sexta-feira, maio 25, 2007

T R I A N G U L O - Uma realidade incontornável

São Jorge, Pico e Faial, integram-se no Grupo Central, formando, devido à sua disposição geográfica, “as Ilhas do Triângulo”



T R I Â N G U L O
Uma realidade incontornável


Não perceber a centralidade do Triângulo com as suas duas getways, a esplendorosa diversidade de três ilhas vizinhas e uma multiplicidade de produtos turísticos que já oferece; é não ter percebido nada da geografia turística da Região.

Tentar agarrar-se a uma tri-polaridade defunta – mas, infelizmente, ainda não enterrada – é não se ter conformado com o novo ordenamento jurídico e político trazido pela Autonomia e persistir em manter privilégios indevidos.

O Triângulo é, hoje, um sub-destino turístico açoriano em visível crescimento/afirmação e um objectivo estratégico essencial para o desenvolvimento do conjunto de ilhas que o integram.

É indispensável que haja, agora, por parte do Governo, deputados e autarquias desta área e do sector empresarial das três ilhas uma união de esforços que venha dotar este arquipélago-dentro-do-arquipélago dos necessários meios humanos, financeiros e técnicos.

Saúda-se, por isso, a iniciativa da Associação de Município do Triângulo e da Adeliaçor de ter encomendado um Plano Estratégico para o Desenvolvimento do Turismo no Triângulo cuja apresentação pública se aguarda com elevada expectativa.

É fundamental encontrar uma actividade económica complementar à agricultura e às pescas, capaz de captar população e investimento e de lançar toda esta zona num novo ciclo de desenvolvimento.

Objectivo que só será conseguido mediante a conceitualização de um Modelo Turístico e a definição de uma estratégia para o Triângulo que visem assegurar o seu posicionamento como destino turístico.

Sem desvalorizar a divulgação institucional dos Açores que tem sido uma aposta inequívoca do Governo Regional importa, agora, criar a marca Triângulo com uma imagem forte que passe a beneficiar, ainda mais, dessa divulgação.

Com uma população que ronda os 39.510 habitantes e uma área de cerca 861,7 km2 o Triângulo tem condições para corporizar uma aposta num turismo não massificado que passa por uma baixa densidade de construção e por um enquadramento ambiental de nível superior.

Essa será mesmo uma das mais hábeis e criativas formas de contrariar as graves assimetrias que se sentem na Região promovendo a descompressão dos centros urbanos e evitando erros – hoje perfeitamente claros – cometidos noutras áreas do país e do estrangeiro.

Os Açores – mesmo que se quisesse – não têm condições objectivas para um turismo de massas que requer como produto de base o sol/praia que não temos. Assim sendo só fará sentido investir um turismo assente em segmentações que visem nichos de mercado bem definidos.

Sendo a Natureza o nosso produto nuclear toda a estratégia para o Triângulo terá que assentar na definição de nichos de mercados com ele fortemente relacionados. Devendo dessa estratégia nascer uma política de rigor na provação de projectos na área do turismo, quer a nível do governo quer a nível das autarquias.

Que permita garantir qualidade à marca Triângulo. Qualidade que tem a ver com bons projectos mas, também e muito (recorde-se), com serviço e excelências ambiental e paisagística

O Triângulo é, hoje, nos Açores uma realidade incontornável.


P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, maio 11, 2007

A dança das malas (perversidade de monopólio)

A dança das malas
(Perversidades de monopólio)


A TAP sempre primou por falta de profissionalismo na sua maneira de lidar com o público. Talvez pelos seus funcionários/as se assumirem como uma elite com a correlativa arrogância.

Provavelmente toda a gente tem uma história de má memória ocorrida com pessoal da transportadora nacional e de bandeira. E toda a gente tem, também, memórias de secas enormes em aeroportos sem qualquer informação.

E, na mesma linha, muita gente (a viajar na TAP) terá decerto tido a experiência de chegar ao destino sem malas. Possivelmente em circuntâncias inverosimeis como malas despachadas juntas chegando umas e outras não.

Tudo isso faz parte do património de uma companhia que sempre soube tirar o melhor proveito de uma situação de monopólio sobretudo nas ligações para os Açores.

Vindo tudo isto a propósito dos recordes de malas que não chegam ao seu destino juntamente com os respectivos proprietários que vêm ocorrendo no aeroporto da Horta em voos provenientes de Lisboa.

Já era relativamente comum esse tipo de situações mas no último ano não há voo em que não hajam bagagens que não chegam. Problema que afecta os locais mas que sobretudo se torna particularmente desagradável para os visitantes.

Sendo o turismo uma actividade transversal cujo sucesso depende de um conjunto de factores o assunto assume proporções deveras preocupantes. Não é difícil imaginar a frustração de quem vem passar, entre nós, 4 ou 5 dias e chega sem a sua bagagem.

É uma marca que fica e que vem descredibilizar o destino. O problema das acessibilidades é crucial para o sector mas a qualidade dos transportes e a sua eficiência não é nada menos importante.

Pelos vistos a criação da Ground Force, empesa que trata das bagagens, tem se vindo a cifrar num verdadeiro pesadelo sendo a TAP a segunda companha aérea que mais malas perde!

E, perante tal estado de coisas, não é apenas essa companhia que fica em causa mas o próprio destino. Sobretudo o destino Aores/Triângulo que, não oferecendo alternativa de operador de transportes, se vê confrontado com um péssimo cartaz de visita.

É interessante que muitos táxis de Lisboa exibam nas suas portas um rabo de baleia e a inscrição Açores – natureza mágica. Mas é imprescindível que as autoridades responsaveis pelo turismo tomem posição firme sobre assuntos como este.

Porque não se trata apenas de um problema interno de uma empresa mas de um serviço público que está a falhar clamorosamente pondo em causa, da pior maneira, um crescimento turístico que se procura.

Para não falar na situação, ainda mais ridícula, dos passageiros com destino ao Pico em que a TAP se atreve a sugerir que sejam os próprio lesados a ir levantar as malas ao porto da Madalena por causa de uma anacrónica regulamentação interna!

Perversidades de um monopólio que urge acabar sobretudo em tempos de política europeia de céu aberto.


P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, abril 27, 2007

A segunda bofetada sem mão

A segunda bofetada sem mão


Já lá vão um bom par de anos desde que Malcom Clark criou e abriu ao público o seu museu de Cachalotes & Lulas em S. João do Pico. Depois de lhe terem virado as costas e ignorado a sua excelência científica.

Essa foi a primeira bofetada sem mão: um cientista de renome mundial vê-se constrangido a criar um museu particular de cetáceos perante a incapacidade (ou desinteresse?) institucional.

Agora um estudioso e homem de cultura – professor universitário – viu-se, também obrigado a encetar uma experiência piloto na área da agricultura orgânica e sustentável totalmente a expensas próprias.

Depois de ter visto o seu projecto recusado por instâncias educativas e pedagógicas ficou, por seu turno, constrangido a avançar para uma iniciativa que, pelo menos até à data, não despertou interesse oficial.

Com grande esforço de estudo, investimento e mesmo de trabalho físico, a experiência toma forma e já é possível apreciar uma exploração agrícola que caminha para se tornar totalmente sustentável.

Com base em investigação e experimentação tem sido possível criar no Pico uma exploração que tendo em linha de conta todos os factores locais tem vindo a desenvolver soluções que a irão tornar um caso de estudo.

Envolvendo pecuária, horto-fruticultura e alguma transformação como queijo e doces vem se tornando muma actividade capaz de manter um agregado familiar e, simultâmeamente, melhorar a qualidade do solo e produzir produtos quase inteiramente biológicos.

O que é crucial tendo em conta que a questão da qualidade alimentar se vem tornando central para a manutenção da saúde e a prevenção da doença e que localmente já quase tudo o que se come é importado.

Por outro lado é lugar comum falar na monocultura da vaca e no minifúndio agrícola que obrigam os agricultores a passarem a vida a transportarem gado e água entre pastagens. Situação que acarreta índices de produtividade baixos e custos de produção muito elevados.

O agricultor mantendo, na generalidade, baixos grau de escolaridade e não tendo adequado apoio técnico e científico tem uma actividade essencialmente empírica e tradicional. E que não sendo diversificada os coloca à mercê do mercado leite e da carne

Sendo, por conseguinte, indispensável incutir nas futuras gerações de agricultores, que agora estão na escola, gosto pelo estudo e pela criatividade. Ser agricultor não se compadece, nos dias que correm, com instrução básica.

Os novos agricultores – para terem sucesso – terão que adquirir muito mais competências das que têm presentemente. Competências que não se poderão ficar apenas por conhecimentos teóricos.

Sendo indispensável o trabalho de campo, a experimentação e a concretização de alternativas válidas e testadas para um sector que ameaça entrar em crise profunda.

Razões que tornam a indiferença oficial e oficiosa, perante um projecto-piloto de grande valia pedagógica e teórica, tanto mais graves. E que, também, o tornam numa verdadeira segunda bofetada sem mão.

Pelos vistos nós, que tão pouco temos, podemos continuar a dar nos ao luxo de desbaratar tão excelentes recursos humanos e patrimoniais e tal empenhamento no devir da nossa terra!




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sexta-feira, abril 13, 2007

Mesquinhices

O Sócrates afinal não é engenheiro
O Al Gore gasta tanta luz em casa como a Vila das Lajes!
Vox Populi




M E S Q U I N H I C E S


Se é verdade que o Primeiro-ministro, ou alguém por sua incumbência, fez pressão sobre a comunicação social para abafar o caso do diploma de engenharia, fez mal.

Em primeiro lugar porque uma figura política, que o é por opção pessoal, tem que saber encarar com naturalidade e fair-play as inevitáveis intromissões na sua vida privada.

Em segundo porque o assunto sendo totalmente tolo não deveria merecer sequer uma pestanejar de olhos ou, quando muito, um seco “ninguém tem nada com isso”.

Em terceiro porque é uma regra de ouro da democracia não usar cargos de poder para tentar restringir, ou pelo menos, condicionar a liberdade de imprensa ou o direito à informação.

Contudo José Sócrates ocupa um cargo para o qual foi eleito democraticamente. Eleição para a qual não dependeu, de certeza absoluta, o facto de ser engenheiro ou não.

O exercício do cargo de Primeiro-ministro não implica habilitações especiais. Como não o implicam o exercício de funções de presidente do Governo Regional, ministro, presidente de Câmara, etc.

O que leva a que este episódio do diploma faça lembrar – salvaguardadas as devidas diferenças – o caso Mónica Levinsky! Um assunto, exclusivamente do foro íntimo e pessoal, que fez gastar milhões de dólares ao erário público que poderiam ter sido usados para combater a exclusão e a pobreza.

Para ser presidente dos USA não é necessário um voto de castidade e não estava em causa qualquer crime mas tão-somente um comportamento privado, eventualmente menos próprio, que apenas ao visado e à família diziam respeito.

