sexta-feira, dezembro 04, 2009

Os minaretes da Suíça

Os minaretes da Suíça


Os minaretes são torres que existem, habitualmente, nas mesquitas e que se destinam a fazer os cincos chamamentos diários para as orações muçulmanas e que, tradicionalmente, são feitos pelos almuadem.

Os almuadem são os encarregados de fazer esse chamamento que é feito em forma de um cantar monocórdico com alusões a Ala e a Maomé. Prática que faz parte, também, do exotismo de muitos países árabes sobretudo ao anoitecer.

As orações são feitas no interior das mesquitas e em nada dependem directamente dos chamamentos feitos dos minaretes pelo que a sua existência, ou não, em nada coarcta a livre prática religiosa, um indiscutível pilar da democracia.

Na Suíça os muçulmanos representam cerca de 5% da população e, para alem de três mesquitas com minaretes, tem uma vasta rede de mesquitas e locais de oração que asseguram a sua prática religiosa.

Os três minaretes existentes na Suíça deixaram há muito de ser utilizados para os chamamentos das orações constituindo apenas um pormenor arquitectónico das mesquitas não tendo qualquer utilidade prática.

Desconhece-se, em absoluto, limitações à prática religiosa na Suíça. Seja da religião muçulmana ou qualquer outra. Sendo no entanto bem conhecida a intolerância religiosa nos países em que o islamismo controla a política.

No referendo efectuado naquele país apenas se decidiu a autorização ou não da construção de minaretes e nunca qualquer restrição à livre pratica religiosa. Somente se decidiu se os minaretes também podem fazer parte da paisagem suíça.

Sendo a Suíça um país soberano e que preza muito, e com toda a legitimidade, a sua identidade cultural e paisagística tem todo direito democrático de decidir sobre uma matéria que só foi notícia porque não é, actualmente, politicamente correcto ser considerado intolerante religioso.


Sendo a região islâmica aquela em que o fenómeno do fundamentalismo é mais evidente não deixa de ser irónico que a mera construção de um pormenor arquitectónico que, ainda por cima, é tipicamente árabe num país europeu seja notícia de intolerância religiosa!

Tanto quanto se sabe os muçulmanos são inteiramente livres de praticar a sua religião na Suíça ou em qualquer país europeu. Podendo para o efeito construir, alugar ou pedir emprestados os seus locais de culto. Não tendo a questão dos minaretes nada a ver com o caso.

Os suíços entenderam que não queriam a sua paisagem típica e, simultaneamente, marca turística descaracterizada por torres que nada têm a ver com ela. Estão no seu pleno direito.

O resto é conversa de quem ainda não percebeu que sendo a liberdade sendo um bem precioso não pode, jamais, servir de pretexto para dar cobertura democrática a quem não a pratica.

Liberdade sim, mas para tudo. Mesmo para dizer que não.


PEDRO DAMASCENO

sexta-feira, novembro 06, 2009

Quando o ilógico se torna rotina

Quando o ilógico se torna rotina



Totalmente remodelado o aeroporto do Pico, percebidos os desafios das acessibilidades e as especificidades das três ilhas do triângulo tudo parecia encaminhar-se para a coordenação e a complementaridades dos transportes.

Mas nada mais longe da realidade.

Tudo continua a acontecer como se as três ilhas pouco ou nada tenham a ver umas como as outras, como se o aeroporto do Pico seja um mero fait-divers não um investimento com objectivos claros e como se a Transmaçor fosse uma libelinha tonta.

Não há coordenação, complementaridade ou simplesmente lógica. Os voos da TAP para a Horta continuam a ter horários como se apenas servissem a Ilha do Faial, a Transmaçor continua a não perceber que aqueles voos trazem, invariavelmente, passageiros para o Pico e este continua a ter uma ridícula desobriga semanal da TAP.

E não adianta pregar ou barafustar. Continuam todos de costas olimpicamente voltadas continuando a ser possível ver o Cruzeiro do Canal ainda dentro do porto da Horta depois de um rally iniciado no aeroporto de Castelo Branco ou a ter dias em que não há voos nem para o Pico nem para o Faial.

A descoordenação é tão chocante que parece ser propositada. Recursos que se desperdiçam, tempos de pessoas que se desprezam e oportunidades que se perdem.

