretudo aqueles de não sei quantos metros que nem a nossa paisagem poupam e que vieram, pelos vistos, para ficar. E que vamos ter que gramar quer chova quer troveje.

Chegou o circo e as tendas já estão a ser montadas. O circo mediático aí está e não faltam, sequer, palhaços, acrobatas e mágicos! Virão, também, os artistas convidados, a música, os confetis e os balões. E as televisões farão directos e as habituais fofocas.

E bem lá por trás, num plano bem secundário, haverá conversas e promessas. Mas que serão muito abafadas pelas pancadinhas nas costas, pelos beijinhos e pelos porta a porta que quase cheiram a visitas de seitas que disso fazem vida e missão.

E, quase com toda a certeza, os assuntos verdadeiramente importantes ficarão, mais uma vez, por discutir. Tentar-se-á fazer num mês o diálogo e comunicação que se deveria ter feito em quatro anos. Todos procurarão o melhor sorriso e o charme adequado e muitos fugirão, como o diabo da cruz, do debate frontal e fundamentado.

O que sendo verdade cá, é verdade por todo lado aonde se vive este menor dos males a que chamamos democracia que até consegue pôr no poder quem teve menos votos! Democracia dos votos manipulados, comprados e oportunistas que põe, em pé de igualdade, com os votos sérios, esclarecidos e comprometidos.

Como em tudo na vida, há gente séria e capaz na política como há, também, os profissionais da demagogia e do oportunismo que aí encontram refúgio para a sua mediocridade e para a incapacidade de terem uma vida própria. Um bom paleio misturado com uma boa dose de desfaçatez e velhacaria ainda consegue fazer, nas nossa terras, um “bom” político.

Por tudo isto a política perde popularidade. Por tudo isto é crescente a abstenção sobretudo entre os jovens que, não tendo grandes convicções, não se sentem motivados para participar em actos que pouco lhe dizem, em termos práticos. A um excesso de “afecto” e proximidade das campanhas eleitorais sucede o afastamento e o alheamento, com as devidas e honrosas excepções.

Sendo estas eleições de âmbito regional e, sobretudo de ilha, bom seria que os eleitores fossem capazes de olhar, sem paixão, para o que foi e não foi feito e, sobretudo, conseguissem avaliar os candidatos pelo seu passado, pelos seus méritos e pelo trabalho desenvolvido. E não caíssem em partidarites agudas nem em cantos de sereia.

Porque a factura dos nossos votos virá sempre bater-nos à porta. Por muitos compadrios que existam e por muitos favores que se consigam, o futuro da nossa terra e dos nossos filhos dependerá, em grande parte, da qualidade dos nossos políticos. Os partidos são importantes porque são um pilar insubstituível da democracia mas, por isso mesmo, não podem tornar-se num simples sucedâneo dos clubes de futebol.

Os partidos são, ou deveriam ser, espaços e formas de intervenção cívica baseados em convicções e depositários de compromissos formais. Nunca trampolins de poder e escolas de como se pode vender gato por lebre!

O circo está aí e até pode ter piada se o espectáculo for bom. Mas ao soar o gongo final será tempo de metermos a mão na consciência e tornarmos o nosso voto num acto responsável e responsabilizante .

A política é, e deve ser, de todos nós.


P E D R O D A M A S C E N O


domingo, setembro 19, 2004

Quo Vadis Esquerda?

Apesar de sermos máquinas genéticas podemos virar-nos contra os nossos criadores
Richard Dawkins



Quo Vadis Esquerda?


A economia de mercado baseia-se na ideia de que os seres humanos só trabalham duro e mostram iniciativa quando disso possam tirar benefício económico, pessoal e directo. Uma premissa a que se pretende dar um caracter genético e imutável.

Premissa que, em conjunto com a lógica da sociedade de consumo, torna – no ver de muito boa gente – obsoletas as ideias de direita e esquerda. Daí que se apressem a proclamar o fim das ideologias. Que no fundo, mais coisa menos coisa, vai tudo dar ao mesmo.

E a esquerda, ainda com as orelhas a arder do descalabro da Rússia e países de leste, tem mostrado acentuadas dificuldades em assumir um papel pro-activo na definição daquilo que deve ser o seu caminho face ao falhanço do mundo comunista europeu. Porque no chinês outro galo canta...

Ou seja a esquerda permitiu que que se aceitasse de barato que quando se fala em benefício próprio se está falar de dinheiro. Quando, parece óbvio, que interesse ou benefício próprio tem um âmbito muito mais vasto do que o dinheiro.

Se é certo que a maior parte das pessoas querem ter vidas felizes, preenchidas e com significado e que tudo isso passa, em parte, pelo dinheiro não é menos verdade que este, por si só, fica longe de resover tudo. E que as pessoas sentem, também, necessidade de se sentirem necessárias, úteis e amadas.

E, de facto, o homem afluente da sociedade de consumo está cada vez mais stressado e incapaz de gozar os prazeres simples da vida sendo – crescentemente – escravo das gaiolas de oiro que vai construindo mas que lhe minam a saúde a alegria de viver.

Todos os estudos internacioanais têm demonstrado que não há uma correlação clara entre riqueza e felicidade. Demonstrando, pelo contrário, que as sociedades altamente competitivas não são aquelas em que a maior parte dos cidadãos se sentem felizes e/ou realizados. Como alguém disse: “ninguém pode viver uma vida privada feliz em estado de sítio, desconfiando de todos os estranhos e transformando a própria casa num campo armado”.

Sendo certo, por outro lado, que a maior parte das pessoas, independentemente do sistema económico e social em que vivem, respondem positivamente às oportunidades genuínas de participarem em formas de cooperação, mutuamente benéficas. Sendo essencial promover estruturas que promovam cooperação em vez de competição e tentem canalizar a competição para fins socialmente desejáveis.

Mantendo a esquerda os seus valores tradicionais de defesa dos fracos, pobres e oprimidos deveria ser, ela própria, a promotora de um modelo de sociedade que venha – realmente – defender aqueles. Substituindo muitas das suas utopias sociais por uma visão mais fria e realista que assegure essa defesa.

Aonde existir uma oportunidade de sobreviver sem trabalhar vai aparecer sempre alguém para a aproveitar. E, por isso, o desafio será desenhar um modelo social - cada vez mais rigoroso - que tenha em linha de conta, a dita “natureza humana” (sobre a qual saberemos sempre mais) mas que saiba potencializar, também, o lado altruísta e cooperativo que existe na maioria de todos nós e que é um dos ingredientes indiscutíveis da felicidade.

A economia de mercado e a sociedade de consumo não são, comprovadamente, a autoestrada da nossa felicidade. Atingido um patamar aceitável de progresso e bem estar é indispensável que nos voltemos para o culto da cooperação, da amizade e da solidariedade.

Quo Vadis Esquerda?


P E D R O D A M A S C E N O


terça-feira, agosto 31, 2004

Paisagem Protegida da Vinha e Secretaria Regional do Ambiente

Quem porfia e não cansa, sempre alcança!
DITADO POPULAR



Paisagem Protegida da Vinha
e
Secretaria Regional do Ambiente




Já vem de longe a defesa, nesta coluna, da criação de uma Secretaria Regional no Pico. Ideia álias assumida, em declarações públicas recentes, pelo actual Presidente do Governo Regional.

Com as eleições regionais, ali ao dobrar da esquina, é uma tema de grande actualidade e que bem poderia fazer parte do rol de promessas que as várias forças partidárias nos vão fazer mas, nomeadamente, as duas com hipóteses de chegar ao poder.

Defendemos primeiro a necessidade da criação de uma Secretaria do Ambiente que, entretanto, foi criada. Defendemos, a seguir, a lógica de que essa Secretaria faria todo o sentido na Ilha do Pico pelas suas carateristicas naturais das quais ressalta a integridade da nossa flora endémica - a Laurasilva.

A dimensão da ilha, a sua ruralidade e a montanha tornam o Pico um destino único para tursimo e usufruto da natureza. Surge, agora, a consagração da Vinha como património mundial que lhe vem trazer uma visibilidade nacional e internacional sem precedentes. Bem como as correlativas responsabilidades.

A verdadeira liquidação do conceito de ex-distritos que, apesar de trinta anos de democracia, ainda subsiste – embora de forma encapotada – só ocorrerá quando for criado outro real centro de decisão fora das ex-capitais de distrito. A tripolaridade, como alguns lhe chamam, só desaparecerá quando o poder deixar de ser milimetricamente distribuido por aquelas.

A abertura das novas ligações áreas directas com o exterior do Pico e de Santa Maria serão, também, um passo decisivo na descentralização do arquipélago e na consolidação de uma nova lógica de desenvolvimento regional. Um lógica assente na eliminação de assimetrias que se têm mantido por pura inércia e por força de lobis que queram a todo custo manter privilégios que já não fazem, hoje, qualquer sentido.

O próximo passo lógico será a criação de uma secretaria fora de Ponta Delgada, Angra e Horta. Os custos não serão, certamente, maiores e ter-se-á, desse modo, dado um passo verdadeiramente inovador num conceito de Região assente na realidade ilha (como de resto está na lei) e potenciador de novas abordagens do conceito de arquipélago.

Nesta linha de pensamento faz, também, todo o sentido que seja a segunda ilha do Açores em tamanho, a terceira em população e aquela que apresenta perspectivas de crescimento mais interessantes para além de S. Miguel e Terceira que venha a ser a contemplada.

Do mesmo modo que faz todo o sentido que seja a Secretaria do Ambiente a ser escolhida. Aqui encontrará a possibilidade de expressão máxima de um trabalho de proteção e valorização do ambiente e o enquadramento numa área de património natural da humanidade, moldura sem paralelo na Região.

Não se trata de uma questão de bairrismo. Trata-se de uma questão de elementar justiça e de criatividade política que só ficará bem a quem decidir dar esse passo histórico para o Pico e para os Açores.

A palavra cabe, agora, aos senhores políticos.


P E D R O D A M A S C E N O

segunda-feira, agosto 16, 2004

Os selvagens do nosso tempo

De pequenino se torce o pepino
Ditado popular



Os selvagens do nosso tempo


Bem sabemos que as questões da área da Educação são difíceis e que a sua solução será, a prazo, o passaporte para nossa viabilidade como nação. Apenas um elevado nível educacional da nossa população poderá permitir um desenvolvimento global.

O caso da Irlanda é um bom exemplo disso. De país na cauda da Europa “competindo” connosco pelos últimos lugares passou a país do pelotão da frente. Essencialmente porque apostou forte na área da Educação e das tecnologias de ponta.

Mas essas, são matérias de fundo que, tendo que ser resolvidas com brevidade, não impedem que outras – não menos importantes – mas mais simples sejam, entretanto, solucionadas. Questões que se prendem com áreas cívicas e de comportamento social.

Sendo as matérias curriculares e as estratégias de ensino problemas, inquestionavelmente, difíceis tudo levava a crer que questões de elementar comportamento cívico e social seriam simples de resolver. Mas, puro engano, a um maior nível de escolaridade parece corresponder uma crescente falta de conhecimento das mais elementares regras de cortesia e vida em comunidade.

Seja ao nível das crianças de mais tenra idade que vitimizam tudo e todos com os seus gritos estridentes e as suas correrias desordenadas em qualquer lugar público seja ao nível dos adolescentes e jovens que passaram a desconhecer que existem saudações entre as pessoas ou que poluem, indescriminadamente, o ambiente que os rodeia.

Tudo isto perante a omissão e complacência da generalidade dos pais que parecem resignar-se diante daquilo que começa a ser um fenómeno incontrolável. Pais tantas vezes com elevados níveis de escolaridade que debitam conhecimentos aos filhos sem, contudo, se preocuparem com o seu comportamento pessoal e social.