José Sócrates, engenheiro ou não, é o Primeiro-ministro deste país e é o seu desempenho, enquanto tal, que deveria ser a preocupação central de todos nós. Se o dito cidadão cometeu ou cometer algum crime ou ilegalidade caberá aos tribunais investigar e julgar.

Ponto final, parágrafo.

Al Gore, o ex Vice-presidente dos USA que perdeu na secretaria uma eleição que ganhou nos votos, decidiu dedicar a sua actividade pública à defesa do ambiente e ao combate ao aquecimento global do planeta.

Questão da maior importância e que se não for combatida com grande eficácia irá tornar, a médio prazo, o planeta inabitável.

Para alertar toda a gente, Al Gore concebeu um documentário brilhante chamado “Um Verdade Inconveniente” que ganhou, alias, o Óscar deste ano para melhor documentário.

Pois bem: mais preocupados em descredibilizar o homem do que pensar no seu alerta não tardaram os boatos. Que de tão repetidos se tornam verdades. E para traz fica um drama ambiental que pode tornar-se catastrófico.

Importa é que o homem tenha uma mansão imensa que gasta mais electricidade do que a Vila das Lajes, que ande de jacto particular ou que leve uma fortuna pelas conferências que faz?!

A tomada de consciência da imprescindibilidade da redução de emissão de dióxido de carbono que passa por gestos tão simples como apagar luzes desnecessárias ou não tomar um duche com a água sempre a correr – isso, pelos vistos, não tem importância!

Mesquinhices que, apenas, nos diminuem e limitam.


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terça-feira, março 20, 2007

SALAZAR

Se soubesses quanto custa mandar, obedecerias toda a tua vida
Citação do Estado Novo


S A L A Z A R



António de Oliveira Salazar continua, decorridos quase 33 anos após o 25 de Abril, a ser uma figura pública que suscita fortes paixões – seja no sentido negativo ou positivo.

Uma personalidade reservada e distante que ainda, recentemente, conseguiu a melhor votação de notoriedade num polémico programa de televisão. Que valeu apenas pela curiosidade sociológica que constituiu.

A democracia esta definitivamente instalada em Portugal e, tirando uma minoria muito pouco significativa, ninguém neste país quer a sério perder as liberdades que conquistou.

O Estado Novo não foi um fascismo no mesmo sentido em que o foram o regime de Mussolini ou de Franco e muito menos o hediondo regime nazi. O Estado Novo foi – antes de tudo – uma ditadura austera, provinciana e analfabeta.

Tendo sido Salazar um aluno de elevadas notas e um prestigiado professor universitário nunca conseguiu descolar da sua origem pobre e do seu passado de seminarista.

Sendo, segundo se diz, um apreciador do belo feminino sempre se comportou de uma forma misógina tendo incentivado um machismo radical que se cifrou por uma anulação da mulher como cidadã de pleno direito.

Possivelmente gostando de mulheres tinha, claramente, medo delas. Ou melhor, medo do mal que os prazeres do sexo pudessem trazer à sua vida de recolhimento e austeridade lembrando-se, talvez, da fábula da maça e da cobra!

Sendo um professor de economia geriu o estado com a contabilidade dos antigos merceeiros: dever, haver e pouco mais. Tendo o horror à inovação não tinha para o país uma visão estratégica de futuro.

Pobritos mas alegritos – uma frase que bem podia fazer parte do epitáfio do salazarismo.

Salazar sanou as contas do país, meteu ordem na administração pública e acabou com o regabofe político da I Republica. Depois meteu férias e geriu, durante o resto do seu consulado, a nação como quem gere um negóciozito em Santa Comba Dão.

Salazar era um homem inteligente, com princípios e acima de qualquer corrupção. Mas era, também, um homem seco, autoritário e sem sombra de criatividade: um eucalipto que secou tudo à sua volta.

Salazar deixou um país pobre e analfabeto e um povo atrofiado e castrado.

Passados todos estes anos perdura, ainda, na nossa paisagem sociológica a sua herança: ileteracia, provincianismo, mesquinhez, hipocrisia, submissão, machismo, religiosismo, falta de iniciativa, défice cívico, etc.

O que explica a vitória de Salazar no programa da RTP e que torna necessário um debate sobre as sequelas do salazarismo que, apesar da Europa e de trinta anos de democracia, ainda condicionam – de forma determinante – a nossa vida colectiva.

Salazar morreu e a democracia está consolidada mas o salazarismo ainda está longe de ter sido erradicado das nossas cabeças e comportamentos.



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sexta-feira, março 16, 2007

Economia Espiritual

Vivemos uma vida de alto nível de toxicidade – material e espiritual
Alfredo Sfeir-Younis



Economia Espiritual

Na época da entronização da economia de mercado como o motor essencial do crescimento e do progresso torna-se essencial avaliar a direcção em que segue o nosso estilo de vida e os valores pelos quais nos regemos.

Sobretudo num mundo em que 2% da população mundial possui metade da riqueza do planeta ao mesmo tempo que os 50% mais pobres não possuem sequer 1% dessa riqueza!

Não basta analisar o volume de riqueza criada. É preciso, sobretudo, analisar no que ela é utilizada e, ainda mais, como ela é distribuída.

Sem pôr em causa os princípios do mérito, da iniciativa e do trabalho não é possível ignorar que riqueza gera riqueza e que a igualdade de oportunidades é uma meta bem longínqua na maior parte do planeta.

Igualdade de oportunidades implica idêntico acesso ao ensino e ao conhecimento para além do sítio em que se nasceu ou da família de que provêm. Para pessoas com capacidades semelhantes faz toda diferença ter nascido na Etiópia ou nos Estados Unidos.

Da mesma forma que ter nascido de uma família com posses e cultura dá uma vantagem à partida totalmente diferente de quem nasceu num meio familiar de exclusão e marginalidade.

Pelo que uma economia mundial que não se reja com base nos direitos humanos mas que procure uma globalização que beneficie em primeiro lugar as economias já mais privilegiadas terá sempre que se basear no primado da força.

Sem esquecer, também, que nos ditos custos de produção que classicamente têm a ver com mão-de-obra, utilização de equipamentos e energia, matérias-primas, etc. não são, por norma, contabilizados os custos ambientais.

Mas como os nossos recursos naturais são finitos e o ambiente é extremamente sensível faz todo sentido que esses custos para além de deverem ser minimizados deveriam, também, ser contabilizados como custos e reinvestidos na preservação da natureza.

Objectivos que só poderão atingidos quando a economia mundial se começar a orientar por princípios espirituais e, o mesmo é dizer, por princípios de liberdade, solidariedade, justiça, paz e amor.

Sendo o amor a palavra que, porventura, soará mais estranha aos apologistas da economia pura e dura – virada essencialmente para o lucro e para o seu crescimento contínuo.

Uma economia para ser viável tem que se reger, necessariamente, por boa gestão e por normas de cálculo mas pode e deve ter valores de equilíbrio e justiça para se poder tornar sustentável.

Quantas guerras, quantas tragédias não têm ocorrido e continuam a ocorrer em nome de interesses económicos que mais não visam que um lucro desenfreado? Quantas tentativas de ajuda humanitária não têm chegado aos seus destinatários por causa da usura e da corrupção?

Havendo “gente que come demais e gente que não têm de comer” algo vai mal sendo, por isso, indispensável que a felicidade do homem passe a ser um factor de avaliação do sucesso da economia.

Uma economia sem coração será sempre, a curto ou a longo prazo, votada ao insucesso. E os sinais andam todos por aí.


P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, março 02, 2007

O Pavão da Madeira - o último ditador no poder na Europa?

O Pavão da Madeira
O último ditador no poder na Europa?


Cavaco Silva (na dupla condição de Presidente e figura de vulto do PSD), José Sócrates (como Primeiro-Ministro) e Marque Mendes (como líder do PSD) têm na figura de Alberto João Cardoso Gonçalves Jardim um grande sarilho institucional.

Terão todos que fingir que estão perante um episódio normal em democracia. O que sendo, formalmente e juridicamente, verdade não deixa de ser mais um lamentável episódio de descredibilização do estado de direito.

Há muito tempo que Jardim deixou de ser o bobo da corte/palhaço de serviço ou o enfant-terrible da política portuguesa – um político que ninguém levava muito a sério mas que tinha, às vezes, a sua piada.

Hoje é, simplesmente, um político cujo prazo de validade já expirou: um sexagenário sem brilho, um expoente (no poder) de uma forma truculenta e trauliteira de fazer política que em nada contribui para o prestígio da democracia e das suas instituições.

Jardim é grosseiro e prepotente.

Sem questionar o surto de desenvolvimento económico da Madeira que obedeceu a determinado modelo – esse porventura questionável – é completamente questionável o ambiente de intimidação e arruaça que se vive naquela Região Autónoma.

Ambiente que em nada tem contribuído para a maturação social, cultural, cívica e política do povo madeirense. Fazer política na Madeira deve ser bem mais complicado do que andar num autocarro de dois andares nas ruas esburacadas de Luanda!

Jardim, por todas essas razões, é uma verdadeira dor de cabeça para o PSD nomeadamente para um homem moderado como Marques Mendes. Mas… política a quando obrigas... é um sapo que, pelos vistos, terá que engolir.

O presidente demissionário da Madeira tem/tinha legitimidade legal para governar mas não para governar da forma como governa. Os casos de ditadores eleitos são para todos os gostos: desde Hitler a Salazar ou de Fidel Castro a Mahmoud Ahmadinejad.

Da mesma forma que tinha toda a legitimidade para questionar a Lei das Finanças Locais e lutar contra ela mas não para, em nome dos putativos interesses da Madeira, insultar tudo e todos e desrespeitar as mais relevantes instituições do País e as mais elementares regras de cortesia.

É essa prática que tem de ser expurgada de um país civilizado, moderno e europeu. Por muitos votos que quem quer que seja consiga arrebanhar com uma máquina de lobis, compadrios, ameaças, chantagens etc.

Seja autarca, presidente de governo regional ou primeiro-ministro.

Não lembra ao diabo que alguém que se queixe de falta de dinheiro e venha, com esse mesmo pretexto, criar uma situação com custos elevadíssimos para além de se dar ao luxo de pagar o maior (?) fogo de artifício da Europa.

E para quê? Apenas para servir os desígnios de poder e de vaidade de quem deles faz um modo de vida e um fim em si.

Patético.



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sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Referendo, assimetrias e alguns disparates

Prof. Marcelo é o grande ilusionista da Nação Helena Matos


Referendo, assimetrias e alguns disparates


Numa percentagem significativa – apesar do mau tempo e do carácter delicado do assunto – os portugueses votaram e foram muito claros no que disseram.

Sendo a questão do carácter não vinculativo da consulta um detalhe essencialmente jurídico. Não me parece que alguém sensato tenha ficado com dúvidas ou que, quem está no poder, possa dar o dito por não dito.