Situação que assume contornos surrealistas quando experimentada por quem nos visita e desconhece as nossas idiossincrasias de antanho. Pessoas que ficam sem vontade de voltar, sobretudo em época baixa.

Parece ter sido tudo planeado ao milímetro para não funcionar.


Sendo a única pedrada neste nosso charco, as viagens diárias e todo ano para São Jorge de parto bem difícil mas que irão, certamente, consolidar o triângulo e tornar os jorgenses nossos efectivos parceiros.

Quando a lógica e o bom senso apontam para a necessidade absoluta de evitar desperdícios e maximizar recursos parece não ser possível coordenar Transmaçor, SATA e TAP criando condições de diálogo e cooperação.

O que falta?

Falta, com toda a certeza, a percepção e a interiorização do conceito de triângulo e de proximidade que existe neste mini-arquipélago, tão próximo e tão distante. Como falta o exercício de uma cidadania do triângulo em detrimento dos bairrismos de ilha ou de concelho.

Algumas apostas estão lançadas embora as nuvens permaneçam. Resta agora saber concretizar no terreno uma lógica de união e de procura de sinergias que venham tornar esta zona do Arquipélago num ainda mais apetecível lugar para se viver e num empolgante destino turístico.

E que, sobretudo, torne o lógico em rotina.



P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, outubro 16, 2009

Eu, também, sou negro

Eu, também, sou negro.


A polémica gerada em torno da atribuição do Premio Nobel da Paz a Barack Obama possibilitou uma análise, mais profunda dos fundamentos para a atribuição do galardão.

Com gente a favor e gente contra, mas centrando o debate essencialmente nos méritos ou deméritos do presidente americano para o receber. Esquecendo que a Academia Sueca também o tem atribuído para sublinhar causas,

Foi assim no Médio Oriente (Sadat e Begin), em Timor (Ramos Horta e Ximenes Belo) e foi também por uma causa que foi atribuído a Al Gore. Foi assim quando foi atribuído a instituições como as Nações Unidas ou a Agencia Internacional da Energia Atómica.

A Barack Obama foi atribuído por pelos seus esforços para reforçar o papel da diplomacia internacional e a cooperação entre os povos e tem o objectivo evidente de apoiar a paz e a concórdia.

Sendo os Estados Unidos, ainda, a maior potência militar do globo está-lhe reservado um papel central na procura e consolidação da paz. Tendo Obama sucedido ao militarista Bush ficou claro que os americanos depositaram, também, naquele um grande capital de esperança,

A eleição de Obama representou para os Estado Unidos uma verdadeira revolução: negro, democrata, verde e pacifista. Tudo aquilo que Bush não era e que nos deixou um travo amargo de mediocridade, arrogância e militarismo.

Ser negro é uma forma de vida tão válida e necessária como qualquer outra. Mas eleger, em 2008, um negro para a Presidência dos Estado Unidos representou um salto gigante a favor das causas da igualdade e da paz.

Barack Obama ao conseguir fazer eleger-se e dispor-se a correr um constante risco de vida num país com tradição de assassinar presidentes, tornou-se num dos meus heróis.

Sendo apenas um homem tem, fatalmente, defeitos e virtudes como todos nós. Mas é um homem de coragem e resiliência fora do comum. Um homem que representa um marco na história recente da América.

Penso ser lícito pensar que o Nobel foi atribuído mais àquilo que Obama representa do que a ele próprio. Ou melhor, é impossível dissociar a pessoa das causas que defende e do trabalho que tem pela frente.

A atribuição do prémio representa, por isso, um forte sinal de reconhecimento por parte de um país europeu da necessidade da cooperação transatlântica e um grande incentivo para as colossais tarefas da paz e da justiça.

E Obama vai precisar de todo o apoio que consiga reunir.

A sua eleição foi apenas um primeiro passo para a grande caminhada que visa mudar o paradigma das relações entre as nações e o equilíbrio entre pobres ricos e entre norte e sul.

Por tudo isso eu, também, sou um negro. Com o mesmo espírito que Kennedy afirmou ser um berlinense em 1963 junto ao muro de má memória. Bem haja Real Academia Sueca dos Prémios Nobel!