Fenómeno que, também, acontece ao nível das escolas, mesmo as do ensino básico, aonde se parece ter entrado num clima, também, de omissão por um conjunto variado de factores que vão desde problemas de disciplina até um laxismo que tem muito a ver com a atitude dos próprios pais.

Pais que, crescentemente, dedicam menos tempo aos filhos que trazem a este mundo – sabe-se lá tantas vezes porquê! – mas que, talvez por causa disso, se tornam progressivamente permissivos e, simultaneamente, reactivos ao papel disciplinador que os professores devem ter. Não educando nem deixando educar e criando nos professores uma atitude de desmobilização e desinteresse.

Sem defender um recuo para um modelo autoritário de educação e percebendo que as crianças e os jovens devem ter acesso a um pleno desenvolvimento das suas personalidades e potencialidades torna-se, contudo, imperioso que elas sejam ensinadas a respeitar limites. Limites que terão de respeitar em relação às outras pessoas, como indivíduos, e em relação à comunidade em que vivem.

Sendo que essa é uma das lições que podemos tirar da natureza. A biodiversidade, ou a diversidade de espécies, é uma das condições essenciais à manutenção do equilíbrio do nosso habitat. Sempre que uma espécie começa a crescer desmesuradamente à custa de outras que desaparecem gera-se aum desiquilíbrio que, por seu turno, põe em causa o ecosistema indispensável à vida.

As nossas crianças e os nossos jovens tem que conhecer os limites da sua própria liberdade e que são os limites da liberdade dos outros sob pena de se tornarem nos verdadeiros “selvagens” do nosso tempo. E, ainda por cima, bem mais depradadores.

P E D R O D A M A S C E N O

domingo, agosto 01, 2004

Vinha do Pico, Património Mundial e Desenvolvimento

Vinha do Pico, Património Mundial e Desenvolvimento


“A medida virá “penalizar” fortemente, em termos de desenvolvimento, o concelho da Madalena”
Presidente Camara da Madalena do Pico



A aprovação na China, por unanimidade, da Paisagem Protegida da Vinha do Pico como Património Mundial é um acontecimento de tal modo fundamental para a Ilha do Pico e para os Açores que custa a perceber porque, para além das reacções imediatas, pouco se tem dito ou escrito sobre o assunto.

A citação acima reproduzida do presidente de camara do concelho aonde se situa a parte mais importante desse vinha passará, sem dúvida, a fazer parte do anedotário político nacional pelo que representa de falta de visão de futuro. Aquele que deveria ser o primeiro a congratular-se é precisamento aquele que pretendeu matar, na praça pública, a galinha de ovos de ouro!

O reconhecimento mundial da riqueza da vinha do Pico como património vem, para além de prestar justiça ao trabalho insano dos nossos antepassados, confirmar a Ilha do Pico como um destinos incontornáveis para quem demanda os Açores em busca de de coisas que não poderá encontrar noutras paragens. Sabido que ninguém procura a Região atrás de sol e praias.

E o Pico que já contava com a notoriedade da sua montanha, da extensão da sua laurasilva (a mais bem preservada do arquipélago) e da saga baleeira passa a contar, agora, também com o reconhecimento mundial unanime da importancia de uma das suas actividades mais emblemáticas que nos deixou uma herança que poderá ser um das chaves fundamentais para o nosso desenvolvimento.

O Pico não se vai desenvolver porque - como pensa o autarca da Madalena - se vão construir muitas casas e adegas grandes ou hoteis dinossauricos, a torto e a direito. O Pico apenas se irá desenvolver na medida em que conseguir preservar a sua identidade patrimonial, seja natural ou erigida. Só, desse modo, conseguirá atrair visitantes que buscam o que ainda existe de autêntico por esse mundo fora.


Visitantes, habitualmente cultos e com posses, que não procuram os grandes hoteis (iguais a todo os outros em todo mundo) mas sim pequenas unidades integradas e turismo de habitação ou rural dando, desse modo, oportunidades de negócio para pequenos investidores locais que poderão completar outras actividades nomeadamente a agrícola.

O Pico terá que se afirmar pela diferença. Diferença que passa pela afirmação e preservação dos seus valores e actividades tradicionais. Se tentarmos imitar o que quer que seja – desde a Madeira ao Algarve ou mesmo a S. Miguel – estaremos irremediavelmente perdidos porque faremos sempre imitações mais baratas. A nossa força reside, precisamente, na nossa diferença.

E se o nosso desenvolvimento passa pelo turismo é preciso discernir qual o tipo de turismo. Que não será o turismo de grande unidades hoteleiras que apenas interessam a grandes grupos económicos ou a especuladores imobiliários mas o turismo de muitas coisas pequenas e boas sejam na área do alojamento, da restauração, do comércio ou da animação.

O turismo que interessa à Ilha é aquele que possa dar uma oportunidade ao maior número possível de pessoas que cá vivem e precisam de complementar os seus proventos familiares. Um turismo de face humana e personalizado que mobilize as populações locais e ajude a manter a autenticidade da nossa terra, único trunfo com que podemos contar.

A Paisagem Protegida da Vinha do Pico é, por tudo isso, uma grande oportunidade histórica de desenvolvimento.




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quarta-feira, julho 07, 2004

Pornografia e Fundamentalismo


Pornografia e Fundamentalismo



De país conservador e tradicionalista, próprio do Estado Novo, Portugal oscilou, nalguns aspectos, para o outro extremo do pendulo. Hoje a pornografia é entre nós, como no resto da Europa, um fenómeno perfeitamente banal. E será dificíl fazer uma viagem através dos canais de televisão sem com ela topar, quase sempre, com material altamente escabroso.

E assim vão as coisas. Em vez de informação/esclarecimento sexual e planeamento familiar (que os sectores mais conservadores se apressam a condenar) estamos nós condenados a levar com pornografia barata e sórdida (que muitos conservadores se “esquecem “ de atacar). Pornografia que, ao fim e ao cabo e em termos práticos, se tornou na verdeira “educação” sexual dos nossos jovens.

Por razões que se prendem, no essencial, com questões comerciais. Pornografia vende e vende bem. Mesmo, e talvez sobretudo, para os sectores conservadores hipócritas que fazem um discurso público num sentido e que se comportam, privadamente, em sentido oposto. No fundo os herdeiros da mentalidade dos “ballet rose” da antiga senhora.

Uma sexualidade sã e verdadeiramente gratificante nada tem a ver com pornografia mas sim com hormonas, afectos e comunicação. E também com informação desinibida e correcta que nos venha dar um conhecimento adequado dos nossos corpos e da nossa fisiologia. Informação que nos ensine que sexo não é apenas uma maratona de posições, modalidades e parceiros.

Sendo uma força natural extremamente poderosa, o sexo tanto pode ser uma forma superior de gratificação afectiva como pode dar origem a perversões abomináveis como a tristemente célebre pedofilia. Perversões que são claramente estimuladas por uma pornografia que procura explorar todos os lados sórdidos da personalidade humana com o objectivo único de negócio.

Sensualidade e erotismo – facetas da sexualidade humana – nada têm a ver com pornografia. Pornografia que apenas mata a imaginação e os afectos banalizando, de forma grosseira, aquilo que os orientais sempre consideraram uma forma especial de comunicação entre seres humanos e de que cultivaram de formas extremamente requintadas.

Pornografia leva a que os sectores conservadores do mundo não ocidental exerçam um poder repressivo crescente sobre as mulheres: desde a ablação do clitóris até ao uso das “famosas” burcas. Uma reacção de pendulo no sentido oposto: quanto mais despimos as nossas mulheres e vulgarizámos o sexo mais eles tentam vestir as suas e reprimir o sexo.

De um lado a mulher ocidental totalmente banalizada e exposta, do outro a mulher oriental escondida e reprimida. Dois extremos de uma realidade que deveria, pela sua importância nas nossas vidas, centrar-se num ponto de equilíbrio entre liberdade e respeito e entre prazer e afecto.

Se é lamentável ver ser humanos reprimidos e despojados de direitos básicos não é menos lamentável vê-los objectos de mera recreação comercial sem quaisquer critérios estéticos ou de respeito.

Pornografia e fundamentalismo andam de mãos dadas.




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quarta-feira, junho 30, 2004

Uma coisa muito feia

Uma coisa muito feia


Ainda algo atordoado com o terramoto político que caiu sobre Portugal
Diogo Freitas do Amaral


Não tencionávamos voltar, tão cedo, à problemática do descrédito da política e dos políticos embora haja razões recorrentes para que esse assunto não saia da ribalta. Como foi o caso, ainda há dias, do epípeto de “sentença de merda” com que o insubstituível Avelino Ferreira Torres decidiu brindar a decisão do colectivo de juízes que o julgou e condenou.

O caso agora é, contudo, bem mais grave. Um primeiro ministro que reiteradamente afirmou a sua decisão inabalável de cumprir o mandato para que foi eleito – ao contrario de outros como dizia – e que ainda há uma semana se mostrava indisponível para ser candidato a um cargo em Bruxelas dá o dito por não dito e demite-se para assumir um tacho que, providencialmente, lhe caiu na sopa.

Uma pessoa que ocupava um cargo político da maior importância não teve o mais pequeno pejo em lançar o país, que dizia tanto o preocupar, numa inevitável turbulência de consequências ainda imprevisíveis. Matando, desse modo, dois coelhos de uma só cajadada: safar-se do beco político aonde estava encurralado e prosseguir o seu projecto de poder pessoal.

Qualquer eleição envolve sempre um contracto entre eleitor e eleito. O eleitor ao votar confere ao eleito um voto de confiança para que execute as suas promessas e compromissos eleitorais. O eleito ao receber um mandato assume as responsabilidades para executar aquilo com que se tinha comprometido.

Durão Barroso quando se candidatou, pelas listas do PSD, a primeiro ministro fê-lo para um mandato de quatro anos como ele próprio confirmou à exaustão. E os contractos, mesmo os não escritos, são para se cumprir, pelo menos para quem seja pessoa de bem. E ao proceder como procedeu o ex primeiro ministro demonstrou não ser pessoa de bem dando um exemplo lamentável de falta de integridade e de caracter.

E não serão os argumentos de patrioteirismo balofo que poderão branquear aquilo que ficará como mais um exemplo extremamente negativo sobretudo para os jovens que não acreditam, minimamente, na política nem nos políticos. E porque deveriam acreditar?

Durão Barroso foi escolhido para Presidente da Comissão Europeia exclusivamente pela negativa. Porque os grandes blocos não se entenderam, porque o primeiro ministro do Luxemburgo não quiz trair os eus compromissos eleitorais, porque o ex-primeiro ministro português não é uma figura controversa, porque dá garantias de não bulir com os grandes interesses em jogo, por pertencer a um país que não é grande e também não é recem chegado.

Não foi, certamente, escolhido pelo seu prestígio político angariado à frente de um governo suportado por partidos que acabaram de averbar una derrota humilhante, precisamente para a Europa. A ida de Durão Barroso para a Comissão Europeia apenas seria uma honra para Portugal se, cumulativamente, ela se fizesse pela positiva e num contexto de disponibilidade política do próprio. Doutro modo não passa de um tacho que, fundamentalmente, serve para quem o vai usufruir e que deixa um país à beira de um ataque de nervos.

Não faltava mais nada que agora, ainda por cima, nos devessemos sentir honrados por ter sido traídos. Era quase como se a nossa mulher nos tivesse traído com Bill Gates e nos sentissemos honrados por ter sido uma portuguesa a conseguir a “feito” de ser a amante do homem mais rico do mundo!

Durão Barroso fez uma coisa muito feia.

PS: se calhar já era altura de os legisladores pensaram na possibilidade de condicionarem as saídas, a seu belo prazer, de políticos dos cargos a que se candidataram. Sejam eles de primeiro ministro ou presidente de camara: se não vai a Maomé a Meca terá que ser Meca a ir a Maomé! Ao fim e ao cabo trata-se da liderança de um povo ou de uma população que não pode estar à mercê dos meros interesses ou disposições pessoais de quem quer que seja. Ser político não é nem deve ser obrigatório mas quem não quer ser lobo não lhe vista a pele...