Apesar de na RTP Açores, uma jovem jornalista, ter defendido a tese mirabolante de que à semelhança do anterior (?!) este referendo não devia ser aplicado…

Tendo o anterior sido respeitado e a lei não ter sido mudada será, apenas do mais elementar bom senso e sentido democrático, que agora a lei mude. Sob pena de desmobilizar, ainda mais, o cidadão já de si pouco crente na seriedade do sistema.

Se o resultado tivesse sido tangencial tudo mudaria de figura e seria de ponderar uma proposta de lei de compromisso entre o sim e o não. Assim não sendo é uma tese inteiramente espúria e antidemocrática.

Mas um dos aspectos que deve ser salientado é a diferença no sentido de voto entre sul/norte, litoral/interior e continente/regiões autónomas. Valores perfeitamente discrepantes nalguns casos atingido os 100% para o sim e noutros os 100% para o não.

O que, com a excepção dos Açores, corresponde às votações partidárias à esquerda e à direita. No Alentejo o sim na zona de grande influência do PCP, no Minho e nas zonas de grande influência do PSD e do CDS/PP o não.

O que significa que ainda há três Portugal: o de cima, o de baixo e o das ilhas sobretudo da Madeira que continua ser um “case study” da democracia portuguesa.

Embora esta realidade não deva ser ignorada é totalmente caricato que um desnorteado deputado regional de S. Miguel chegue ao cúmulo do ridículo de pretender apresentar uma proposta para que a lei não seja aplicável na Região Autónoma dos Açores!

Faz lembrar a história, verídica ou não, do Concílio de Trento em que um bispo português pediu a isenção do celibato, ao menos para os padres de Barroso…

Portugal é um todo e não uma manta de remendos. Uma realidade em que todos devem ser respeitados e aonde deve prevalecer a união do estado. Levado ao extremo poderíamos ter Mirandela, também a pedir a não aplicação da lei e por aí fora.

Como afirmamos antes do início da campanha a opção era, tipicamente, do foro íntimo e pessoal. Vemos, contudo, assimetrias que denunciam sistemas de valores muito diferentes que, por coincidência ou não, correspondem a opções partidárias.

O Prof. Marcelo, cidadão superiormente inteligente, foi o exemplo mais acabado de malabarismos intelectuais tentando demonstrar que o não também era sim e o inverso. Não contribuindo, assim, para a imprescindível clareza cristalina do debate.

Anular essas assimetrias parece-me ser um combate cultural e político da maior importância: aproximar os cidadãos buscando um largo denominador comum que nos faça sentir – a todos – melhor.



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sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Negociar com firmeza

Mesmo os fanáticos mais radicais possuem instinto de sobrevivência
José Manuel Fernandes



Negociar com firmeza


A actual situação do Iraque veio demonstrar, para quem tivesse dúvidas, que o simples uso da força pode ser contraproducente criando um cenário, porventura, pior do que o previamente existente.

O estado de guerra civil instalado naquele país criou uma situação humana, social e económica bem mais negativa da que existia ao tempo do ditador Saddam Hussein.

O voluntarismo americano baseado numa mentira e apoiado por um desconhecimento profundo do terreno abriu a porta a uma situação que deixou de ter solução militar.

Como é evidente não serão mais uns milhares de soldados ianques que irão resolver o que quer que seja. Serão mais jovens a morrer, mais atentados a serem perpetrados e mais radicalismos.

Uma escalada imparável.

É lamentável que se tenha tornado tão banal a notícia diária de mais um atentado suicídio bombista em Bagdad com dezenas de mortos a que já ninguém liga. Tornou-se “normal” morrer por atentado na antiga Mesopotâmia.

Numa demonstração inequívoca de como é possível que em 2007 se assista a tamanhas barbaridades perante uma comunidade internacional castrada e bloqueada.

Com as Nações Unidas lamentando tal estado de coisas mas sem serem capazes de fazer nada. E com George W. Bush patenteando uma total incapacidade para perceber que a guerra está perdida e que, apenas, resta a via diplomática.

Negociar a paz no Iraque será uma tarefa ciclópica e que exigirá grande capacidade diplomático, conhecimento profundo do terreno e uma enorme firmeza mas será, inevitavelmente, a única saída.

Não sendo sequer necessário relembrar o conflito do Vietname que teve outros contornos mas que, também, foi uma claríssima derrota militar dos americanos. Sendo certo que a guerra do Iraque está, objectivamente, perdida.

Os Estados Unidos e os seus aliados militares não conseguem, nem ao menos, assegurar minimamente a ordem pública quanto mais assegurar a transição pacífica para uma democracia. Democracia que, alias, não é possível criar por decreto.

Compreensão que Bush e o seu núcleo duro continuam a não querer assumir: o tempo para uma solução militar está, há muito ultrapassado e para uma saída airosa também.

Apenas negociações conduzidas com base num consenso negociado entre republicanos e democratas e com as forças democráticas do resto do mundo poderão dar início a uma solução que será, mesmo assim, imperfeita.

Negociações que, por serem consensuais, poderão exercer um efeito dissuasor mesmo junto dos sectores mais radicais. Que sendo radicais tem, mesmo assim, instinto de sobrevivência e sabem distinguir muito bem entre firmeza real e radicalismo verbal inconsequente.

A diplomacia só é efectiva quando acompanhada de uma pressão forte e credível.




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sexta-feira, janeiro 12, 2007

Despenalização do aborto - uma questão de direitos, liberdades e garantias

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento legalmente autorizado?
Pergunta do referendo a
efectuar em 11.02.2007



Despenalização do aborto
Uma questão de direitos, liberdades e garantias


Todas as discussões de caracter moral, religioso ou filosófico sobre o tema do aborto e/ou quando começa a vida são legítimas e desejáveis. São questões que têm a ver com o foro íntimo de cada um e que se revestem da maior delicadeza.

Ninguém tem, por conseguinte, lições para dar a ninguém. Todos devem ser inteiramente livres para formar uma convição no âmbito das respectivas confissões religiosas e/ou opções morais.

O Estado Português é um estado de direito completamente independente de qualquer religião ou credo moral em que todos os cidadãos têm os mesmos direitos, independentemente da sua orientação religiosa.

Segundo a lei portuguesa um(a) cidadão/ã só adquire personalidade jurídica, ou seja, só é considerado/a pessoa, depois de nascer. Antes disso faz apenas parte integrante da mãe, seja na condição de embrião ou de feto.

Também segundo a lei portuguesa efectuar um aborto com o consentimento da mãe é púnivel com uma pena de prisão até 3 anos. A mulher que recorrer ao aborto incorre, também, numa pena de prisão até 3 anos.

Em Portugal são praticados por ano, pelo menos, 20.000 abortos ilegais. Uma grande parte enchendo os bolsos a gente sem princípios que se aproveita dessa ilegalidade e muitos outros praticados sem um mínimo de condições técnicas e sanitárias por falta de capacidade económica.

Quem tiver dinheiro pode ir fazer um aborto legal a Espanha ou fazer um clandestino numa das clínicas de luxo de Portugal que se dedicam a esse negócio. Quem recorre ao aborto sem condições são, geralmente, mulheres pobres, menores de idade, com menos acesso à informação e residentes em áreas rurais.


Os dados disponíveis demonstram que a penalização do aborto não tem sido uma forma eficaz de o combater mas antes tem mantido a porta aberta a situações de exclusão, morte e doença para quem não tem meios. E de especulação para quem não tem escrúpulos.

A pergunta que será feita aos portugueses, e que acima se transcreveu, não tem nada a ver com o estar de acordo ou não com o aborto mas tão sómente se pretende saber se as mulheres que o fizerem, de livre vontade, antes das 10 semanas devem ser punidas ou não.

Presumindo-se que uma mulher que faz, voluntáriamente, um aborto antes das 10 semanas sabe o que faz e não tem objecções morais insuperáveis a que isso seja feito. Sendo que jamais se poderá pôr a questão de alguém ser obrigada a fazer um aborto seja na condição de grávida ou de técnico/a de saúde.

Conjunto de factos e constatações que levam a que questão que vai ser posta aos portugueses se situe, essencialmente, no campo dos direitos, liberdades e garantias e seja, por isso, uma questão política e jurídica.

Ninguém vai decidir se o aborto é pecado ou quando começa a vida.

Irá apenas decidir-se se as mulheres que abortarem, voluntáriamente, antes das 10 semanas e os técnicos/as de saúde que fizerem o aborto deverão ou não ser puníveis perante a lei.

Cada um deverá decidir, como é próprio de um estado democrático, conforme a sua consciência e as suas convicções mas tendo plena noção do âmbito e consequências dessa decisão, numa atmosfera de tolerância e serenidade.

A paixão é inimiga da razão. Como qualquer fundamentalismo é inimigo da Verdade. E a Verdade é, sempre, um somatório complexo de muitas verdades.


P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, janeiro 05, 2007

A execução de Saddam Hussein

Execução de Saddam Hussein é "um marco importante no rumo seguido pelo Iraque no seu caminho em direcção à democracia”
Geroge W. Bush


A execução de Saddam Hussein
Um erro clamoroso



Ninguém questiona a estirpe de facínora que era Saddam Hussein, caído em desgraça após invasão anglo-americana do Iraque. Ninguém informado desconhece os crimes que cometeu, nomeadamente, contra os curdos.

Ninguém desconhece o carácter totalmente ditatorial e criminoso do seu regime. Ele próprio não se cansou de passear a sua petulância, arrogância e falta de respeito pelos mais elementares direitos, liberdades e garantias.

Muito de nós, lembrados dos seus hediondos crimes, sentimos que uma execução nunca seria de mais para punir tal barbárie. Sentimentos compreensíveis mas, essencialmente, reactivos e emocionais.

Mas – e este mas é crucial – o regime de Saddam foi, supostamente, derrubado para possibilitar a instalação de uma democracia e de um estado de direito no Iraque. Tal como os conhecemos na Europa.

E, tirando a muito controversa situação dos USA, a pena de morte foi há muito afastada das democracias consolidadas e a sua abolição tornou-se mesmo um símbolo civilizacional ocidental e europeu.

Apenas alguém tão míope, medíocre e falto de sentido de estado e de história (e de convicções democráticas?) como George W. Bush poderia ter dito o que disse: que uma execução possa ser um marco no caminho em direcção à democracia de onde quer que seja!

E o julgamento de Saddam Hussein não correu nada bem, antes parecendo uma opereta de baixo nível que não convenceu ninguém, nem pela sua isenção nem pela sua qualidade técnica.

A decisão de lhe ter aplicado, portanto, a pena de morte era de todo previsível e não surpreendeu. Mas era exactamente aqui que o novo regime do Iraque deveria ter mostrado a diferença.