PEDRO DAMASCENO

sexta-feira, setembro 18, 2009

"Fuck them"

Fuck them
Alberto João Jardim dirigindo-se a jornalistas


“Fuck them”


Qualquer pessoa que perceba, minimamente bem, inglês sabe que o título desta crónica é do mais ordinário que se pode dizer na língua de William Shakespeare. Embora comum hoje em dia, mas muito ordinário em qualquer dos casos.

Então porque o escolhi?

Porque foi essa a expressão que o Presidente do Governo Regional da Madeira entendeu adequada para mimosear os jornalistas que indagaram das razões porque Manuela Ferreira Leite usou automóveis do Governo Regional na sua visita partidária à Madeira.

Expressão que dita publicamente (tendo sido transmitida pela TV) se enquadrava, até 1983, num crime público. Tendo sido despenalizada não deixa, por isso, de ser totalmente ofensiva e inadequada ainda agora.

E perante tudo isto, mais uma vez, nada aconteceu!

O Presidente da República a banhos em Boliqueime. E o resto do pessoal a encolher os ombros e a acomodar-se, novamente, aos destemperos (de que origem?) daquele que se apresenta como o bobo de serviço na Corte da Madeira.

Penso que nem Benito Mussolini, pese embora a sua forte veia de palhaço, foi tão longe.

É difícil perceber como um país que se indigna tão violentamente com a suspensão do noticiário da Senhora Manuela Moura Guedes não reaja ao facto de um Presidente de Governo Regional mandar “foder”, em alto e bom som e com todas as letras, os jornalistas!

E não consta que o respectivo Sindicato tenha decidido tomar alguma atitude e, muito menos, que a AACS (Alta Autoridade para a Comunicação Social) tenha tomado posição sobre o assunto.

Embora seja público e notório, desde há muito tempo, que o Dr. Alberto João Jardim deixou de ter condições para exercer um cargo de tal importância.

Não só pela mais elementar falta de boa educação e respeito pelos outros como, sobretudo, pelo desrespeito provocatório, trauliteiro e sistemático dos órgãos de soberania nacional num exemplo flagrante de ausência de sentido de estado e de cultura politica e democrática.

Só não vê quem não quer ver. O eterno argumento de que arrecada sempre o voto popular é, no mínimo, patético. Como se toda a gente não soubesse como estas coisas se fazem com o beneplácito de um regime democrático frouxo.

O que torna o regime da Madeira num exemplo paradigmático das perversões da democracia quando ela é entendida como um simples ir a votos. E, o mesmo é dizer, da ileteracia e do caciquismo que ainda se vive em Portugal. Pragas de que não nos livraremos enquanto houver, no activo, semelhantes políticos.

Mas tudo isto é bater em ferro frio porque, há muito, que a democracia portuguesa se afunda num conformismo exasperante e num aparente complexo do exercício da autoridade com a óbvia falência do normal funcional das suas instituições.

Mas lá que irrita e machuca, é verdade.


PEDRO DAMASCENO

sexta-feira, setembro 04, 2009

A insustentável leveza da nossa democracia

nunca ninguém nos presta contas de coisa alguma
Ricardo Costa




A insustentável leveza da nossa democracia



Aproximam-se novos actos eleitorais e aí está a parafrenalia promocional. Cartazes, cores, frases e - mais tarde - tea-shirts, esferográficas, bonés e mais cartazes e frases. E muita barulheira.

Chegou o zénite da nossa democracia: as campanhas eleitorais. As máquinas partidárias aquecem os motores e os militantes acordam depois de uma longa hibernação. Os escritórios desertos animam-se de novo.

Os programas e folhetos que praticamente ninguém lerá (porque não vale a pena?) saem para a rua. Provavelmente a sua aplicação nunca será monitorizada, de forma transparente e sistemática, fado a que já nos habituámos ao longo dos mais de 30 anos da nossa democracia.

Fica tudo mesmo assim.

Os partidos políticos empenham-se, nova e encarniçadamente, na luta pelo poder. O que, na prática, acaba por ser o seu grande objectivo pesem as listagens de soluções, mais ou menos milagrosas, que sempre propõem para salvar o país.

Não questionando as boas intenções - que dessas está o inferno cheio – fica a ideia de que os programas são uma chatisse. E que servem sobretudo para serem argumentos em sede de debates que, mesmo assim, quase sempre descambam para diatribes pessoais.

A grande maioria dos leitores submerge perante a avalanche inusitada de informação e de interesse pelas suas anónimas pessoas que, na véspera, não constavam do mapa e agora recebem resmas de apertos de mãos e de pancadas nas costas.