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terça-feira, junho 22, 2004

Serviço Nacional de Doença

Serviço Nacional de Doença



Dado que o Serviço Nacional de Saúde vem em nossa ajuda, essencialmente, quando estamos doentes seria mais apropriado designá-lo de Serviço Nacional de Doença. E, também, porque, genericamente, não promove a saúde nem evita a doença não prevenindo sistematicamente, como deveria, as causas da doença sejam elas pessoais, sociais ou ambientais.

As listas de espera crescem, os hospitais rebentam pelas costuras, o orçamento de estado para a saúde (ou doença?) dispara e temos, cada vez mais doentes. E o que é verdade para o país, é verdade para sítios como Pico aonde se passou de 3 medicos para 12 para não falar em enfermeiros e, muito menos, em técnicos/administrativos.

O consumismo de actos médicos/medicamentos continua aumentar em flecha ao mesmo tempo que proliferam os “doentes” e diminuem os “sãos” e as pessoas se queixam de falta de acesso ao sistema com os serviços de “urgência” a ficarem entupidos por casos que nada têm a ver com urgência.

Segundo estimativas do Infarmed (organismo oficial) o consumo de medicamentos vai disparar este ano para um recorde de 11% que só foi atingido em 1998 vindo a confirmar o pendor marcadamente curativo do nosso sistema que se limita a tratar - e nem sempre com a devida eficácia - a doença e a investir, muito pouco (para ser simpático), na sua prevenção.

Apesar dos milhões gastos gastos todos os anos nunca há dinheiro suficiente para tratar uma população crescentemente “doente”. O que decorre, em primeira mão, da não existência de um verdadeiro serviço nacional de saúde desenhado para se preocupar com a saúde das pessoas e do próprio planeta e baseado em conceitos holísticos e de integração e cooperação entre os vários departamentos, compartimentos, fragmentos, etc.


A saúde que é, ou deveria ser, o bem de primeira necessidade por excelência, tornou-se num vulgar bem de consumo para vender ou comprar e uma oportunidade de negócio de contornos nem sempre claros ou límpidos. A vulnerabilidade dos doentes torna-os numa presa fácil.

Muitas das nossas doenças são causadas pela nossa civilização. Cancro, obesidade, hipertensão, tromboses, doença coronária e muitas outras são causadas pela poluição dos alimentos, do ar e da água, pelo stress, pela solidão, pela destruição do espirito comunitário, etc.

A nossa saúde pessoal flui do facto que o corpo não está separado da mente: se não estivermos bem psicológicamente ou tivermos carencias afectivas ou sociais não há medicamento que nos valha. Daí que não possamos contar apenas com a medicina curativa, eminentemente técnica, para atingirmos um estado de pleno bem estar físico/psicológico/espiritual e social que é verdadeiro estado de saúde. Saúde não é a mera ausência de saúde.

Do que resulta que velar pela nossa saúde implica muito mais do que a simples prática – ainda que de boa qualidade técnica – de medicina curativa. Implica o ambiente (nossa verdadeira casa), o bem estar social, a segurança. Como a nível pessoal implica alimentação saudável, exercício físico, gratificação nos planos afectivo, social, profissional e espiritual. Como implicará, a nível médico, a integração da medicina científica com as medicinas complementares e os saberes tradicionais.

Jamais o tradicional modelo de Serviço Nacional de Doença!



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domingo, junho 06, 2004

Uma bofetada sem mão

Uma bofetada sem mão



No passado dia 2 um conceituado cientista inglês, o Dr. Malcom Clarke, inaugurou em S. João do Pico uma exposição que designou de “Cachalotes e Lulas”. Em 2 salas interiores, num terraço coberto e num espaço ao ar livre conseguiu montar uma exposição brilhante, quer no plano científico quer no plano estético.

Um evento que estará aberto ao público de segunda a sábado das 9,30 às 17,00 horas, entre Junho e Outubro. Sito na Rua do Porto, quase no ínicio, do lado do mar, para quem vem das Lajes do Pico. Uma visita obrigatória para quem quiser tomar contacto com a realidade dos cachalotes e das lulas.

No exterior, junto ao mar, foi construída uma estrutura estilizada feita em tubo que reproduz as dimensões do maior cacholote apanhado nos Açores e, através da qual, se pode ter uma ideia bem aproximada do tamanho de tal mamífero. Porventura uma ideia bem interessante para ter sido aproveitada para o monumento aos baleeiros e à sua saga!...

Porque os actores principais da baleação, quer se queira ou não, foram os cachalotes pese, embora, a coragem e o espírito de sacrifício dos baleeiros. Razão, também, porque esta exposição é preciosa: vem de uma maneira sucinta, mas de forma extremamente criativa e apelativa, trazer conhecimentos sobre os cetáceos que, apenas quem dedicou uma vida à investigação, pode dar.

O Pico passou a ter, para além do acervo dos baleeiros e da indústria baleeira, um conjunto inestimável de informações sobre a fisiologia, os hábitos, os stocks, etc dos cachalotes e lulas que vêm completar a oferta museológica já existente e, por isso, ajudar a constituir esta ilha como um destino priveligiado para quem estar em contacto com a temática baleeira.

Acontece, porém, que tudo isto ocorreu por iniciativa, exclusivamente, privada do Dr. Malcom Clarke que para tal utilizou a sua casa de habitação tendo custeado, também, todas as despesas de instalação, materiais, concepção, execução,etc.!... Uma obra cultural e científica de indiscutível valor que não conseguiu recolher nenhum tipo de apoio, por mais modesto que fosse!

Após uma iniciativa do Governo Regional destinada a assegurar a adaptação da Fábrica da Baleia das Lajes do Pico a Exposição Permanente do Cachalote que chegou, mesmo, a constar de orçamento da Região tudo parece ter ficado em águas de bacalhau. Não se sabendo se o assunto está ferido de morte ou se ainda existe alguma hipótese de vir a ser concretizado.

Ou seja nós - como comunidade - seja a nível pessoal, associativo, autárquico ou governamental não fomos capazes de, em tempo útil, dar os passos necessários para que a iniciativa não tivesse ficado apenas dependente de uma pessoa que, ainda por cima, se viu obrigado a ser pau para toda a obra. Dando de nós próprios uma imagem lamentável.

Mas ainda bem que há pessoas que, mesmo não sendo daqui, conseguem reunir energias e determinação para fazer aquilo que deveria ter sido uma obra pública emblemática. Uma lição de que, quem de direito, deverá retirar as respectivas ilações.

Uma verdadeira bofetada sem mão!



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domingo, abril 25, 2004

China, Marx e João César das Neves

China, Marx e João César das Neves





Em tempos de grande promiscuidade ideológica em que os capitalismos liberal e neo-liberal parecem constituir, para muitas cabeças bem pensantes da nossa praça, a única saída para o progresso e êxito económico o recente artigo “A desforra de Marx” de João César das Neves foi uma verdadeira pedrada no charco.

Tendo em atenção o perfil ideológico e o percurso daquele economista que foi assessor económico de Cavaco Silva o seu reconhecimento de que a China “é um caso espantoso e formidável de sucesso económico” é, também, um caso espantoso de sinceridade e coragem política.

Sendo a China, como todos reconhecemos, um estado ditatorial com graves défices democráticos não deixou, apesar disso, de conseguir um processo de desenvolvimento extraordinário constituindo mesmo um verdadeiro caso para estudo que ocorreu nos últimos 25 anos.

Após os excessos e desvarios de Mao Zedong (como agora se chama) a China entrou, pela mão de Deng Xiaoping, numa via original que tem, indiscutivelmente, conseguido um enorme sucesso no campo da economia e do desenvolvimento. Assumindo-se claramente marxista, o estado chinês conseguiu destruir o mito que marxismo é igual a fracasso económico.

Para tudo isso terá contribuído o peso cultural milenar dos chineses e o grande pragmatismo e flexibilidade dos seus dirigentes. Mas também comprova exemplarmente, a nosso ver, que as receitas liberais e neo-liberais não são as únicas para os desafios de progresso e estabilidade que procuramos nesta Europa que parece não ter encontrado ainda o passo certo.

Não prescrevendo, obviamente, para a Europa uma inflexão para o marxismo não deixa de ser importante parar e meditar no que acontece na China. Salvaguardadas todas as diferenças, será prudente re-equacionar determinados preconceitos e fundamentalismos que nos continuam a condicionar fortemente.

Porventura João César das Neves sabe bem do que fala quando diz que “não restam dúvidas de que o que se passa hoje na China e na Índia determinará o mundo na nossa geração”. Porque realmente a globalidade que vivemos não se resume apenas à hegemonia americana. Biliões de pessoas vivem outra realidade bem distinta.

Se existe vida depois da morte – coisa em que ele não acreditava – Karl Marx estará, sem dúvida, a esboçar um largo sorriso trocista. Depois de ser o bombo da festa durante tanto tempo nada mais irónico, sobretudo vindo o reconhecimento de onde vem...



P E D R O D A M A S C E N O

terça-feira, março 30, 2004

O Clube dos "A gente não pode fazer nada"

O Clube dos “A gente não pode fazer nada”


Um dos bens de que nos podíamos orgulhar – nos Açores - era a segurança. Bem, álias precioso, para quem pretenda transformar a Região num destino turístico diferente, sobretudo em dias em que a segurança começa a tornar-se num bem de primeira necessidade.

Mas, tudo leva a crer, um bem em extinção, também entre nós. O pequeno crime, os actos de vandalismos, a total indisciplina e insegurança na estrada, o consumo de droga crescem, exponencialmente, nestas ilhas, até há bem pouco tempo, pacatas. Desde Ponta Delgada, aonde começa a ser problemático andar sózinho a certas horas, até às ilhas mais pequenas e rurais.

Tudo isto perante a complacência e a indiferença das forças de segurança acantonadas nas suas “repartições”, progressivamente idênticas a tantas outras aonde se pratica a lei do menor esforço e do ordenado que já está no bolso. E aquilo que ainda é perfeitamente controlável começa a tomar proporções preocupantes.

Doia a quem doer a nossa polícia não aparece, não actua e parece decapitada de qualquer comando que assegure que essa cultura de indiferença e irresponsabilidade tenha fim. Sá assim se percebe que - apesar dos artigos de opinião que surgem, quase diariamente, na nossa imprensa - tudo continue na mesma.

Só assim se percebe que a mesma polícia que, simultaneamente, assume posturas de arrogância e mesmo de má educação se mostre, súbitamente, incapaz de resolver assuntos da maior banalidade refugiando-se, quase sempre, atrás de chavões como “a gente não pode fazer nada”, “não temos meios”, ou ainda “não temos efectivos”.

Das duas uma: ou a PSP passa a a ter meios e efectivos e a poder fazer as coisas ou então, pura e simplesmente, não é precisa. Bastará, apenas, uma repartição para tomar conta das ocorrencias e uns fiscais de papeis e radares nas estradas. O que ficará, para além de tudo, muito mais barato a todos nós.
Um das caracteristicas fundamentais de um estado de direito é, justamente, a segurança de pessoas e bens e o cumprimento da lei. Objectivos só possíveis com a e existência de forças policiais devidamente preparadas para o exercício de funções que implicam empenhamento, sentido de responsabilidade e uma preparação cívica exemplar. Ser polícia não pode continuar a ser, apenas, uma saída profissional para quem não conseguiu melhor.

O País e os Açores precisam de segurança, protecção e muita pedagogia cívica. Não, certamente, de um mero Clube dos “ A gente não pode fazer nada”.