Ou Saddam Hussein tinha sido abatido num cenário de guerra e o seu cadáver mostrado ao mundo como aconteceu – num dejá vu – com Jonas Savimbi. Ou teria que ter sido julgado num cenário de independência judicial com monitorização internacional.

Uma condenação à morte e respectiva execução não veio trazer ao Iraque pos-Saddam nenhum valor civilizacional diferente nem mostrar a diferença entre o antes e o depois. Irá, sim, acicatar mais o ódio e os extremismos entre sunitas e xiitas.

E – o que ainda o que é pior – poderá ajudar a promover um eventual “mártir” sunita.

A verdadeira humilhação que poderia ser infligida a Saddam seria, precisamente, fazê-lo passar o resto dos seus dias atrás das grades de uma prisão de delito comum após ter sido julgado por todos os crimes que cometeu.

Ter executado Saddam Hussein foi um erro clamoroso e uma forma primária de punição.


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sexta-feira, dezembro 29, 2006

À guisa de balanço

À guisa de balanço


2006 não tendo sido um ano esplêndido – quer no plano interno quer no externo – não foi dos piores.

As grandes maleitas – a fome, a miséria, as epidemias, as guerras, o desperdício, a ameaça nuclear, os fanatismos – continuam e o fosso entre ricos e pobres continua, também, a aumentar, um pouco por todo o lado.

Os efeitos do aquecimento global nas condições climatéricas tornaram, ainda mais, óbvio o problema da poluição e dos seus efeitos devastadores na nossa qualidade de vida e, mesmo, na nossa segurança.

A situação do Iraque e do Médio Oriente aí estão a atestar a nossa incapacidade para atacar a causa profunda dos problemas e não apenas os seus efeitos.

O terrorismo não teve, este ano, nenhuma acção espectacular mas o seu espectro paira como uma ameaça real sobre as nossas vidas, sobretudo nos grandes centros urbanos.

Portugal mantém-se no pelotão de trás da comunidade europeia e nós, como povo, ainda não resolvemos encarar a sério um problema cuja solução não passa, apenas, pela politica e pelos políticos.

Os Açores mantem a aposta no turismo mas a sua sazonalidade permanece como o grande entrave à sustentabilidade do sector que vive longas noites de penúria.

A TAP/SATA continuam – perante várias complacências – a ignorar o aeroporto do Pico, fingindo não perceber que metade ou mais do tráfego da Horta tem origem e/ou destino no Pico.


Contudo sinais positivos também aí estão. Apareceu, proveniente do país mais poluidor do mundo, um filme (Uma verdade inconveniente) que vem retratar, de forma magistral, o gravíssimo problema do aquecimento global.

Nos USA os ventos de mudança, para uma atitude mais dialogante e de cooperação, já sopram visivelmente. Porventura abrindo a porta para a eleição um/a presidente mais sensível às questões da paz, do ambiente e das desigualdades sociais.

As mulheres começam, progressivamente, a desempenhar funções de responsabilidade na vida pública mundial. Podendo trazer para a política mais paz, mais bom senso e mais diálogo.

Em Portugal sente-se que estão a ser dados passos no sentido de se agarrar o boi pelos cornos e pôr em causa os nossos brandos costumes que apenas nos têm levado apenas à inércia e ao conformismo.

Os Açores consolidam-se como uma Região Autónoma madura e democrática e confirmam-se como um destino turístico fortemente apelativo.

O Pico continua a ser a montanha mais alta de Portugal e a dar alguns passos – não ainda os suficientes – para tornar o seu afamado futuro em presente.

Que 2007 venha confirmar as tendências positivas.


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sexta-feira, dezembro 15, 2006

A estória do João

Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo....
Fernando Pessoa


A estória do João




A estória do João, na sua singeleza e linearidade, vale do que mais de mil exemplos de como vai este país e a segurança social cuja falência parece ser, cada vez mais, inevitável.

O João teve um acidente de trabalho há 3 anos tendo tido traumatismos graves da bacia e de uma das pernas. Possivelmente mal assistido ficou com sequelas de algum gravidade.

Lesões que lhe causam dores e lhe determinam algumas dificuldades na marcha bem como certa incapacidade para tarefas pesadas como as que executava antes do acidente.

O João tem trinta e três anos e anda de baixa há três!

O João não é um deficiente – longe disso – mas tão sómente um jovem que teve pouca sorte com um acidente grave e com os cuidados médico-cirúrgicos a que teve acesso.

Tirando o que se disse é um jovem escorreito em plena posse das suas capacidades intelectuais e, segundo diz, com vontade de trabalhar em qualquer das variadíssimas profissões que poderá exercer plenamente.

Sem falar na “profissão” de funcionário público, daquelas em que se vêm os respectivos titulares a segurarem as paredes e a verem passar o trânsito, todo o santo dia de sorriso na face e cigarro na boca.

O João pode ser condutor, fiscal, fiel de armazém, desenhador, orçamentista, contínuo de escola, funcionário de autarquia, leitor cobrador, pescador, guarda de museu, cobrador de bilhetes de cinema, etc. Eu sei lá...

Mas não: o João porque chegou ao fim do tempo de baixa permitido por lei foi, pura e simplesmente, mandado a uma junta médica de invalidez com vista, obviamente, a obter a dita cuja!

Sem que alguém – nomeadamente da área do apoio social e/ou reintegração profissional – se tenha chegado à frente e feito o que quer que seja para encontrar uma saída profissional para um jovem de 33 anos que passa a vida a polir calçadas.

Certamente não por falta de assistentes sociais ou programas de reintegração profissional.

Num país de poucos recursos e com uma segurança social afogada ainda é possível encontrar casos como estes que falam por isso e atestam bem a incompetência, o desleixo e a falta de qualidade humana.

A estória do João é bem parte da história deste nosso desafortunado país.


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sexta-feira, dezembro 01, 2006

Encontrei Deus na lixeira

O que sabemos é uma gota, o que ignoramos é um oceano.
Isaac Newton


Encontrei Deus na lixeira




“…. Para que livre a minha casa da justiça e de todas as pessoas que me queiram mal, das bruxas, das enrarilhadeiras, das pragas dos males de inveja. Reza-se 3 Credos e diz-se: ….”

Assim rezava, em parte, o papel que jazia juntamente com o crucifixo de metal prateado com o Cristo a quem falta a mão e o antebraço direitos. No “aconchego” de uma lixeira para onde foi enviado no ano da Graça de Deus de 2006.

De surpresa, ao entardecer de um dia magnífico de S. Martinho, tive um encontro mágico com Deus que fora tão displicentemente enviado para a lixeira. Porque uma imagem e Deus (propriamente dito) são uma e a mesma entidade.

Pelo menos para quem acredita no valor das imagens e com elas dialoga quando quer falar com Deus. Ao jeito do anúncio de um jornal local que, há bem pouco tempo, falava da vinda da Mãe de Deus a uma das nossas vilas.

Naturalmente que não se referia – presumo – à Mãe de Deus de carne e osso mas tão-somente a uma das suas imagens dando, por conseguinte, a Esta o estatuto divino. O que coloca a questão no foro exclusivamente, confessional.

E sendo os Açores uma região em que o catolicismo é maciçamente maioritário não será abusivo imaginar que quem para a lixeira atirou Cristo será, com grande probabilidade, católico apostólico romano.

Possivelmente uma pessoa para quem não restam dúvidas quanto ao caracter divino das imagens do Senhor Bom Jesus ou do Senhor Santo Cristo dos Milagres não hesitando em tocá-las ou beijá-las em busca de ajuda ou de conforto.

Como, logicamente, não deverá haver imagens de primeira e de segunda, qualquer uma – independentemente do seu tamanho, material, localização ou notoriedade – representa Deus. Sob pena de todas elas perderem, afinal, o valor.

Uma imagem religiosa, seja ela qualquer for, é como um filho. Uma vez adquirida é encargo para toda a vida: nunca um filho deixa de ser filho nem a imagem deixa de ser Deus. A menos que se atribuísse a um ou ao outro um prazo de validade.

De modo que quem atirou o Cristo para a lixeira fê-lo, provavelmente, sem pensar em nada disso o que equivale a achar que a imagem tinha perdido a validade e já não prestava. Sem ter, concerteza, por isso renunciado à sua fé.

Assim vai a nossa espiritualidade. Um bem de consumo para deitar fora quando vira velho e se faz uma limpeza geral à casa. O Deus de ontem é um trapo velho, amanhã.

Quase como tudo o resto: consumível e descartável.

Num dia a Mãe de Deus é passeada e homenageada na vila, no outro o seu Filho é deitado fora! As duas faces de uma só moeda: o encanto e a fé de um lado e, do outro, um profundo desrespeito.

Para mim, tratando-se de quem se trata, encontrei Deus na lixeira. Que, ás tantas, está a olhar para tudo isto com um sorriso irónico...







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sexta-feira, novembro 17, 2006

Co-share, voos mistos e outras desgraças

Senhores passageiros este é um voo co-share TAP/SATA
Hospedeira da TAP



Co-share, voos mistos e outras desgraças


Co-share é um anglicismo utilizado pelas companhias aéreas para designar voos que fazem em rotas de parceria com outra companhia. Como, por exemplo, os voos Horta-Lisboa-Horta que são voos co-share TAP/SATA.

Ou seja o voo em questão é feito, por acordo entre ambas as companhias, quer com aviões da TAP quer com aviões da SATA conforme os seus respectivos interesses e disponibilidades.

O mesmo se passando, também, entre a TAP e a Portugália nos voos Lisboa-Porto-Lisboa. Tudo isto, obviamente, sem os passageiros serem tidos sido ou achados – apenas por conveniências comerciais das duas partes.

E grande mal não viria ao mundo se tudo isso acontecesse sem prejuízos/incómodos para os passageiros/clientes. Mas não é, como seria legítimo esperar, o caso.

Desde logo porque nesses voos não é possivel obter bilhetes electrónicos – uma comodidade indiscutível para quem viaja regularmente – por alegada incompatibilidade dos sistemas informáticos dos diferentes operadores.

A seguir porque cria situações caricatas como as acontecidas a quem faz um trajecto Horta-Lisboa-Horta e que tem, por opção alheia, de viajar na Portugalia de Lisboa para o Porto.

Aí – mesmo sendo um passageiro em transito – tem que sair (em Lisboa) da área das transferencias, dar a volta ao aeroporto para fazer novo check-in no balcão da Portugália e ter de fazer nova inspecção de segurança para, de novo, regressar de onde nunca deveria ter tido de sair!

Um autêntico pesadelo para qualquer mortal nomeadamente se acompanhado de crianças e/ou de pessoas idosas apenas porque as companhias se arrogam à liberdade de totalmente desrespeitarem quem lhes paga.

Das duas uma: ou os operadores tem condições para, sem minimamente beliscarem o conforto e os direitos dos clientes/utentes, fazer parcerias ou, simplesmente, não deveriam poder fazer economias de escala à custa de quem, justamente, deveria ser a sua maior preocupação.