PEDRO DAMASCENO



terça-feira, março 16, 2004

O Crime de Madrid

O Crime de Madrid
(tratar os bois pelo nome)


O nacionalismo basco é absurdo; e o mundo islâmico é uma civilização medieval e falhada.
Pulido Pulido Valente



Quer concordemos ou não com a guerra no Iraque, com o nacionalismo basco, com o fundamentalismo muçulmano ou com o “imperialismo” americano o que se passou em Madrid no passado dia 11 foi “apenas” um crime gravíssimo que nenhum tipo de argumento político poderá branquear trazendo-o para a órbita de qualquer outro contexto que não seja o combate, sem tréguas, ao crime organizado.

E jamais o conceito de estado de direito – como o entendemos na Europa - poderá dar cobertura a atitudes brandas ou de putativo diálogo sob pena de estramos a dar o ouro ao bandido. Sem cair na tentação de enveredar por cowboyadas teremos que exigir dos nossos serviços de informações e investigação um trabalho urgente, profundo e competente. Qualquer coisa nas antípodas do trabalho que fizeram em relação ao Iraque.

Esses serviços, que são públicos e pagos por todos nós, não poderão continuar a prestar-se ao papel caricato de dizerem aos politicos aquilo que eles querem ouvir. Justamente como aconteceu com as armas de destruição maciça. Numa época de tecnologia de ponta e de recursos vultuosos não faz qualquer sentido que os serviços secretos não sejam de um total profissionalismo e eficiência.

A menos que existam razões de “conveniência” política ou de pura incompetência tudo o que aconteceu em Madrid terá que ser esclarecido em dois tempos e os resultados tornados públicos com vista à identificação e punição dos culpados. Porque ninguém, minimamente informado, pode aceitar qualquer outro caminho. Os meios e as tecnologias existem logo terá que haver também uma determinação profunda e incontornável.

E não poderá haver qualquer contemplação na perseguição dos culpados. Embora dentro das regras que se esperam de uma sociedade civilizada não se poderá no ridículo de tratar com paninhos quentes quem não respeita a lei ou os príncipios da convivencia democrática. O crime não pode jamais compensar sobretudo em casos hediondos como este. Que se contractem os melhores profissionais e se lhes proporcionem os maiores meios com outro fim que não sejam os de identificar e prender os culpados e trazê-los à justiça.

Tudo isto num contexto em que não podem entrar em linha de conta os interesses das indústrias das armas ou dos senhores do petróleo. Porque não pode existir liberdade sem segurança e esta não pode estar dependente de grupos de interesses que, a coberto dos ditos estados de direito, fomentam e apoiam em privado aquilo que dizem combater em público.

As sociedade democráticas não se podem refugiar, apenas, atrás de conceitos de aparente benignidade de costumes. Devemos ser os primeiros a limpar a nossa própria casa e a erradicar a violência do nosso seio robustecendo e dando meios adequados à justiça para punir, exemplarmente, aqueles que, entre nós, são coniventes ou se aproveitam de crimes sem perdão.

O crime não começa nem acaba apenas nas entranhas do nacionalismo basco ou do fundamentalismo islâmico.



P E D R O D A M A S C E N O



terça-feira, fevereiro 17, 2004

Bravo Franceses!

“Nas escolas, colégios e liceus públicos, são proibidos os sinais e as vestes manifestam ostensivamente a confissão religiosa dos alunos”
Lei aprovada na Assembleia Francesa


Bravo Franceses!


É facto comprovado que as religiões, à medida que se institucionalizam, perdem a sua pureza original e passam a servir interesses, instalados ou a instalar, que pouco ou nada têm a ver com a sua filosofia original. Primordialmente interesses dos seus agentes, sejam eles políticos ou meramente económicos. Sem excepção.

E é, indiscutivelmente, esse o caso do Islamismo. Religião que persegue, em muitas partes do mundo, o controle político para melhor exercer o seu poder repressivo e castrante. Castrante, mesmo no sentido mais objectivo como é o caso da ablação do clitóris de jovens adolescentes. Religião que defende o papel secundário da mulher para quem concebeu vestes que têm como preocupação central mostrar, no dia a dia, esse ferrete.

Uma religião controlada por homens e para os homens. Uma religião que procura infiltrar todo o aparelho de estado e, se possível, controlá-lo em absoluto e que encontrou a sua expressão mais clara na antiga Pérsia, hoje o Irão dos mulahs. Sem que tudo isto tenha, necessariamente, alguma coisa a ver com os ensinamentos do profeta Maomé.

Sendo certo, também, que as sociedades dominadas, explicita ou implicitamente, pelo Islão não são sociedades abertas, tolerantes e democráticas como as nossas sociedades européias. São sociedades fechadas e autoritárias que procuram incutir nos seus jovens, desde o nascimento, o radicalismo religioso de modo a perpetuar e expandir o reino dos “donos” da palavra de Ala!

Embora este radicalismo não seja, apenas, apanágio dos muçulmanos. Todas as religiões, em maior ou menor grau, tem os seus radicalismos e o seu séqüito de fanáticos. Sejam eles católicos, judeus ou protestantes.

Mas na Europa moderna e laica esses excessos foram devidamente contidos e as escolas públicas vieram a assumir, progressivamente, um papel laico deixando as questões de religião para os agentes religiosos. E, desse modo, dando aos jovens a possibilidade de escolherem, em liberdade, o seu próprio caminho no domínio do espírito e da religião. Único caminho que, a nosso ver, pode conduzir a sociedades tolerantes e abertas.
Situação que começou a conhecer um claro retrocesso com o advento de grande número de emigrantes, sobretudo muçulmanos, que, numa lógica de preservação de identidade social e religiosa, começaram a “invadir” as escolas francesas (e não só) com sinais de ostentação religiosa nomeadamente o tristemente célebre véu – sinal externo do papel menor que atribuem às mulheres.

Naturalmente que sociedades, abertas e democráticas, devem respeitar as diferenças incluindo as religiosas. Da mesma forma que o estado deve assegurar a todos os jovens o mesmo grau de liberdade não permitindo quaisquer lavagens ao cérebro, seja a jovens origem francesa ou de qualquer outra.

Os emigrantes, muçulmanos ou não, quando procuram um outro país fazem-no pelos seus próprios interesses e porque não conseguiram lograr uma vida digna nos seus países de origem. O mínimo que podem, em contrapartida, fazer é saber respeitar o estilo de vida dos países anfitriões sem prejuízo de viverem, dentro de portas, uma vida ao seu jeito.

O papel da escola não deve ser apenas o de transmitir conhecimentos. Tem de ser também o de uma escola de civismo e de liberdade. E jamais poderá ser o palco de manifestações religiosas retrógradas e lesivas de direitos, liberdades e garantias.

Só não vê quem não quer: o espírito da lei francesa não é combater qualquer tipo de símbolo religioso nem combater qualquer convicção religiosa mas apenas aqueles símbolos que ostensivamente pretendem manifestar uma confissão religiosa que, obviamente, não sabe ou não quer respeitar as outras.

Bravo Franceses, pela coragem na defesa da conquista maior da vossa Revolução!


P E D R O D A M A S C E N O

terça-feira, fevereiro 03, 2004

A Tragédia e a Indiferença

A Tragédia e a Indiferença
A Tragédia


Um jovem morre, na flor da vida, de forma súbita e inesperada. Trágica e chocante como todas as mortes inesperadas, e mesmo esperadas, de jovens para quem se espera uma longa vida, eventualmente recheada de êxitos pessoais e profissionais.

Uma jovem vida que desaparece de repente - como tantas outras desaparecem todos os dias - seja na estrada ou no trabalho, no lazer ou na doença. Só que, neste caso, trata-se de um jogador de futebol de um grande clube e o episódio acontece, praticamente, em directo. E, alas, o assunto passa a assumir proporções nacionais com horas inteiras de “prime time” televisivo com todos os ingredientes próprios de uma novela em directo, numa verdadeira catartase nacional.

Se o mesmo jovem, da mesma idade tivesse morrido das mesma causas só que noutro contexto e sem ser jogador de futebol (ainda que relativamente obscuro) não teria sido sequer notícia em telejornal, quanto mais objecto de tal dilúvio mediático. Nem que porventura tal morte tivesse envolvimentos pessoais e familiares bem mais trágicos.

Não seria notícia e não teria os ingredientes necessários para provocar o choro em directo. O país continuaria a sua vida, pacato e sereno. Seria apenas uma morte precoce como tantas acontecem sem que o país disso tomasse conhecimento ou se preocupasse minimamente. Mesmo que uma de uma morte perfeitamente evitável se tratasse - essa sim uma verdadeira tragédia pela sua evitabilidade e pelo seu desperdício.

Para quê tantas lágrimas inúteis e tantos holofotes efémeros gastos quando não somos, crescentemente, capazes de ser solidários uns com os outros a uma escala de vizinhos?


A Indiferença


Um ministro de estado, munido das suas vestes ministeriais, terá evitado numa sala de VIP’S um ex-presidente da Nação por causa de desamores públicos. A tal ponto que terá decidido anular a seu bilhete em avião de carreira e mandar buscar o dispendioso avião Falcon das deslocações oficiais para se furtar a um encontro desagradável.

Sendo ou não verdade a história circulou nos jornais e nunca foi, que se saiba, desmentida. Mas mais importante do que confirmar ou não tão caricata hipótese interessa assinalar a indiferença que gerou. Num país em que se faz o discurso oficial de contenção e se tomam medidas draconianas para conter o putativo defice orçamental ainda é possível que uma história assim não passe de um rodapé!

Mais importante do que fazer um linchamento político importa constatar o comportamento da nossa classe política que torna verosímeis tais episódios e, sobretudo, acentuar a indiferença pública que geram como se de outro fatalismo lusitano se tratasse. Os políticos são mesmo assim, lê-se nas entrelinhas...

Não houve directos na SIC-Notícias, não houve folhetim mediático logo não houve notícia. Mesmo que o erário público tenha sido prejudicado e que andemos, todos nós, a pagar as birras de um ministro.

Pior que as lágrimas inúteis do circo mediático só mesmo a indiferença patológica de um país que “não” existe para além das luzes da ribalta e do politicamente correcto e que prescinde do exercício diário da sua cidadania em troca por brandos costumes que nos corroem a alma e matam a esperança.
PEDRO DAMASCENO


segunda-feira, janeiro 19, 2004

Aventuras e Desventuras do Transito no Pico

Aventuras e Desventuras
do
Transito no Pico



É sobejamente conhecido o perigo que representa circular, hoje em dia, nas estradas do Pico. E se mais acidentes não há, isso deve-se exclusivamente ao baixo tráfego viário que torna a hipótese de acidente menos provável. Porque de resto os ingredientes estão todos lá: manobras perigosas para todos os gostos, álcool, excesso de velocidade, falta de civismo e, em último lugar mas não menos importante, policiamento praticamente inexistente.

Polícia que para além de umas patrulhas (?) de objectivos não identificados e de estacionar nos respectivos postos se especializou na caça à multa e em chatear, com documentos ou questões menores, os condutores. Conseguindo, desse modo, a proeza notável de conseguir não estar presente em “95,5%” das situações em que devia estar!

Mas como se tudo isto não fosse, por si, um fado bem triste está, agora, a consolidar-se a última moda que é colocar um radar num sítio em que se sabe, antecipadamente, que as pessoas circulam a velocidades superiores às autorizadas, tirar a fotografiazita e ... pum ... multar, sem apelo nem agravo, o incauto que por acaso não sabia que nesse dia a polícia estava a fazer uma “operação stop”. Sítios escolhidos a dedo, ou por serem especialmente convidativos à velocidade ou por terem limites ridículos como os malfadados 30 Km que nunca ninguém respeita, nem mesmo os polícias a menos que se saiba que o radar está lá!...

E, assim, fica o “dever cumprido” e os condutores prevaricadores “exemplarmente” punidos. Embora no minuto seguinte volte tudo à mesma e valha tudo mesmo tirar olhos. Como as tais beatas que vão à igreja tomar nosso senhor e bater com a mão no peito enquanto que pensam no próximo mexerico!