Hábitos que, possívelmente, atestam a mentalidade de monopólio que ainda grassa nas nossas companhias de bandeira que se sentem demasiado à vontade num sector vital na vida de qualquer sociedade moderna.

Mas ficassem os males todos por aí, mas não ficam.

Não contente com os voos co-share a TAP permite-se acrescentar os voos mistos como por exemplo o Porto-Rio de Janeiro em que os pobres passageiros Porto-Lisboa são misturados com os do voo internacional.

Ficando, por isso, sujeitos a terem de passar no controle de passaportes no aeroporto de Lisboa como se não viajassem dentro do próprio país! E, ainda por cima, terem de ser sujeitos a novo controlo de segurança como se tivessem acabado de entrar no aeroporto e não como passageiros provenientes de um avião acabado de aterrar!..

Tudo isto apesar de à saída do avião proveniente do Porto se terem separado em diferentes autocarros os passageiros com destino ao Brasil dos destinados a Lisboa. Num comportamento totalmente autista em que não cabe, sequer, uma explicação ou simples pedido de desculpa.

Como diz o povo: um mal nunca vem só!


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sexta-feira, novembro 03, 2006

Uma verdade inconveniente

Para um número crescente de pessoas, Bush e a direita republicana roubaram a eleição a Gore
Mega Ferreira


Uma verdade inconveniente

Com o maior número de votos expressos nas urnas Al Gore foi, por um expediente jurídico, considerado derrotado por George W. Bush. Sendo o candidato que teve o menor número de votos expressos na urnas considerado o eleito!

Um precedente preocupante para a história da democracia.

E, mais importante do que isso, a porta aberta para um dos períodos mais controversos da história americana com um presidente transformado em verdadeiro bobo à escala mundial.

O presidente do país mais poluidor do mundo que se recusou a ratificar o acordo de Quioto por achar que esse compromisso iria pôr em causa a economia americana. Mesmo estando em causa a nossa casa comum – o planeta.

Factos que tornam, ainda mais, nobre a missão que Gore assumiu na defesa do combate ao aquecimento global da Terra resistindo à tentação de se sentir ofendido e virar as costas à participação cívica.

O documentário da sua autoria – uma verdade inconveniente – que agora se estreou nos cinemas e tem sido um êxito nos Estados Unidos foi baseado nas conferências que tem vindo a fazer ao redor do mundo sobre aquele tema.

Um documentário verdadeiramente notável em que, de uma forma pedagógica e extremamente clara, explica as razões do aumento exponencial do aquecimento do planeta e as suas implicações no clima a nível mundial.

Utilizando gráficos simples e uma linguagem muito acessível demonstra, de forma cientificamente sustentada, o papel determinante da emissão de gases poluentes na alteração das nossas condições de vida.

Situação que a não ser combatida de forma enérgica e imediata poderá, no limite, pôr em causa a nossa própria sobrevivência. Numa abordagem em que foge à demagogia e ao discurso político-partidário.

O resultado é um alerta extremamente lúcido e bem fundamentado para todos os cidadãos considerados no seu conjunto ou em termos individuais. Já que aponta para saídas institucionais mas também para aquilo que podemos, individualmente, fazer.

Um trabalho que, a nosso ver, poderia ser transformado numa verdadeira ferramenta para acções de educação ambiental devendo ser exibido em todas as escolas e comunidades locais. Não se restringindo às elites que já conhecem bem essas questões.

A alteração do uso indiscriminado ou, pelo menos, descuidado com que utilizamos energias dependentes dos combustíveis fosseis e que se pautam por pequenos gestos diários - como não utilizar o carro a propósito de tudo e de nada - poderá fazer a diferença.

Se é indiscutível a necessidade da adopção de grandes medidas a nível nacional e mundial não menos indiscutível é a necessidade de mudarmos um sem número de hábitos de cujas consequências não nos apercebemos.

Uma verdade inconveniente é um daqueles testemunhos que não se limita a fazer diagnósticos catastróficos mas que propõe soluções que começam, precisamente, a um nível individual.

Um testemunho que é fundamental passar ao maior número de pessoas, nomeadamente aos mais jovens, que serão certamente os que mais poderão lucrar com uma mudança de atitude perante uma ameaça que está ali, ao virar da esquina.

Um apelo às escolas, às autarquias e ao governo para que dêm a esse filme o destino que ele merece.



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quinta-feira, outubro 19, 2006

Coreia do Norte - a bomba da nossa impotência

Se não tens armas nucleares és invadido; se não tens não és
Madeleine Albright






Coreia do Norte
A bomba da nossa impotência



No ano de 2006 da era de Cristo um ditador de opereta chamado Kim Jong II, o “Querido Líder” de um país com níveis intoleráveis de pobreza e semi-escravatura, põe de cócoras as Nações Unidas.

E, sobretudo, põe de cócoras o voluntarioso George W. Bush que metendo a viola no saco se dispõe, agora, a seguir a via negocial com o que ele designou como um dos “vértices do mal”.

Perante um Irão que se prepara para tirar as devidas ilações do resultado de um braço de ferro entre a comunidade internacional e um dos últimos redutos “comunistas” do mundo.

Um país aonde terão perecido de fome e falta de assistência médica dois milhões de cidadãos, entre 1997 e 2002! E que gasta 80% do seu do orçamento de Estado em despesas militares.

Um país que se arroga a dizer em plenas Nações Unidas que a adopção de sanções será entendida como uma declaração de guerra. Desafiando – da forma mais frontal – os “guardiões do mundo”.

Dados que tornam Saddam Hussein e o seu país de “armas de destruição maciça” num verdadeiro reino de aprendizes de feiticeiro em que as diatribes do ex-ditador não passavam de quase cócegas.

Sendo tudo isto irónico é, por isso mesmo, de extrema gravidade.

Perante um Iraque dilacerado por uma guerra civil interminável que decorreu de uma invasão militar desnecessária e contraproducente, curvam-se – agora – uns impotentes Estados Unidos perante um dos vértices do mal.

Que, possivelmente, se estará a rir, no aconchego do seu palácio, dos “tigres de papel” capitaneados por George W. Bush e Tony Blair. Que intimidados pela eventual bomba atómica de Pyongyang – essa sim uma arma de destruição maciça – metem o rabo entre as pernas.

Não que se deva advogar, por analogia, uma outra ofensiva militar mas porque estamos a falar de dois pesos e duas medidas o que acaba por descredibilizar, ainda mais, as políticas do eixo Washington – Londres.

Sendo o regime norte coreano não democrático, possuidor de armas de destruição maciça e detentor de um dos maiores exércitos regulares do mundo dificilmente se perceberá, agora, uma política de paninhos quentes.

Agora, sim, é que a comunidade internacional e, nomeadamente, os Estados Unidos necessitam de tomar as mais rigorosas medidas de intimidação e demonstrar que são capazes de anular as derivas totalitárias.

Os “valores” porque se rege aquele regime são um real desafio à paz mundial já que pouco tem a perder e toda a lógica do seu funcionamento está ligada à máquina militar.

E o passaporte para a sobrevivência política de Kim Jong II passa pela criação e manutenção de inimigos externos que desviem a atenção da miséria e da falta de liberdade que se vive no país.

A maneira como as Nações Unidas lidarem com a questão nuclear coreana será um teste crucial à sua capacidade. Para o qual se viram todos os olhos nomeadamente os do Irão e os de todas as forças não democráticas.

Oxalá esta não venha a ser a bomba da nossa impotência.




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sexta-feira, outubro 06, 2006

Turismo - uma actividade transversal

Turismo – uma actividade transversal



O turismo – actividade económica que se pretende venha a ter grande expressão na Região – é, tipicamente, um produto de características transversais que apanha todos os sectores de actividade. Desde os transportes ao comércio e às telecomunicações, passando pela saúde.

O êxito dessa actividade não dependerá, apenas, da qualidade dos alojamentos, da restauração e da animação. Dependerá, porventura ainda mais, do modo como a comunidade se comportar perante o turista, aos mais variados níveis.

Um dos argumentos de venda mais importantes para turismo açoriano é a qualidade do nosso ambiente/natureza. Área que tipicamente é da responsabilidade do estado e das autarquias. Aí os privados pouco ou nada podem fazer para além de manterem os seus espaços devidamente integrados.

Para os Açores a natureza e a qualidade do ambiente são questões de sobrevivência. A Região pouco mais poderá oferecer: o clima embora ameno é instável e praias são poucas e a milhares de anos de luz de outras paragens.

Infelizmente, contudo, muito há fazer para garantir a qualidade do ambiente e da natureza. Começando pelas questões elementares do lixo e do asseio público e acabando na construção desordenada e atípica que alastra por todo o arquipélago.

Não existindo, como devia, qualquer política, consistente e permanente, de educação ambiental fica, desse modo, aberta a porta à morte prematura da galinha de ovos de oiro do turismo açoriano. Sendo fundamental que as pessoas percebam as razões que determinam a importância da qualidade ambiental que não é, apenas, uma esquisitice de alguns.

Havendo também, com frequência, situações que descredibilizam os poderes públicos como é o caso de uma unidade turística de elevada qualidade e com evidentes preocupações ambientais – Pocinho Bay – que vê instalada na sua fantástica linha de vista para o mar e para o Faial nem mais menos que linhas eléctricas aéreas montadas em horrorosos postes de betão!

Um exemplo flagrante de uma iniciativa pública a pôr em causa, de forma lamentável, uma iniciativa privada que fica impotente perante um verdadeiro atentado ao ambiente e ao mais elementar bom senso e sentido de segurança. Trata-se de uma área a pouco metros do mar e que é por ele, repetidamente, atingida.

Dificilmente um turista de segmento alto – daqueles que queremos para os Açores – poderá perceber a falta de sensibilidade e responsabilidade que, no século XXI, está por trás de tão desnecessária aberração. Um exemplo bem objectivo de como uma má solução pública pode pôr em causa uma boa iniciativa privada.

Os poderes públicos – se quisermos ter turismo a sério – têm que tomar atitudes pro-activas que defendam a qualidade do ambiente ganhando, desse modo, credibilidade para poderem depois exigir do sector privado projectos e iniciativas de qualidade superior e assegurarem, mesmo, a aplicação da lei.

Não esquecendo, entretanto, a insegurança rodoviária que cada vez mais se vive no Pico. Desrespeito sistemático do código de estrada com criação de situações de grande perigo à mistura com camiões TIR que resolvem fazer das estradas da Ilha verdadeiras pistas de rally. Perante a complacência habitual da polícia que, de vez em quando, instala umas máquinas de registo de velocidade.

Pobre do turista que alugue um carro sem condutor. Não ganha, de certeza, para o susto!...





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sexta-feira, setembro 22, 2006

Habitat e qualidade de vida

Os locais e as condições ambientais determinam a viabilidade de uma determinada espécie




Habitat e qualidade de vida


O conceito de habitat é, em geral, usado em referência a uma ou mais espécies no sentido de estabelecer os locais e as condições ambientais onde o estabelecimento de populações desses organismos é viável.

O habitat de uma determinada espécie para além de uma localização geográfica tem a ver com os chamados factores abióticos tais como regime climático, temperatura, luz, oxigénio, humidade, solo etc.

Sendo o homem uma espécie animal tem, naturalmente, o seu habitat próprio ou seja só poderá ser viável se existirem um conjunto de condições ambientais determinadas.

A espécie homem existe no planeta Terra e, até à data, não foi possível provar que essa espécie exista em qualquer outro ponto do universo porque não foi encontrado um outro planeta que tenha as condições necessárias à sobrevivência da espécie humana.

Embora o homem, mercê do fato de possuir uma inteligência elevada, tenha conseguido sobreviver em regiões muito inóspitas e em circunstâncias muito adversas tal não significa que possa esticar a corda indefenidamente.

Não haverá tecnologia que nos valha se as condições do habitat necessário à viabilidade do ser humano forem drásticamente alteradas como acontecerá com condições climáticas extremas ou uma poluição incontrolada do ar e da água.

O respeito pelo ambiente e pelas condições de vida das mais variadas espécies existentes no planeta não é, por conseguinte, uma birra ou obsessão dos eco-ambientalistas mas antes a maior questão que se coloca à sobrevivência de espécie e, sobretudo, à nossa qualidade de vida.

Mesmo admitindo – embora com grande dose de optimismo - que a sobrevivência da espécie não está em causa a médio prazo não restam dúvidas que a qualidade de vida do homem tem vindo conhecer um decréscimo acentuado.


Sendo disso mesmo um exemplo flagrante o que se passa nos grandes centros urbanos – cada vez mais populosos – em que as condições do habitat estão degradas a ponto do stress e da doença tomarem a dianteira.

E não serão certamente os ares condicionados, os ionizadores, os desumidificadores e toda uma parafranélia de tecnologia que irão proporcinoar de contacto com natureza e outros seres vivos que são imprescindíveis à qualidade de vida do ser humano.

Não sendo por acaso que as pessoas que vivem nos grandes centros procuram a natureza e adoptam animais de estimação aumentando, por consequência e exponencialmente, a procura do turismo de natureza.

O ritmo de vida das grandes cidades e as suas condições abióticas e bióticas (dos seres vivos) estão muito afastadas do habitat ideal para o ser humano o que leva, inevitavelmente, a rupturas graves na qualidade de vida das pessoas.

O ser humano precisa de espaço-natureza e de comunhão com todas as outras espécies vivas. Tentar compensar esses elementos essenciais do nosso habitat com luxos e glamour é matar, a prazo, a alegria de viver e a própria saúde.

De modo que preservar e melhorar o ambiente e o nosso relacionamento com a natureza é um imperativo de qualidade de vida e poderá ser mesmo, a médio prazo, um imperativo de sobrevivência.

Habitat e qualidade de vida andam, inevitavelmente, de mãos dadas.




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sexta-feira, setembro 08, 2006

Salomão e Kamasutra

SALOMÃO E KAMASUTRA



Salomão, filho do rei David, foi rei de Israel entre 970 A.C. e 930 A.C. e uma figura central do Velho Testamento, conhecido pelo seu sentido de justiça e equilíbrio corporizados na história de 2 mulheres que reivindicavam como filho a mesma criança.

Com 2 mil anos de existência o Kamasutra é um livro que foi elaborado pelo indiano Mallinaga Vatsyayana com base no rico erotismo hindu. O Kamasutra representa o sexo sem qualquer sentimento de culpa ou pecado, um manual milenar de liberdade sexual.

Vem tudo isto a propósito de uma jovem catequista do nosso meio que, não sabendo quem era Salomão e o conceito de justiça salomónica, conhece o Kamasutra de trás para diante, experimentando afanosamente o maior número possível de posições exóticas!

Não que haja nada de mal em conhecer o Kamasutra ou ter uma vida sexual activa e interessante. Mas é estranho que alguém que, sendo catequista e demonstrando tanto interesse por textos milenários, desconheça passagens fundamentais da Bíblia.

Um ironia que vem ajudar a ilustrar as contradições duma geração que tendo os telemóveis, os SMS, os computadores e os DVD´s não tem uma cultura geral mínima nem, muitos menos, qualquer noção das suas raízes judaico-cristãs.

Uma geração de roupas de marca e de bens de consumo mas sem noções básicas de comportamento cívico e de respeito pelos mais velhos. Uma geração que conhece o Kamasutra mas que não sabe amar.

Porque amar não é o mesmo que curtir. Amar é um sentimento profundo que passa pela anulação ou, pelo menos, por uma grande atenuação do ego. Um sentimento que exige tempo e partilha. Curtir é a versão “fast-food” do amor.

Os jovens de hoje ou melhor a massa de que são feitos os jovens de hoje é a mesma de que eram feitos os seus antepassados, a mesma espécie biológica e o mesmo material genético. O que mudou foi a maneira como essa massa é trabalhada.

A educação que era dada em casa foi substituída por uma instrução de duvidosa qualidade. A generalidade dos pais deixou de educar e a generalidade dos professores de ensinar. Uns e outros foram cedendo aos sinais dos tempos sem dar grandes mostras de resistência.

Só assim se percebe que, no espaço de uma geração, os usos e costumes de terras como o Pico tenham passado de um extremo ao outro. De sociedades altamente conservadoras passaram a sociedades promíscuas em que o que ontem era desonra e opróbio é hoje banal e encarado com um sorriso nos lábios.

Naturalmente que os tempos devem trazer evolução e progresso. E o caminho para o futuro não é, seguramente, o retrocesso do fundamentalismo islâmico que leva a que um pai muçulmano chegue ao ponto de degolar a sua própria filha por causa de usos e costumes num país moderno como é a Itália!

Mas o inverso – em que se perderam de todo valores e referências – também o não é. A liberdade é um bem demasiado precioso para poder ser posto em causa pela sua indevida e abusiva utilização. Situação que, além do mais, serve de pretexto a quem
luta contra os direitos, liberdades e garantias como os conhecemos neste lado mundo.

É saudável conhecer o Kamasutra mas é essencial não esquecer Salomão.





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sexta-feira, agosto 25, 2006

Irão - 1 Ocidente - 0

Apesar do 11 de Setembro ...., o Ocidente não consegue levar a sério a ameaça do islamismo
Vasco Pulido Valente


Irão - 1 Ocidente – 0
Os deuses devem estar doidos


No rescaldo da ofensiva de Israel no Líbano importa fazer uma avaliação, tanto quanto possível, desapaixonada dos resultados políticos do conflito, despindo os sentimentalismos que os média suscitaram.

Sendo que o que, realmente, esteve em causa foi muito mais que Israel, o Hezzbollah ou as mortes de seres humanos. Sendo de salientar a este propósito que no Iraque continuam a morrer uma média de 100 pessoas (incluindo, evidentemente, crianças) por dia!

Uma tragédia que por se ter tornado rotina deixou de merecer o mesmo interesse dos média. Tanto mais que sunita que mata xiita ou vice versa tem cem anos de perdão. Fica tudo em família e os horrores tem caracter muito mais caseiro.

Qualquer observador minimamente informado e frio sabe que o que esteve em causa na guerra do sul do Líbano não foi, fundamentalmente, um conflito entre israelitas e palestinianos.

O que esteve em causa foi um conflito entre o exército regular de um país ocidental e democrático e um movimento de guerrilha xiita financiado, treinado e armado pelo Irão e pela Síria e tendo como ideologia o fanatismo religioso islâmico.

Em tudo isto os palestinianos e o movimento sunita Hamas pouco contaram sobretudo tendo em conta os desamores entre xiitas e sunitas. Houve, apenas, uma aliança táctica que justificou a entrada na guerra do Hezbollah, escondido e escudado entre libaneses civis incapazes de se impôrem.

Como escreveu e denunciou um escritor árabe existe uma estratégia islâmica da conquista do Ocidente pelo terror e pela invasão silenciosa. O terrorismo islâmico está de vento em popa (vejam-se os planos abortados em Londres na semana passada) e as comunidades islâmicas engordam, a olhos ver, no países ocidentais.

Estratégia que joga muito na ignorância e sentimentalismos ocidentais e em forças ditas de esquerda que se prestam a ajudar ao branqueamento dos ideais ditatoriais e radicais do islamismo fundamentalista. Não ocorrendo por acaso as juras de amor eterno, em Julho passado, entre os presidentes Hugo Chavez da Venezuela e Ahmadinejad do Irão.

E como está sobejamente provado nenhum Estado é hoje invulnerável ao islamismo radical. Com a superpotência Estados Unidos à cabeça e com todos os países europeus a seguir. Não sendo mesmo capazes de impor ao ditatorial e medieval Irão regras para as suas práticas nucleares que nos poderão pôr ao alcance de um bomba atómica!

E quanto a Israel, e com ele o Ocidente, foi o claro perdedor. Perdeu em vidas humanas, em recursos materiais e em credibilidade. Perdeu a aura de invencibilidade rápida e total e ficou à mercê de um cessar fogo que irá permitir, a curto prazo, a reorganização e rearmamento do Hezzbollah.

Porque não será a força internacional da ONU que terá condições para o impedir nem, muito menos, o governo libanês. Perante um Irão reforçado que controla completamente o regime fantoche da Síria e uma comunidade internacional que não tem condições objectivas para enfrentar o regime dos mullahs de Teerão.

O resultado foi claro: Irão – 1 Ocidente – 0. Quem não percebeu isto não percebeu nada.

Os deuses devem estar doidos.



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sexta-feira, agosto 11, 2006

Guerras, mentiras e paixões

A religião é o ópio do povo
Karl Marx


Guerras, mentiras e paixões


A guerra é, por definição, um acto extremo e intrinsicamente violento. Guerra é guerra. Não há guerras civilizadas nem justas. Pode haver, quando muito, guerras inevitáveis. Mas sempre caracterizadas por um rosário de horrores e iniquidades.

E assim é a guerra que ocorre no Médio Oriente. Com tudo o que de mal tem uma guerra: gerando ódios e paixões e espalhando um rasto de sangue. Mas uma guerra, pelos vistos, inevitável e, ainda por cima, para muitos uma “guerra santa”.

Sendo que “guerra santa” é um conceito dotado da mais profunda das ironias. Como se fosse possível misturar religião – que, seja ela qual for, procura a paz e o amor – com actos da maior violência. Uma guerra pode ser tudo menos “santa”.

Dando actualidade a Karl Marx que, não tendo razão em muito do que escreveu, percebeu o papel fundamental que a religião pode ter na manipulação de massas primárias, incultas e injustiçadas.