Isto num contexto em que se sabe que o excesso de velocidade (mesmo aquele que é mesmo excesso a sério) é apenas um dos componentes do acidente sendo que as manobras perigosas e o álcool no sangue são factores bem mais relevantes. Os acidentes ocorrem, habitualmente, pela associação de um conjunto de causas diversos que urge evitar na sua globalidade, incluindo as questões relacionadas, tão somente, com a fala de civismo.



Naturalmente que não se contesta a necessidade ou mesmo a obrigatoriedade de cumprir a lei. O que se contesta, em absoluto, é que apenas se procure fazer cumprir aquilo que dá menos trabalho à polícia e que, pelo seu pendor administrativo, seja menos difícil de contestar. É, com certeza, muito mais fácil tirar uma fotografia de circulação a 50 Km num local de 30 do que intervir numa situação de uma ultrapassagem perigosa (mais susceptível de gerar discussão e contestação) sendo que esta é muito mais susceptível de gerar acidentes.

Quanto a nós um dos erros mais elementares da política de cobertura policial das ilhas é a colocação em meios, necessariamente pequenos, de agentes naturais dessas ilhas. Situação que apenas potencia um grau de permissividade inadmissível no plano institucional, embora compreensível no plano humano. Não nos parece curial nem prudente colocar os agentes, sobretudo aqueles que iniciam a sua carreira, em dilemas que não podem existir quando se tratar de aplicar e fazer aplicar a lei.

A polícia deve, a nosso ver, ser essencialmente uma força de presença, persuasão e mesmo de pedagogia. Sem esquecer aspectos repressivos e punitivos que têm que existir, a polícia tem um papel imprescindível na segurança dos cidadãos e dos seus bens, de forma activa e empenhada. Não se pode ficar pelos gabinetes e pelas resmas de papeis. Ser polícia não pode ser apenas outra forma de ser funcionário público (com o devido respeito para os ditos funcionários que cumprem os seus deveres!) mas tem de ser uma forma de garantir liberdades, direitos e garantias.

Se há poucos polícias que se contractem mais. Se ganham pouco que se lhes pague mais. Mas que se assegure uma presença forte e pro activa da polícia. O crime é como a droga, atrás do pequeno vem o grande. Que se multe menos e patrulhe mais.

A não ser assim conduzir no Pico continuará a ser uma aventura e, tanta vezes, mesmo uma desventura. Basta olhar apenas para o número crescente de pessoas que perde, desnecessariamente, a vida nas nossas estradas.




Nota do A: o número 95, 5 % é aleatório mas traduz com grande acuidade a realidade


P E D R O D A M A S C E N O

domingo, dezembro 28, 2003

O Aborto no País-Para-Inglês-Ver

O Aborto
no País-Para-Inglês-Ver


É perfeitamente fascinante assistir a alguns debates sobre o aborto que ocorrem neste País-Para-Inglês-Ver aonde as aparências continuam a contar mais do que tudo. Num misto de hipocrisia e de intelectualismo barroco centra-se o debate nas altas questões da biologia e nos conceitos de memória celular. Num país, ainda, fortemente rural e com níveis de escolaridade abaixo da média europeia transforma-se uma questão eminentemente social e de caracter prático no debate último sobre a essência da vida e no seu valor supremo!

Num país aonde, semanalmente, morrem pessoas na estrada integrado num mundo aonde, todos os dias, morrem milhares de seres humanos de fome, de sida e em conseqüência dos mais variados conflitos militares e políticos; numa realidade, à escala mundial, em que a vida humana vale tão pouco; não deixa de ser irónico que percamos horas de intermináveis debates que não passam, em grande parte dos casos, de uma mescla de interesses religioso-institucionais e político-eleitoralistas.

Com ou sem lei despenalizadora, o aborto ou a interrupção voluntária da gravidez (IVG), como se preferir, é em Portugal uma prática extremamente difundida. Situação que transitou do tempo da “antiga senhora” e que mantem acutilante actualidade apesar da proliferação de meios anti-conceptivos e das ditas políticas (?) de planeamento familiar. Medidas que, em 30 anos de democracia, foram insuficientes para resolver o problema.

A questão da legislação sobre a IVG não é, por conseguinte, uma questão religiosa ou moral. É uma questão eminentemente social e política que tem lugar num estado laico e de direito. O Estado Português não pode nem deve deixar que toda esta questão se centre em debates de natureza religiosa ou moral. Portugal não é um estado religioso e não representa nem pode representar orientações de caracter confessional e, muito menos, consagra-las na lei.

O debate religioso e moral cabe, com toda a legitimidade, às várias confissões religiosas e/ou morais com preponderância especial da Igreja Católica que continua a representar, pelo menos teoricamente, um elevado número de portugueses. Mas, como é sabido, a questão da despenalização do aborto não passa por o tornar obrigatório!.. E, certamente, essas instituições/organizações saberão como manter a ordem no seu seio através de todos os debates e/ou campanhas que entendam promover.

O que não é legítimo nem aceitável é essas instituições interfiram, com base em conceitos morais ou confessionais, numa área que é de caracter estritamente jurídico e social já que se trata de decidir sobre uma norma que visa enfrentar, de forma realista e socialmente justa, uma questão maior de saúde pública e de defesa dos mais desprotegidos/vulneráveis. Uma área que embora - reconheça-se - tendo implicações religiosa e/ou morais tem que ser tratada com bom senso e equilíbrio sob pena de se questionar a própria democracia.

Uma área que é, também, do foro íntimo e pessoal. Porque se o problema da IVG fosse apenas uma questão moral então não faria sentido, também, qualquer tipo de excepção como as que já estão consagradas na lei: violação, deformações graves do feto, perigo de vida eminente para a mãe. Hipótese totalmente absurda num estado democrático que visa promover e defender os seus cidadãos. E se é verdade que as situações de excepção que a lei já consagra são casos limites há, contudo, um interminável conjunto de situações intermédias de índole pessoal e social que ninguém pode, antecipadamente, julgar.

Há, pois, que investir a sério no planeamento familiar e no acesso, universal e gratuito, aos métodos anticoncepcionais bem como nas áreas educacionais susceptíveis de elevar o nosso nível cívico e o nosso sentido de responsabilidade no contexto de uma sensibilização e informação na área sexual e dos comportamentos de risco.

Quer queiramos quer não, o nosso país continua a manter défices sociais, culturais e, mesmo, de iletracia muito elevados. Somos um país em que as classes mais desprotegidas têm um peso muito significativo e em que as desigualdades sociais são, ainda, muito marcadas. Situação que, por si só, implica evidentes défices democráticos que só poderão ser supridos mediante o investimento sistemático e profundo na educação, quer seja nas escolas quer seja fora delas.

Está totalmente provado que a penalização do aborto não tem efeitos visíveis no controle da sua prática tendo, antes, efeitos indiscutíveis a nível da penalização da saúde das portuguesas em conseqüência de uma florescente actividade ilegal e incompetente de abortamentos. Único grupo que lucra, objectivamente, com a presente situação.

E verdadeira democracia é aquela que diagnostica os seus défices e os procura corrigir e não aquela que os procura ocultar. E o combate ao aborto, prática perfeitamente evitável com os meios técnicos que dispomos, faz-se no plano do combate à exclusão social, à iletracia e ao desnorte cívico e de valores da nossa juventude. Não se faz punindo quem não encontra outra alternativa/saída.

Há, portanto, que legislar com bom senso e equilíbrio tendo em linha de conta os valores da vida humana mas em toda a sua plenitude e não apenas no sentido mais restrito. Há que pensar em tudo: no direito à vida mas também na sua qualidade e viabilidade pondo de lado chavões de qualquer tipo. Como, de resto, acontece no espaço europeu aonde nos integramos.

Temos, em definitivo, que deixar de ser apenas o País-Para-Inglês-Ver.



P E D R O D A M A S C E N O

quinta-feira, outubro 23, 2003

Os noticiários do nosso descontentamento

Os noticiários do nosso descontentamento
ou os arautos da desgraça


Quase (inversamente) proporcional ao avanço das tecnologias multimédias e de telecomunicações decresce a nossa vontade de ver noticiários televisivos, quer das privadas quer das públicas. Ou porque são chatos (entrevistas intermináveis sobre assuntos desprovidos de interesse com pessoas que nem falar sabem) ou porque se limitam a dois ou três temas da moda (Médio Oriente, Iraque, Casa Pia) que repetem até à exaustão como este mundo multifacetado e, tantas vezes, fascinante não passasse disso.

Os noticiários que deveriam ser uma oportunidade de oiro para trazer junto do grande público um sentido positivo da vida e do que de relevante acontece em termos do nosso progresso a todos os níveis, não passam – na generalidade – de palco de disputa de audiências e, o mesmo é dizer, de procura de sensacionalismo que passa por escândalos, política barata, violência e mesmo por pura ordinarice.

Se não andássemos por este mundo de olhos abertos (quem anda!) seríamos tentados a pensar que o Juízo Final se aproxima a passos de gigante porque pouco ou nada de puro, positivo ou, simplesmente, interessante acontece. E assim, a nossa percepção colectiva vai sendo inquinada de um pessimismo/derrotismo que vai minando a nossa vontade de participar na vida comunitária remetendo-nos para um individualismo feroz, tantas vezes, perto de verdadeiro autismo.

É importante que haja rigor e verdade na informação e que não se escamoteiem matérias que, embora deprimentes e dolorosas, devem ser conhecidas das pessoas porque este mundo não é um mar de rosas e é importante que haja consciência colectiva dos atropelos, injustiças e crimes que se cometem neste planeta. Mas não faz sentido que, simultaneamente, não se faça, sistematicamente, eco das coisas extremamente positivas que podem ser exemplos importantes para sociedades que, em crise aberta de valores, procuram um caminho.

Sobretudo não se entende que as próprias televisões públicas, que deveriam ter um papel pedagógico inestimável, caiam precisamente no mesmo rol de desgraças e se prestem a um papel que em nada dignifica um serviço que deveria estar do lado de uma apresentação equilibrada do que acontece no país e no mundo sem receio de conquista de audiências a qualquer preço. Não se tratar de tentar infantilizar as pessoas através de lupas cor de rosa mas tão somente de fazer o trabalho de casa, em condições, de modo a poder apresentar diariamente aos cidadãos deste país informação digerida e global que represente aquilo que, efectivamente, acontece cá e no mundo.

Suspeito bem que é mais fácil e barato apresentar os “enlatados” noticiosos que estão na moda do que fazer o trabalho de pesquiza e de campo que uma informação verdadeiramente consistente e rigorosa exige. Vamos todos para aqui e para ali, aos bandos de câmaras e repórteres, e deixemos de mão aquilo que é considerado pouco ou nada mediático (?) embora possa ser da maior importância e qualidade. Não há escândalo, não há crime, não há sexo, não há violência, então que chatisse! Já viram a chatisse que os noticiários seriam se não houvesse a Casa Pia, o Carlos Cruz e o Paulo Pedroso? E que seria de nós que assim não poderíamos armar em juízes e dar “doutas” sentenças à mesa do café?

A chatisse que seria se tivéssemos que falar da poluição, do ambiente, da falta de valores e referencias que, cada vez mais, se fazem sentir na nossa sociedade?! A sensaboria que seria se tivéssemos reflectir sobre as perpectivas do nosso desenvolvimento e da necessidade imperiosa de mais educação e formação para podermos enfrentar os desafios do alargamento da Europa aos países de leste ou então que tivéssemos que começar a pagar impostos para assegurar as receitas indispensáveis ao investimento público que falta por todo lado?!