A paz no Médio Oriente só será possível quando co-existirem um estado de Israel seguro e reconhecido pelos seus vizinhos e um estado Palestiniano económicamente viável, democrático e socialmente equilibrado. Deixando de fora, quer o judaísmo quer o islamismo.

Embora política e religião tenham andado, tantas vezes, de mão dada são uma mistura que, invariavelmente, não conduziu nem à paz nem a maior justiça. Bem pelo contrário potenciou ódios, extremismos e guerras.

Israel é um estado soberano, democrático e próspero. Uma realidade irreversível e um exemplo de persistência, trabalho e capacidade. Palestina é um ideal a conquistar para um povo que tem sido e continua a ser carne de canhão para extremismos religiosos e regimes ditatoriais.

Um povo que terá de encontrar o seu caminho fora dos presentes envenados que lhes estendem o Hamas e o Hezbollah que os usam como escudos humanos. Não hesitando mesmo em usar terceiros como foi o recente caso dos observadores da ONU, situação para a qual que um deles tinha alertado.

O Hezbollah devidamente financiado e armado por Teerão e Damasco não é apenas um perigo para Israel. É um perigo objectivo para os países moderados da área e para todos nós. Ajudando, para além do resto, a fazer “esquecer” a escalada nuclear do Irão.

Não sendo por acaso que se noticiou um número de vítimas em Qana que depois se verificou ser metade. O que não retirando o horror à situação vem ilustrar a guerra de mentiras que, também, se vem desenvolvendo.

O Hamas, o Hezbollah e a Al Quaeda são farinha do mesmo saco. Que tanto ataca no Médio Oriente como no Iraque, Londres, Madrid ou Nova Iorque. Extremistas religiosos que fomentam o ódio e o horror indiscriminados.

Israel não está, naturalmente, isento de culpas e erros sobretudo por causa de uma intolerável política de implantação de colonatos nas áreas ocupadas. Tendo, também, no seu interior extremismos religiosos inaceitáveis.

Mas meter no mesmo saco Israel e aquelas organizações é não perceber, em definitivo, a diferença entre civilização e selva como escrevia recentemente um cronista.

O Irão, secundado pela Síria, não está preocupado, essencialmente, com o povo palestiniano. O seu objectivo visa o coração da nossa civilização e da própria democracia que estando longe de serem perfeitas estão, apesar de tudo, a anos-luz na defesa dos direitos, liberdades e garantias.

Daí que seja crucial não nos deixarmos tomar por emoções ou paixões frente ao bombardeamento mediático a que estamos sujeitos. A estratégia dos extremistas visa “criar uma espiral de ódio” que mine o terreno aos moderados e não deixe campo de manobra para acordos políticos.

“E na guerra a vantagem está sempre do lado dos mais ferozes, cruéis e desumanos”.



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sexta-feira, julho 28, 2006

Ambiente, poluição e lixo

Pequeno é maravilhoso
Schumaker


Ambiente, poluição e lixo


Depois de muita luta e persuasão começa a ser consensual a noção da importância de um ambiente de excelência para garantir a qualidade de vida do ser humano. Como espécie animal que somos temos necessidade de um habitat adequado que não se compadece com uma destruição maciça do planeta.

E preservar o ambiente não é apenas impedir o ataque feroz que empresários sem escrúpulos fazem às florestas do Amazonas – o nosso último grande pulmão verde. Nem apenas parar a destruição sistemática dos litorais, das linhas de costa e o envenenamento dos rios e lagos.

Sendo essas causas da maior importância a merecer a melhor atenção dos governos e das grandes organizações não governamentais, há um mundo de “pequenas” coisas que estão ao alcance de todos nós e, essencialmente, dependentes de atitudes individuais.

Para além do apoio político e financeiro que é possível dar a quem defende um ambiente melhor há que pensar no que fazemos no nosso dia a dia. As grandes causas podem ser ganhas por um somatório infinito de pequenos gestos.

Desde logo começando pela utilização criteriosa da água – um bem indispensável à vida e um recurso finito - que poderá pela simples gestão dos banhos domésticos ou da lavagem da louça.

Para tal bastará não deixar correr, por exemplo, o chuveiro enquanto se ensaboa o corpo ou se aplica o champô. Ou, então, não deixar a correr, ininiterruptamente, a torneira da pia enquanto se lava a louça.

Dois pequenos gestos que multiplicados por milhões podem significar a poupança de outros tantos milhões de litros de água. Uma poupança muito significativa para bem tão precioso.

Da mesma forma que utilizar, de forma sistemática e desnecessária, um veículo contribui – pela emissão de gases - para a poluição atmosférica tão responsável pelas alterações climatéricas que já não passam despercebidas a ninguém.

Mas, ainda mais básico e simples que tudo isso, é o nosso comportamento em relação ao lixo. Pequenos gestos que podem ir desde um simples atirar de uma beata ou de um invólucro de uma guloseima para o chão até ao enviar de sacos de ração e de adubo por tudo o que é lado.

Ou mesmo o patético jazer de um preservativo usado ou de uma fralda suja num qualquer miradouro turístico ilustrando a mais elementar falta de sentido cívico e de respeito pelo ambiente.

Para não falar na prática que continua a ser corrente no Pico de incendiar os pneus que se deitam foram não só criando perigo de incêndio mas poluindo de forma extremante agressiva o ar – outro bem indispensável à vida – que todos temos que respirar.

Coisas que qualquer pessoa sensata e minimamente responsável percebe que estão erradas. Mas que, contudo, continuam a ser parte do nosso quotidiano perante a passividade das autoridades responsáveis. A coima e a punição devem ser, sempre, o último argumento mas não podem deixar de existir.

Não há educação sem punição. E é, justamente, pelas pequenas coisas que se deve começar.



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sexta-feira, julho 14, 2006

O culto do mexerico

Do mexerico à maledicência vai apenas um passo





O culto do mexerico


Talvez seja uma pecha das culturas latinas mas o mexerico é, sem grandes dúvidas, a forma mais comum de aquisição de conhecimento da sociedade portuguesa.

Conhecidos os baixos índices de leitura quer de jornais quer de livros, a intoxicação televisiva e o elevado grau de iliteracia de que o país sofre não será de estranhar que o mexerico se tenha tornado numa verdadeira instituição.

Tendo os portugueses uma enorme aversão à frontalidade fácilmente se percebe que o resultado só poderá ser uma profunda hipocrisia social que encontra a sua expressão ideal no mexerico.

A simpatia barata, ou se se preferir, o porreirismo português é a máscara que encontramos para nos cobrirmos com a mesma manta bem como para evitarmos ter de encarar, de frente, os problemas e os conflitos.

O que nos leva a exercer o direito de crítica ou em forma de peixeirada novoriquista ou, o que é mais comum, a fazê-lo de forma velada e indirecta – de preferência pelas costas – com o temor reverencial de represálias.

No fundo o português – apesar dos mais de trinta anos de democracia – ainda não se conseguiu libertar do medo de ser castigado por exercer a liberdade de expressão, de forma nua e crua.

Tem um medo subliminar de poder ser prejudicado nisto ou naquilo porque sabe que o sistema da simpatia barata ou do porreirismo se baseia num pacto de não agressão. Tu coças-me as costas que eu coçarei as tuas.

Sendo o modelo português baseado no compadrio - não na meritocracia -a regra de ouro é, precisamente, a fuga ao confronto e à crítica frontal. Em contraste com a cultura do mérito que exige transparência e frontalidade.

E o português dificilmente aceita uma crítica sem a personalizar, ou seja sem a sentir como uma ofensa pessoal. Situação que nos Açores é especialmente aguda tornando as relações profissionais e de trabalho numa verdadeira filigrana de frases indirectas e subentendidos.

O que conduz a uma laboriosa teia de compromissos que, por seu turno, leva a um bloqueio sistemático da melhoria dos serviços, nomeadamente dos públicos, e por essa via se constitui num obstáculo intransponível para o desenvolvimento e o progresso.

Quando chega a altura de assumir uma crítica ou uma acusação escrevendo o nome por baixo muito pouco gente o faz abrindo, desse modo, a porta à perpetuação do mediocridade quando não mesmo da corrupção.

Ser frontal e directo, embora de forma correcta, é apanágio de uma democracia consolidada e madura e constitui por isso uma ferramenta indispensável para construir um futuro com esperança.

Sendo indispensável falar, cada vez menos, do que não interessa para falar, cada vez mais, do que interessa. Abandonando os “brandes costumes” para assumir costumes saudáveis ou, o mesmo é dizer, assumir as responsabilidades pelos nossos actos.

O mexerico é uma forma menor de viver em comunidade. Uma forma de estar que vive da sombra, do negativo e da ignorância – um verdadeiro sub produto cultural. É bem tempo de procurarmos a luz, o positivo e a sabedoria.


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sexta-feira, junho 30, 2006

Dar ou ajudar

Quem dá o pão dá a educação




Dar ou ajudar?


Uma das bandeiras de certa esquerda tem sido o rendimento mínimo garantido que, por seu turno, tem sido um dos cavalos de batalha de certa direita contra a dita esquerda.

Uns porque acham que o estado tem obrigações sociais devendo proteger os mais desfavorecidos, garantindo a todos os cidadãos as condições mínimas de vida. Os outros porque acham que tal filosofia abre as portas aos abusos.

Tornando numa contenda política aquilo que deveria ser consensual: o estado, ou seja todos nós enquanto comunidade, deve assegurar a protecção dos mais desfavorecidos sejam crianças, idosos ou simplesmente cidadãos carenciados.

Em vez de centrar o debate na necessidade de assegurar um diagnóstico correcto de quem realmente precisa e o modo mais adequado de assegurar que as necessidades detectadas sejam satisfeitas.

Mas, como acontece com tantas outras coisas, produziu-se um monte de legislação e não se acautela o dignóstico social adequado que passa por serviços sociais que estando no terreno consigam carrear para os processos uma informação fidedigna e global.

Não serão as declarações de IRS e outros meios de prova idênticos que irão provar o que quer que seja. Sobretudo num país em que é conhecida a evasão fiscal endémica e a fuga ao cumprimento da lei como forma de vida.

O que torna indispensável a presença no terreno de equipas sociais multidisciplinares que saindo dos gabinetes cruzem informação e assegurem a compreensão dos tecidos sociais urbanos e rurais que geram fenómenos de marginalidade e exclusão.

Não a existência de burocratas que se limitem a distribuir subsídios e benefícios com base em lamúrias e aspectos que, tantas vezes, são laboriosamente engendrados para gerarem compaixão. O famoso fado do coitadinho, tão português.

O estado precisa de ter um diagnóstico minucioso de quem necessita mas também precisa - e nada menos importante - de perceber porque precisam. Dado que precisar não é sinónimo de ser elegível para ajuda.