E a desgraça que não seria se nos tirassem as horas e horas de intermináveis de debates sobre o futebol? Iríamos falar de quê? O que poderia substituir aquelas imagens que nos permitem chamar cego e burro, entre outros mimos, aos árbitros que não viu aquilo que todos nós vimos? É bem verdade que vida não pode ser só de coisas sérias ou “intelectuais” mas não pode também ser também apenas futebol, fado e circo.

Os nossos noticiários (sobretudos os públicos) deveriam ser, por excelência, momentos de informação, reflexão e formação. Oportunidades de trazer à colação temas e assuntos que apenas uma câmara de televisão e jornalistas competentes e com talento podem fazer. Sobretudo num país em que as assimetrias sociais e culturais ainda são tão vincadas.

É bem pena que se limitem a ser apenas os arautos da nossa desgraça e do nosso descontentamento





P E D R O D A M A S C E N O

segunda-feira, setembro 22, 2003

Consumir até onde?

Consumir até onde?



Uma vez satisfeitas as necessidade básicas, dinheiro não tem nada a ver com felicidade
Oliver James



Saudando todas as manifestações de progresso económico – enquanto formas saudáveis e sustentáveis de assegurar o progresso social e cultural – parece ser da maior importância reflectir um pouco sobre a “fome” de consumo que começou, visIvelmente, a tomar conta das nossa vidas de ilhéus.

A chegada à nossas terras da cultura do excesso que nos está a atirar, também, para um espiral interminável de compras deve suscitar algumas perguntas quase ingénuas. Quantos pares de sapatos e trapos precisa, realmente, uma pessoa? Quantos carros? Quantas televisões? Perguntas, talvez ingénuas, mas que ninguém se atreve a perguntar numa cultura que estimula o consumo desenfreado e a satisfação imediata dos desejos individuais, por mais disparatados ou fúteis que possam ser.

Atitudes e práticas comunitárias, partilha, sentido de poupança e reciclagem são conceitos que não aumentam a procura de bens de consumo nem tão pouco estimulam o designado “crescimento económico”. Pelo que preferimos ignorar os sinais de aviso – aumento da violência, das depressões, dos suicídios, dos comprtamentos compulsivos – que nos chegam dos “paraísos” de consumo. Ficando-nos por questões bem mais comezinhas como assegurar uma televisão em cada quarto de cada criancinha ou comprar mais um electrodoméstico desnecessário.

O que leva à aparente contradição que afecta, crescentemente as nossas sociedades ocidentais: uma probreza espiritual aguda no meio de prosperidade material inaudita. Enquanto que a nossa qualidade de vida se degrada em virtude de um insaciável apetite por bens materiais, bem aguçado pela publicidade que nos assalta por todo lado (agora até nas casa de banho?) e nos cria novas insatisfações que nos levam a comprar mais.

Levando a situações caricatas como a da existência de um programa de televisão inglês que se propõe ajudar os espectadores a desembaraçarem-se das coisas desnecessárias acumuladas em casa! Obviamente escamoteando a questão de fundo: não comprar desmedidamente coisas desnecessárias apenas por causa dum anúncio ou de manter a paridade com o vizinho do lado! Daí que a aquisição demesurada de bens materiais não faz parte da solução que vise assegurar o crescimento económico, sustentável e socialmente, justo mas sim parte do problema.

Levando a que um dos grandes dilemas da “prosperidade” seja o que de que quanto mais tens mais queres não tendo sido possível encontrar consenso, mesmo em países bem mais ricos que o nosso, para encontrar patamares de conforto e bem estar e que, simultaneamente, satisfaçam as pessoas e permitam parar com a exploração desenfreada do planeta – nossa única e verdadeira casa. Mas que, pelo contrário, que o “virus” do consumismo do nosso estilo de vida ocidental se esteja e espalhar pelo mundo a ponto do presidente chinês ter apontado como meta para 2020 quadriplicar o PIB da China, obviamente através do aumento do consumo dos cidadãos!

Talvez que uma das vacinas possíveis para esse virús seja alimentar a nossa espiritualidade e, por aí, redefinir os nossos conceitos de qualidade de vida, medindo a prosperidade não apenas pelo crescimento contínuo do PIB mas por outros parametros nada menos importantes: ar e água puros, boa saúde, biodiversidade assegurada, paz e tranquilidade, etc, etc. Pelo que seria importante retomar velhos hábitos que, na nossa terra, ainda não estão tão distantes: deixar de nos preocuparmos tanto com o que não temos para nos preocuparmos mais com o que podemos partilhar.

Deixando no ar não a pergunta sacramental de quanto temos e até onde podemos consumir mas aquela que é, efectivamente, crucial: até onde vão o planeta e as comunidades que nele vivem aguentar?

P E D R O D A M A S C E N O

Para uma Secretaria Regional do Ambiente e turismo



Para uma Secretaria Regional do Ambiente e Turismo
Passar das palavras aos actos


A cerca de um ano de eleições legislativas regionais começa a ser necessário “aquecer os motores” e, o mesmo é dizer, que novas propostas políticas surjam e que os partidos que as vão disputar se mostrem inovadores. Para além das pessoas que teremos que escolher para nos governar há que optar pelas políticas e objectivos estratégicos que melhor sirvam os interesses do nosso desenvolvimento integral.

E falar em desenvolvimento integral (económico, social e cultural) no Açores é quase sinónimo de falar em Ambiente e Turismo. Ambiente porque é o nosso grande património, a nossa verdadeira galinha de ovos de ouro e Turismo porque é o sector que poderá ser a chave do nosso crescimento económico sustentável.

Depois dos ciclos da laranja e da vaca (com os impactos florestais e hídricos negativos que se conhecem) o caminho para a Região é o turismo que deverá ser o motor da economia bem como o grande defensor do ambiente e dos nossos recursos naturais. Porque turismo pode e deve ser uma actividade catalisadora de um ordenamento cuidado e de intervenções que venham melhorar inúmeras zonas abandonadas e/ou descuidadas que existem por todos os Açores.

O discurso do ambiente e da defesa da natureza tem de passar das palavras aos actos. A criação da Secretaria Regional do Ambiente foi, sem dúvida, um passo importante, mas não suficiente. Não suficiente pela falta de meios e por não pesar ainda, como devia, na vida económica da Região. O Ambiente já faz parte do discurso politicamente correcto mas continua a ser um sector marginal em vez de ser, como devia, uma área perfeitamente central na vida económica dos Açores.

O grande potencial da Região é, indiscutivelmente, a qualidade do nossa natureza (infelizmente já com “feridas” lamentáveis aqui e ali). Nisso toda a gente parece estar de acordo. E é, precisamente, essa a grande mais valia que nos poderá pôr no mapa do turismo europeu e americano (mercado, a nosso ver, com grandes potencialidades). O que implica uma política ambiental e de ordenamento extremamente rigorosa para além de conceitos hoteleiros e turísticos virados para o turismo de natureza e de usufruto do mar.


Por outro lado, o turismo não é, necessariamente, uma sentença de morte para o ambiente e qualidade de vida. Se é certo que em muitos casos o foi – veja-se o exemplo paradigmático do Algarve que em pouco mais de 30 anos rebentou pelas costuras – em muitos outros (por exemplo a Patagônia, a Bolívia e Lanzarote ) foi a maneira de financiar um melhor ordenamento e dar vocação financeira a zonas que, à partida, se apresentavam problemáticas em termos de desenvolvimento.

Mas é sabido que a natureza e o ambiente não são actividades que sejam, por si só, rentáveis. Daqui que caiba um papel fundamental ao Estado que terá que dispor de recursos financeiros apreciáveis para esse fim. Preservar e ordenar o ambiente tem custos elevados. E para que isso não passe de uma utopia é indispensável perceber que aquelas áreas podem gerar receitas muito significativas a jusante. Como é o caso do turismo que dependerá para o seu pleno sucesso, cada vez mais, do ambiente e dos recursos naturais. Relação e dependência que, a nosso ver, implica um casamento perfeito!

Embora tratando-se de um sector económico que, teoricamente, deveria estar no âmbito de uma secretaria da economia, o turismo tem, e cada vez terá mais, uma importância que lhe confere a necessidade de ter uma grande autonomia e de estar organicamente ligado ao ambiente. Não deve continuar a ser apenas mais uma área debaixo do grande guarda chuva da economia.

Há anos o PSD encetou uma relação entre turismo e ambiente tendo criado a Secretaria Regional do Turismo e Ambiente. Embora tendo percebido a relação natural entre os dois sectores subalternizou o ambiente ao turismo dando àquele um caracter subsidiário e de segunda linha. Mas entendeu, contudo, essa ligação atribuindo ao sector do turismo uma importância de grande relevância. Faltou-lhe perceber que ao leme devia estar o Ambiente.

Constatações que, a nosso ver, fundamentam a necessidade imperiosa da criação da Secretaria Regional do Ambiente e Turismo.

Criação que irá unir, institucionalmente, dois sectores que estão efectivamente ligados por uma espécie de cordão umbilical, mas dando ao Ambiente a relevância que ele terá que ter de modo a poder assegurar uma política de turismo de sucesso. A inclusão do Turismo no Ambiente irá trazer a este uma importância decisiva no plano económico e àquele uma sensibilidade e um rigor decisivos para a sua sustentabilidade. Embora podendo parecer uma união heterodoxa trata-se de uma simbiose eventualmente perfeita embora, talvez, não politicamente correcta.

Sendo mais caros em termos de acesso que os nossos concorrentes directos (Madeira e Canárias), não oferecendo uma hotelaria e uma organização turística com os mesmos níveis de profissionalismo, não sendo um destino de sol e praia teremos necessariamente, que oferecer alguma mais valia que nos diferencie e justifique os preços mais elevados. Mais valia e diferença que, apenas, poderão ser encontrados na qualidade superior do nosso ambiente e dos recursos naturais. E esses patamares de qualidade, único passaporte válido para um futuro promissor, só poderão ser atingidos com uma política de plena integração entre ambiente e turismo. Resposta que, apenas, a nova secretaria poderá assegurar. Assim não sendo será o continuar doloroso da política das capelinhas, com sectores fundamentais de costas, uns para os outros.

Secretaria que deverá ter como responsável alguém com o indispensável peso político para poder impor medidas eminentemente transversais que afectarão toda a actividade governativa e que consiga fazer a síntese entre a consistência ideológica e de convicções de que o Ambiente necessita e o sentido pragmático e criativo que o Turismo impõe. Secretaria que consiga tirar os Açores da cauda do investimento no Ambiente a nível nacional, como aconteceu na última década!... Se assim não for arriscamo-nos a ter um Ambiente olhado de soslaio por quem quer, apenas, o lucro fácil e rápido e um Turismo contestado por quem luta por um desenvolvimento sustentável e pela qualidade de vida.

Tudo isto numa perspectiva, moderna e inovadora, que responda aos desafios e necessidade de um mundo incerto e inseguro que procura, cada vez mais, a paz e a tranquilidade aonde ainda são possíveis. Um verdadeiro desafio para os partidos que irão disputar as próximas eleições e para os políticos que aspiram dirigir os nossos destinos.

P E D R O D A M A S C E N O

terça-feira, agosto 26, 2003

Tempos de come-come e bebe-bebe



Tempos de come-come e bebe-bebe



Nestes tempos de “come-come e bebe-bebe” em que se perde, cada vez mais, a noção de refeição é oportuno reflectir um pouco sobre essa actividade imemorial que é o comer e beber.

Comer e beber são, antes de tudo, necessidades fundamentais da vida. Tão fundamentais que no advento do homem geravam, mesmo, a sua actividade principal. Os nossos antepassados mais longínquos passavam, possivelmente, a maior parte do seu tempo à procura dos imprescindíveis alimentos.

De lá até hoje - sociedade de consumo – passamos por muitas fases: pela fome pura e simples, pela escassez, pelos ciclos das estações e, sobretudo, pela alimentação remediada, fruto de muita criatividade e improvisação.

Até chegarmos a hoje, a sociedade da super abundância sem ciclos, com as “alternativas permanentemente oferecidas”!. As novidades próprias das diferentes estações desapareceram, havendo sempre de tudo, todo o ano.

Os produtos caseiros, rústicos, desiguais são, obsessivamente substituídos pela norma, pela estandardização, pela embalagem estanque, pela assepsia. Exige-se “pureza”, certificado de origem, rótulo, etc. Pede-se pão branco, arroz branco e açúcar branco – perde-se a broa, o pão caseiro, o arroz com cascas e impurezas à mistura mas mais perto da realidade.

Solitário, stressado e inseguro o homem moderno devora e não come. Consome produtos alimentares inventados para lhe captarem o apetite desmesurado que surge como válvula compensadora das suas frustrações diárias.

Como disse um médico ilustre “o come-come e o bebe-bebe triunfam enquanto morre a refeição”!

O prazer da comunhão à mesa, saboreando refeições confeccionadas com autenticidade e cuidado são substituídas por actos solitários de devorar “hamburgers”, pizzas, batatas pré-fritas, croissants etc., possivelmente acompanhados com música de furar os tímpanos. Comer, condição indispensável de vida, transforma-se, assim, em comer como factor de risco de vida com a obesidade a crescer em flecha. Enterrou-se a “slow food” (comida lenta) e deu-se lugar à “fast food”Comida rápida).

A obesidade já atingiu, “graças” aos seus estonteantes números, o estatuto de doença de direito próprio e causa de morte. Em Portugal cerca de 50% da população é obesa. Os mais jovens e os mais velhos, são cada vez mais gordos mais cedo. Ao contrário do que seria de esperar a abundância gera pobreza: come-se mais e pior. A falta de tempo da vida moderna e as modas levam a que, progressivamente, se cozinhe menos em casa dependendo das refeições pré-cozinhadas e dos anúncios da TV que nos dizem, a toda hora do dia e da noite, o que devemos comer.

Corrida inevitável para a doença e para uma morte precoce que nós açorianos – porque ainda estamos a tempo – poderemos evitar, retomando os nossos hábitos ainda bem próximos da refeição comungada e caseira, geradora de saúde e bem estar. Havendo para isso que tirar tempo para cozinhar e para comer, retomado tantas práticas que perdemos quando nos deparamos com as ofertas estonteantes dos super e hipermercados que nos modelam os nossos próprios desejos a uma lógica de mercado.

Que vivam as nossas “velhas” refeições em torno de uma mesa de família confeccionadas com produtos da terra, menos lindos, mas certamente muito mais nutritivos e autênticos. Refeições que integrem os conhecimentos e “segredos” passados de geração em geração, de avó para neta. Evitando a obsessão de comer e voltando à alegria das tradicionais e simples refeições mediterrânicas regadas, moderadamente, por autêntico vinho de uvas.

Hábitos que a ciência, agora, se não cansa de elogiar. Afinal antigamente não se comia assim tão mal em Portugal.

Tudo isto à mistura com o culto da magreza excessiva que, tantas vezes, mais não é que uma reacção neurótica às disfunções sociais e humanas de que, progressivamente, padecem as nossas sociedades ocidentais da superabundância. O que leva – suprema ironia - que à medida que as pessoas se tornam mais gordas por força de uma indústria alimentar mediática e super poderosa, gerem sentimentos de culpa que, quase sempre, conduzem a novos excessos alimentares!

Estamos, indubitavelmente, em tempos de come-come e bebe-bebe e não há festa, entre nós, que seja festa se não tiver comes e bebes.




P E D R O D A M A S C E N O

terça-feira, agosto 12, 2003

A lição dos incêndios em Portugal

A lição dos incêndios em Portugal


A tragédia que tem varrido o país – para além de devastadores prejuízos pessoais e materiais - não poderá passar sem uma reflexão minimamente profunda. A não ser assim correremos o risco de deixar a porta aberta para todos os outros desastres naturais que poderão seguir-se (inundações, ventos ciclónicos, derrames de crude, etc.) nos venham, também, fustigar impiedosamente.

E a primeira lição é, sem dúvida, a confirmação das alterações climatéricas que estão a ocorrer no globo e para cuja possibilidade temos sido sobejamente alertados. Os incêndios de Portugal são uma das facetas do que está a passar a nível global: desde a seca profunda da Europa Central até a temperatura de Londres a ultrapassar a do Cairo! Pretender que desvios tão profundos do padrão habitual como os presentes são mera coincidência ou ocorrência cíclica será de uma temeridade e insensibilidade inaceitáveis.

Até ao eventual aparecimento de provas científicas inabaláveis em contrário, a presente situação só deve ser entendida como mais um seriíssimo aviso de que estamos a assistir, em tempo real, a uma degradação grave do ambiente como conseqüência da exploração desenfreada dos nossos recursos naturais e um aumento exponencial da poluição atmosférica. Só assim estaremos em condições de procurar e encontrar soluções alternativas.

Nunca é de mais recordar a cimeira do Rio de Janeiro que lançou as bases para o acordo de Quioto (sintomaticamente não subscrito pela Administração Bush – sendo que os USA são, como toda a gente sabe, os maiores poluidores a nível mundial) que visava, precisamente, reduzir a emissão de gases para atmosfera. E como a generalidade das pessoas só se lembra de Santa Bárbara quando troveja, não consegue estabelecer uma relação causa-efeito entre o seu consumo destemperado e as suas conseqüências inevitáveis como a degradação galopante do ambiente e da qualidade de vida que trazem consigo o desequilíbrio e a doença.

E o que se tem passado no nosso país tem como primeira causa esse fenômeno global que tem atingido milhões de pessoas. Nós somos apenas mais um dos pico desse imenso icebergue, que à semelhança do Titanic, teimamos em fingir não ver. A causa maior tem sido, de facto, a onda de calor que varre o país mas, pergunta-se, porque razão ultrapassamos, nalguns dias, as temperaturas do Médio Oriente?

E depois é que vêm as grandes mazelas de Portugal: a falta de meios e organização, a falta de planeamento, o improviso, a falta de iniciativa do estado, etc, etc. Mazelas que temos que assumir colectivamente e que vêm de muito longe não procurando bodes expiatórios para, mais uma vez, tentar a esconder a nossa realidade de parente afastado da comunidade européia.

Ser da Europa não é, ou pelo menos não devia ser, exibir apenas um passaporte da comunidade.

Por entre os bombeiros exaustos e os populares que combatem, denodadamente e sem descanso, as chamas pode ver-se, nitidamente, um país que arde não apenas pelo fogo que o consome as nossas florestas mas pelo fogo que consome a nossa vida colectiva deixando-nos quase indefesos perante fenômenos naturais que temos obrigação de prever e prevenir. Não baste apenas dizer que estão acionados todos os meios disponíveis e ... bom, que seja o que Deus quiser.

É, também, preciso ver e perceber e ver as nossas debilidades e a nossa falta de sentido de segurança real. Muito mais importante que Forças Armadas (FA) para combater guerras serão FA capazes de actuar com eficácia e rapidez em cenários de catástrofes naturais complementando os meios civis disponíveis. As nossas FA terão ter logística e capacidade para assegurar a nossa real segurança e dos nosso bens e não apenas para hipotéticos conflitos armados. Não se pretende que o país se desarme mas apenas que assuma as nossas reais prioridades.

E da parte de qualquer de nós, individualmente, terá que haver a noção que são os pequenos gestos do dia a dia que mais contam: o papel e outros materiais inflamáveis que se deitam fora em qualquer lugar, o cigarro mal apagado que se atira pela janela do carro, a utilização de fontes de calor (fogueiras, fogões, etc) no exterior, a falta de limpeza das florestas e espaços públicos, etc. Não basta apenas chorar em frente da TV por causa de imagens angustiantes nem depositar uma nota, para pacificar consciência, em qualquer das contas abertas para sinistrados.

Não podemos continuar a ser um país de caridadesinhas. Hoje foi ele amanhã posso ser eu. Há que assumir, colectivamente,as responsabilidades e participar activamente na nossa vida cívica e política de modo a que possamos atingir patamares de segurança aceitáveis. Vamos pagar impostos mas vamos exigir do estado as contrapartidas adequadas para assegurar a nossa segurança, seja na estrada seja perante uma calamidade natural.

Temos que acabar com o Xico Esperto que não paga impostos par dar lugar ao cidadão que cumpre as suas obrigações fiscais (dando de barato que terão de ser equilibradas e socialmente justas) mas que depois estará em condições de exigir, com firmeza, um estado responsável, eficiente e solidário.

P E D R O D A M A S C E N O

terça-feira, julho 15, 2003

E S T Ó R I A S D E T U R I S M O


I

Aeroporto de Lisboa – Ano da Graça de 2003 – principal porta de entrada de turistas em Portugal com os carros de bagagem, impecavelmente alinhados em fila indiana. À frente da cada fila, um reluzente caça níqueis, ou melhor caça euros, única via para conseguir um desses inestimáveis poupadores das nossas colunas. Pouco ou nada interessando se proveniente de Singapura ou de Katmandou ou se, pura e simplesmente, exausto. Ou o euro ou nada e malas às costas que se faz tarde!
Apesar das taxas de aeroporto e das proverbiais faltas de conforto com que os passageiros que permaneçam no aeroporto de Lisboa, por algum tempo, têm de se confrontar ainda havia mais um empecilho a criar! Porque não se tratar de pagar mais um euro ou menos um euro. Trata-se, simplesmente, de uma intolerável exigência pelos incômodos que causa: ter ou não ter euros trocados, ter ou não essa moeda, etc, etc. Imagine-se a confusão que tal iria criar em aeroportos super movimentados como o de Heathrow em Londres.
Se a as taxas não chegam para prestar esse serviço aos passageiros que se subam as ditas ou, então, que se recorra à instituição nacional que é o subsídio. Ao fim e ao cabo serve para tanta coisa. Mas que se libertem os carros dos seus reluzentes carris e que se devolva a quem chega o usufruto de um bem indispensável e que, ao fim e ao cabo, poderá ser a chave para uma boa primeira impressão para quem chega a um país que pretende aumentar a sua quota do turismo mundial de qualidade.

II

Que pensar de listas de espera na TAP para fazer uma simples viagem Londres-Lisboa-Londres que se arrastam por meses? Mais concretamente, reservas em feitas em fins de Abril que até esta data não foi possível, ainda, confirmar e que se destinam a uma viagem para os fins de Julho! Será possível nos tempos rápidos que correm planear umas férias com mais de dois meses e meio de antecedência?
É dos livros – toda a gente sabe – que o segundo passo depois de atrair a atenção de um potencial cliente é manter esse interesse e transforma-lo numa opção de compra. Como será possível manter o interesse de um potencial visitante dos Açores se, depois de todo este tempo, ainda não sabe se vai poder fazer a viagem?! É liminarmente impossível a menos que exista um interesse muito específico e forte. O cliente irá, de outro modo, desistir e escolher outro destino.
Sabendo que esta época é a nossa oportunidade de ouro de fazer negócios e tendo em conta o ano de recessão que se vive no sector é escandaloso que existam situações destas. Afinal de contas não existem turistas ou será que é tão difícil cá chegar que metade desiste pelo caminho? São estas “pequenas” coisas que podem fazer um destino ou destruí-lo. Sobretudo quando nos vemos a braços com concorrências implacáveis que não brincam em serviço e que sabem quanto custa, a prazo, defraudar potenciais clientes/visitantes.