Quantos precisam apenas porque esbanjam ou porque não estão de todo disponíveis para trabalhar antes procurando explorar as falhas do sistema? Quantos não usam situações de compadrio ou de oportunismo partidário?

O estado precisa de conhecer, com precisão, quem precisa e quais as razões exactas porque esses cidadãos não conseguem assegurar a si próprios as condições mínimas de vida.

E de seguida assegurar que essas razões sejam ultrapassadas ajudando mediante condições e contrapartidas por parte de quem recebe que tornem todo o processo sustentável e irreversível.

Todos nós conhecemos situações de gritantes carências sem grande hipótese de serem ultrapassadas em definitivo. Mas todos nós conhecemos também muito mais situações de puro oportunismo e aproveitamento do sistema.

Uma verdadeira prática de solidariedade social não se pode basear na simples prática do dar. Mas antes terá que se basear na prática do ajudar com vista a corrigir assimetrias e desigualdades que não são da responsabilidade de quem as sofre.

Prática do ajudar que terá que ser efectivada com todo o rigor e disciplina. Não permitindo que ajuda se limite a ser o passaporte para a perpetuação de uma situação de carência ou marginalidade ultrapassável.

O que, como toda a gente sabe, não é tradição neste nosso país à beira mar plantado que se dá ao luxo de quase parar por causa de uns quantos jogos de futebol não se preocupando, por aí além, com os nossos múltiplos défices estruturais!


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sexta-feira, junho 16, 2006

O País de Camões ou uma anarquia galopante?

F A C E O C U L T A



Só temos passado à nossa disposição
Eduardo Lourenço



O País de Camões
ou
Uma anarquia galopante?


A passagem de mais um Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades é, sempre, uma boa oportunidade para uma reflexão. Tão necessitados que estamos de encontrar um caminho para o desenvolvimento e para a modernidade.

Um caminho lúcido, capaz de casar os imperativos sociais e económicos com o respeito pelo ambiente/natureza e pela manutenção de uma escala humana susceptível de assegurar qualidade de vida.

Qualidade de vida sem a qual não haverá desenvolvimento que valha a pena. Mesmo que “compensado” por um consumismo que, normalmente, só atrapalha ainda mais em vez de ajudar.

Não sendo os portugueses e correlativos governos menos capazes do que outras nacionalidades – bem mais sucedidas – será de crer que tudo tem a ver com atitudes e correspondentes desempenhos cívicos.

Continuando os portugueses a comportarem-se como se o estado não fossem eles próprios e os governos a tratarem os portugueses como fossem crianças mimadas a que quem é preciso fazer todas as vontades.

Resvalando-se, desse modo, para uma anarquia crescente em que o estado de direito se dilui em retóricas inconsequentes com os tribunais entupidos e a administração, quer central quer local, a não assegurar o cumprimento da lei.

A polícia não actua ou diz que não pode, ou não vale sequer a pena, actuar. Os alunos andam à batatada uns com os outros e com os professores sob a complacência destes e das estruturas directivas das escolas.


Os trabalhadores não produzem e os empresários não inovam. Os serviços de assistência social continuam a criar condições para a manutenção de um exército de parasitas sociais em vez de ajudarem quem precisa (sim) mas mediante contrapartidas de trabalho e reintegração.

Os partidos políticos continuam a caça ao voto em vez de assegurarem a concretização dos seus projectos políticos e os eleitores continuam a usar o voto como moeda de troca para obtenção de benesses em vez do exercício de uma cidadania consciente.

A religião continua ser um faz-de-conta-social em vez de uma ferramenta espiritual capaz de ajudar os putativos crentes a encontrar as forças necessárias para o combate contra o desespero, a descrença e a falta de auto estima.

Portugal – o País de Camões – não pode contar apenas com o passado. Tem que saber encontrar um caminho para o futuro que ponha termo à irresponsabilidade, à paralisia e à anarquia.

O estado são todos os portugueses e é tempo – como bem lembrou o Presidente da República parafraseando John Kennedy – que passem a pensar mais naquilo que podem fazer pelo país em vez daquilo que o país pode fazer por eles.

Ou, como dizia Ghandi, que passem primeiro a mudar em si aquilo que quereriam ver mudado no país. Sendo, por conseguinte, uma grande viagem aquela que os portugueses têm pela frente mas que terá, inevitavelmente, de começar com um primeiro pequeno passo.

Sob pena de caminharmos todos, a passos largos, para uma anarquia galopante.





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sexta-feira, junho 02, 2006

A licença para o macaco

A licença para o macaco


Num dos velhos filmes da Pantera Cor de Rosa havia uma cena contracenada por Peter Sellers que retive até hoje, não só pelo lado cómico mas também pelo profundo significado que encerrava.

Quando passeava um pequeno macaco pelas ruas de Paris o Inspector Closeau (Peter Sellers) foi abordado por um polícia que lhe pediu a licença para o macaco. Irritado Closeau questionou a necessidade de ter uma licença para passear o macaco na rua.

Palavra puxa palavra e a discussão prolongou-se em tom acalorado. Enquanto isto, nas costas de ambos, um gupo de ladrões assaltava um banco e saqueava a seu belo prazer – sem que nenhum dos dois (ambos polícias) – se apercebesse do que se estava a passar...

Uma das razões porque retive esta cena de um filme com mais de 20 anos tinha e tem a ver com maneira caricata como a nossa burocracia, tantas vezes, valoriza os aspectos formais das leis e regulamentos pouco se preocupando com os objectivos que se pretendem atingir.

Embora sejam bem conhecidas as dificuldades na interpretação da lei – atestadas pelas divergêncais profundas que, tantas vezes, os próprios juristas exibem na interpretação de um texto – verificamos que a grande maioria dos agentes da nossa administração exibe, por norma, um grande fundamentalismo.

Não sendo a maioria deles licencidos em direito (e mesmo que o fossem) assumem interpretações literais ou mesmo profundamente subjectivas que não deixam grandes alternativas ao cidadão comum que não terá outro remédio senão recorrer a um advogado.

Portugal é, de si, um país cheio de leis e regulamentos a que se devem acrescentar as directivas de Bruxelas que são sobejamente conhecidas pelo seu frequente desajustamento em relação às variadas realidades nacionais.

E é assim que, “em nome da lei”, se criam entraves intermináveis ao cidadão e se desmobilizam pessoas empreendedoras e criativas que desistem dos seus investimentos face a exigências legais (?) incompreensíveis.

Sem que, em tempo útil, se consiga ultrapassar aquilo que, tantas vezes, não passa de uma interpretação subjectiva (para não dizer ignorante) da lei. Os recursos são, habitualmente, extremamente morosos e dispendiosos quando não são mesmo impossíveis.

Numa região periférica como os Açores em que tudo é mais díficil e complicado esta realidade transforma-se num verdadeiro freio ao desenvolvimento matando, à partida, o empreendorismo de que agora tanto se começa a falar.

O comum é verem-se pessoas muito mais preocupaas com a “licença para o macaco” do que com os verdeiros assaltos ao nosso desenvolvimento que por aí se verificam, todos os dias.

Não basta criar sistemas de incentivos – embora isso seja de capital importância - para o investimento. É, igualmente, necessário criar uma administração ágil e célere que não mate na secretaria aquilo que deveria o cerne do nosso futuro.

Sem empreendorismo e iniciativa privada não é possível fazer desenvolvimento económico. Mas não há iniciativa que resista a sistemáticas barreiras burocráticas e à falta de um sistema de recurso rápido, eficiente e barato.

Só resistirão os que já possuem um grande poder económico e uma boa capacidade de resposta jurídica. Os outros, incluindo os jovens, ficarão pelo caminho – desalentados senão mesmo falidos.

Que deixem de ser necessárias as licenças para os macacos.




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quarta-feira, maio 17, 2006

Boa Gente

Portugal é o país europeu com maiores desigualdades sociais
Dos jornais



B O A G E N T E


Os portugueses são, indiscutivelmente, boa gente.

São afáveis, simpáticos e afectuosos. São capazes das maiores peixeiradas e barbaridades verbais que, normalmente, não concretizam esperando, antes, por uma oportunidade para caírem nos braços uns dos outros.

Gostam de ter muitos amigos e usam a palavra com a maior facilidade: uma pessoa amiga, somos muito amigos etc. Mas esse aparente culto da amizade é, muitas vezes, assente numa grande inconsistência.

São de lágrima fácil e de emotividade subcutânea – uns adeptos incondicionais do porreirismo, termo possivelmente inventado por portugueses. São uns gajos porreiros num país porreiro.

Gostam de comer e beber bem e não há festa, comemoração ou mesmo evento político que valha a pena sem comes nem bebes.

E a culinária portuguesa traduz isso mesmo: pesada e de longa digestão, a convidar a uma boa sesta depois de umas conversas porreiras temperadas por um bom rebatente.

Para não falar no almoço – uma verdadeira instituição nacional. Desculpe mas o senhor está almoçar, saiu para almoçar ou saiu para almoçar e ainda não voltou. Uma instituição intocável que tem agora a variante tecnocrática dos almoços de trabalho.

Gostam de discutir, guerrear e libertar adrenalina mas não gostam do confronto frontal e directo. Na altura da verdade quedam-se, geralmente, por paninhos quentes que não ofendam e não venham pôr em causa o porreirismo.

Por isso mesmo, apesar dos mais de trinta anos de democracia, a má-língua e a coscuvilhice continuam a ser dos jogos sociais mais praticados. Acontecendo aos mais variados níveis e atingindo transversalmente a sociedade portuguesa: desde o camponês ao ministro.


O advento dos partidos, das eleições e do poder assente no voto, tornou este na verdadeira moeda de troca da sociedade portuguesa. O escudo desapareceu mas o voto continua e é realmente o que conta, desde a autarquia local ao governo.

Há muito tempo que os portugueses gerem o seu voto em função daquilo que lhe parecem ser os seus interesses mais imediatos ou as eventuais vantagens que dele possam tirar. Disponíveis para todas as manobras de assédio interesseiro, disciplina em que os políticos (com honrosa excepções) se tornaram exímios.

Todos os portugueses acham que é fundamental fazer grandes reformas, mudar as mentalidades e investir na educação. Mas desde que seja apenas para o vizinho.

Não há português que não ache que isto vai mal e, quase todos, têm uma fórmula mágica que usariam se estivessem no lugar de quem manda. Fórmula que, por ironia, os que mandam parecem não ter…

Se alguém incauto aterrasse em Portugal e não soubesse que o país está em crise pensaria exactamente o contrário. Até, possivelmente, iria pensar que o números de desempregados está errado tal a displicência com que os empregados tratam os seus postos de trabalho.

Os mesmos portugueses que quando emigram até se tornam excelentes e cumpridores trabalhadores. Como tivesse sido suficiente terem, apenas, mudado de contexto social e cultural e não poderem depender, sómente, do votito e do porreirismo para sobreviverem.

Boa gente, os portugueses.





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