III

Bem, mas imaginemos que tudo correu bem, que os visitantes acabaram por conseguir confirmar as reservas, mantiveram o interesse na viagem e que cá chegaram, sãos e salvos. Para, finalmente, usufruírem das nossas belezas naturais e tranquilidade, principais razões da sua visita.
E eis que eles aí vão à conquista da ilha, no seu carro sem condutor e entregues a si mesmo, depois de não terem conseguido adquirir um mapa, minimamente detalhado e preciso. Tendo que confiar num pequeno mapa desactualizado, parco em detalhes e numa escala de consulta difícil.
Apenas, para em breve, descobrirem que a sinaléctica ou não existe ou é extremamente confusa para quem não conhece bem a ilha. Que apesar do Pico aspirar a um lugar ao sol no turismo açoriano ainda não houve engenho, arte e, possivelmente, vontade para o dotar de um conjunto de sinais inteligíveis, visíveis e, já agora, em mais de uma língua. Sobretudo no interior/planalto da ilha. Terá que ser tudo por tentativa e erro com a ajuda de alguns passantes de boa vontade.
E também para descobrirem que o que nos vale a todos nós é que o trânsito viário é escasso. Porque se não fosse teríamos que enfrentar a morte a cada curva ou a cada cruzamento. Isso de prioridades, condução sensata, respeito pelo código da estrada é letra morta. Polícia existe mas, invariavelmente, aonde não é preciso. Por isso se estaciona em qualquer lugar, incluindo curvas ou lombas, ou se fazem manobras perigosas a torto e a direito na maior impunidade.

Estórias do dia a dia do nosso turismo que teima em não acertar o passo com as incontornáveis necessidades de qualidade e eficiência para um mercado, crescentemente, exigente.




P E D R O D A M A S C E N O

domingo, junho 01, 2003

Chegaram ao Pico os Patos Bravos?

Chegaram ao Pico os Patos Bravos ?


Desde há algum tempo, têm surgido notícias sobre súbitas e avultadas intenções de investimento no turismo, sobretudo no concelho das Lajes do Pico.

Quase de surpresa a nossa pacata urbe é surpreendida por “esmolas” de vultuosas centenas de novos quartos em grandes unidades hoteleiras convencionais. Como por mágica o nosso desenvolvimento, em banho maria, é, de súbito, atordoado por uma chuva literal de projectos de grandes dimensões que, por junto, ultrapassam os quartos, presentemente, existentes na ilha!

Coisa que, para algumas cabeças excessivamente optimistas, tem a ver como o novo aeroporto. Como se o novo aeroporto, cuja importância fundamental não se contesta de todo em todo, fosse uma varinha mágica. Bem que o Faial o possui há tantos anos e que, por si só, não foi capaz proporcionar o salto qualitativo no turismo daquela ilha.

Mas que para outras, porventura mais avisadas, pode querer dizer que o Pico se tornou num alvo apetecível de quem se quer colocar numa boa posição na grelha de partida da possível explosão turística do Pico para apanhar, ainda, o comboio dos subsídios e das benesses autárquicas. Sem outras preocupações e, muito menos, de desenvolvimento sustentável.

Desenvolvimento sustentável que implica, necessariamente, equilíbrio entre os benefícios económicos e os custos ambientais e socioculturais. E que, por outro lado, assegure o aumento da qualidade de vida das populações residentes e os efeitos multiplicadores do turismo. Ou seja as antípodas dos Algarves, das Madeiras e dos Benidormes.

A riqueza do Pico consiste na associação da sua esplendorosa natureza com uma ruralidade cativante. Não somos, e ainda bem, um destino de sol e praia. Somos um diamante em bruto que terá de burilado com todo o cuidado e perícia. Teremos que ser um destino de pequenas coisas, bem pensadas e bem feitas. O nosso mercado terá de ser o dos conhecedores dos pequenos sítios simpáticos que ainda, poucos, existem por esse mundo fora.

O nosso crescimento turístico terá que ser lento e progressivo para ganhar sustentabilidade. Jamais fruto da gula desenfreada de quem apenas pensa nos ganhos, a curto prazo e a qualquer preço.

Não devemos ser velhos-do- restelo mas, ainda menos, parvos.

Chegaram ao Pico os patos bravos?


P E D R O D A M A S C E N O

quinta-feira, dezembro 26, 2002

Crónica sobre o bem comer

CRÓNICA SOBRE O BEM COMER


Nestes tempos de “come-come e bebe-bebe” em que se perde, cada vez mais, a noção de refeição é estimulante reflectir um pouco sobre essa actividade imemorial que é o comer e beber.

Comer e beber são, antes de tudo, necessidades fundamentais da vida. Tão fundamentais que no advento do homem eram, mesmo, actividade principal. Os nossos antepassados mais longínquos passavam, possivelmente, a maior parte do seu tempo à procura dos imprescindíveis alimentos.

De lá até hoje - sociedade de consumo – passamos por muitas fases: pela fome pura e simples, pela escassez, pelos ciclos das estações e, sobretudo, pela alimentação remediada, fruto de muita criatividade e improvisação.

Até chegarmos a hoje, a sociedade da super abundância sem ciclos, com as “alternativas permanentemente oferecidas!. As novidades próprias das diferentes estações desapareceram, havendo sempre de tudo, todo o ano.

Os produtos caseiros, rústicos, desiguais são, obsessivamente substituídos pela norma, pela estandardização, pela embalagem estanque, pela assepsia. Exige-se “pureza”, certificado de origem, rotulo, etc. Pede-se pão branco, arroz branco e açúcar branco – perde-se a broa, o pão caseiro, o arroz com casacas e impurezas à mistura mas mais perto da realidade.

Solitário, estressado e inseguro o homem moderno devora e não come. Consoem produtos alimentares inventados para lhe captarem o apetite desmesurado e compensador das suas frustrações diárias. Como disse um médico ilustre “o come-come e o bebe-bebe triunfam enquanto morre a refeição”!

O prazer da comunhão à mesa, saboreando refeições confeccionadas com autenticidade e cuidado são substituídas por actos solitários de devorar “hamburgers”, pizzas, batatas pre fritas, croassãs etc possivelmente com música de furar os tímpanos.

Assim comer, como condição indispensável de vida, transforma-se em comer como risco de vida com a obesidade, a diabetes a crescer em flecha. Enterrou-se a “slow food” e deu-se lugar à “fast food”.

Os meus votos para esta, necessariamente breve, crónica é que nós açorianos – porque ainda estamos a tempo – consigamos parar com esta corrida para o sofrimento e a doença e retomemos os nossos hábitos ainda bem próximos da refeição comungada e geradora de saúde e bem estar.
Para isso há que tirar tempo para cozinhar e para comer, retomado tantas práticas que perdemos quando nos deparamos com as ofertas estonteantes dos super e hipermercados que nos modelam os nossos próprios desejos a uma lógica de mercado.

Vivam as nossas “velhas” refeições em torno de uma mesa de família confeccionadas com produtos da terra, menos lindos mas certamente muito mais nutritivos e autenticos.

Abaixo a obsessão de comer e que viva a alegria das tradicionais e simples refeições mediterrânicas regadas moderamente por autentivo vinho de uvas.

Abaixo o culto da magreza que mais não é que uma reacção neurótica às disfunções sociais e humanas de que, cada vez mais, padecem as nossas sociedades ocidentais da superabundância e que vivam os saudáveis de comer com prazer sem esquecer que o que realmente importa é comer para viver e jamais viver para comer.


PEDRO DAMASCENO

sexta-feira, dezembro 15, 1995

A caridade da RTP/A

FACE OCULTA

A CARIDADE DA RTP/A

Não é segredo para ninguém que existem bolsas de pobreza nos Açores e que os fenómenos de maior marginalização social ocorrem em São Miguel. São conhecidas as histórias dos “São-miguéis” que vinham por aí a baixo e que, frequentemente, continuavam marginais nestas ilhas abaixo.

Com regularidade temos ocasião de ver nos telejornais episódicos de faca e alguidar que ocorrem em Rabo de Peixe e outras zonas semelhantes de São Miguel, aonde se constata um nível económico, social e cultural que dificilmente se encontrará no resto da Região. São Miguel que, desde sempre, nos habituou a gritantes contrastes sociais que vêm do tempo de antanho – do Clube Micaelense aos bairros de lata.

E a miséria humana, seja ela porque for (e tantas vezes existe sem razões objectivas), deve merecer a compaixão de todos nós. Porque essa é, sem dúvida, uma das virtudes mais importantes que um ser humano pode ter. E a compaixão – a capacidade de sentir o sofrimento dos outros – é condição prévia e indispensável para que a solidariedade possa existir.

Solidariedade que durante muitos anos, no tempo negro da ditadura, ficou praticamente entregue às instituições de beneficência e de solidariedade social à esmolinha que cada um de nós ia arranjando para tentar suprir, no imediato, faltas gritantes. Durante muitos anis Portugal teve um exército de pedintes – no verdadeiro sentido do termo – que não tinham outra hipótese do que estender a mão à caridade.

Com o virar da página do advento da democracia o país não passou, de repente, a rico mas as oportunidades sociais e de trabalho passaram a ser completamente diferentes e a segurança social – apesar de todas as suas limitações – veio trazer resposta a muitas situações desesperadas.

Depois veio a autonomia, a integração europeia, os incentivos comunitários e, brevemente segundo dizem, virá a moeda única. Portugal e os Açores saíam, finalmente, do getho em que o fascismo os tinha mantido.

Mas – e todos que querem ver sabiam – os problemas de pobreza e exclusão social não tinham sido erradicados nem de Portugal nem dos Açores. Problemas que, hoje, estão relacionados, também, com questões novas como é o caso da droga. Por isso se tem formado todo o tipo de comissões e o próprio ministério mudou de nome para solidariedade social.

Esperámos nós que a região estivesse, também, no caminho da solução para esse tipo de problemas. Solução institucional e tecnicamente enquadrada como é de esperar numa sociedade democrática e solidária.

Quando não é, portanto, o nosso espanto em vésperas deste Natal, vemos a televisão estatal vir pedir esmola pública em nome de um conjunto de imagens, deprimentes com que nos tem brindado todos os dias!

Sem questionar a melhor das intenções dos locutores que fazem os apelos do programa PARTILHA, o assunto é da maior gravidade e não pode de deixar de ficar qualquer cidadão lúcido de boca aberta.

No ano da graça de 1995 vem a RTP-Açores fazer peditório em nome de situações que não podem existir – a menos que haja graves falhas do sistema – numa sociedade moderna e integrada no espaço europeu! Passando de uma cajadada a um atestado de incompetência e incapacidade às autoridades regionais e de parvos aos telespectadores que são supostos começarem em depositarem dinheiro em contas bancárias para suprir – ninguém sabe como – situações que são da responsabilidade do estado que tem obrigação de assegurar a todos os cidadãos condições de vida condignas e igualdade de oportunidades. Para isso pagamos cada vez mais impostos.

Sem contestar a verdade dos casos apresentados e a urgência de uma solução (mas de fundo apenas conjuntural), é inadmissível que a saída encontrada seja fazer um peditório. É uma situação que desprestigia completamente os órgãos de governo próprio da região que não foram capazes, ao longo de 20 anos, de resolver questões sociais tão graves como as que passam no écran e a todos nós que andamos a votar em governos que fizeram monumentos à autonomia que custaram centenas de milhares de contos mas não souberam dar de comer a quem tem fome e dar tecto a quem está desabrigado.

O programa PARTILHA por todas essas razões é uma iniciativa digna de figurar numa televisão estatal de qualquer república das bananas. A obrigação da RTP/Açores, se estivesse a cumprir adequadamente o seu papel, teria sido a de denunciar publicamente essas situações num programa tipo magazine e chamar a atenção para quem de direito promovendo, inclusive, um debate público que viesse esclarecer as razões de situações tão anómalas e lamentáveis.

Ao ter embarcado no apelo ao sentimento das pessoas como o fez (faz lembrar o amputado que mostra a sai mazela para pedir esmola) a RTP/Açores veio conferir a uma questão que é política e de sistema uma dimensão exclusivamente patética.

Justiça e solidariedade social sim, caridade não.


P E D R O  DA M A S C E N O