Vindos de um grande vazio de militância partidária e ideológica e de activismo cívico os eleitores são, de repente, o centro de todas as atenções. Uns mordem a isca mas um grande número desconfia e fica em casa. Uma minoria mais politizada vai tentando fazer navegação à vista e votar útil

Crescentemente.

Longe vão os tempos do debate político convicto e participado. E assim vai a insustentável leveza desta nossa democracia que persiste em tornar a política num circo feérico e mediático em que a imagem vale quase tudo e a substância quase nada.

A abstenção dispara e o interesse cai a pique. O recrutamento dos políticos entra numa crise semelhante ao recrutamento de sacerdotes. Quem não pode caçar com cão caça com gato e portanto que venha a nós quem quer e não quem é preciso.

É necessário lutar pela democracia porque não há alternativa. É necessário defender os partidos porque sem eles não há democracia. Mas ainda bem que há vida para além deles e dos períodos eleitorais e talvez seja essa mesma a chave para o futuro.


PEDRO DAMASCENO

sexta-feira, agosto 21, 2009

A dança dos transportes

A dança dos transportes



Um arquipélago de nove ilhas, com pretensões a ser destino turístico, como os Açores tem que ter uma política que assegure transportes eficientes, fiáveis e de custo aceitável.

A nossa condição a isso obriga.

Contudo as complicações, desencontros, insuficiências e preços dos nossos transportes não auguram nada de bom. Viajar de avião entre as ilhas continua a ser proibitivamente caro e de barco uma aventura.

Verdade para toda a Região mas, ainda mais verdade, para as ilhas do Triângulo e Flores. Por aqui o aeroporto do Pico jaz morto e apodrece e as ligações marítimas com São Jorge são o que são.

Restando a esperança que as reiteradas promessas políticas de ligações diárias e todo ano com a Ilha do Dragão tenham, já este ano, concretização. E que, finalmente, a novela do abastecimento de combustível às aeronaves no aeroporto do Pico termine.

Esperando-se, também, que os cancelamentos do aeroporto da Horta não continuem a significar aterragens na Terceira e regresso a Lisboa transformando uma viagem de duas horas e meia em sete horas e meia. Assim não há turismo que resista.

Como se espera que o horários publicados pela Transmaçor na Internet correspondam aos horários efectivamente praticados. Ninguém acredita que essa discrepância possa existir mas a verdade é que existe e muito boa gente perdeu ligações por isso mesmo!

Passados dois anos sobre a inauguração do aeroporto e da realização de investimento de 25 milhões de euros, o Pico continua a ser tudo menos um aeroporto alternativo ao da Horta e, ainda menos, uma gateway da Região. Cheirando o voo semanal a mera desobriga política.

Do outro lado do Canal de Vitorino Nemésio estão cerca de 10.000 pessoas inquietas para verem a sua Ilha ligada, de forma consistente e eficaz, ao Pico e ao Faial e por terem acesso rápido a uma gateway que lhe permita entrar e sair da Região com a fluidez que as limitações do seu aeroporto não permitem.

Não podemos continuar sujeitos ao livre arbítrio da SATA Internacional e da TAP pesem embora as boas intenções do regulamento de serviço público. Terá que existir um conjunto de procedimentos estandardizados para os cancelamentos. Os pilotos não podem ter a última palavra.

É sabido que a palavra de boca é a melhor forma de promoção mas experiências quase surrealistas que continuam a acontecer, quer de avião quer de barco, não auguram nada de bom. Já basta o nosso destino ser caro.

O desafio está, sem dúvida, dos lado dos políticos que não podem continuar esconder-se por trás da teoria que o mercado é que funciona mas está também do lado dos empresários e respectivas associações.

O dossier dos transportes é muito complexo não se compadecendo com visões e reivindicações simplistas e, muito menos, com medidas avulsas. É indispensável pegar nele com uma atitude fresca e isenta de preconceitos num ambiente de diálogo e concertação.

Ou então continuaremos a ser somente um potencial destino turístico e um negócio de apenas dois meses por ano.


PEDRO DAMASCENO

sexta-feira, agosto 07, 2009

O POLVO

O POLVO

Sem dúvida que existem excepções na Administração Pública: pessoas competentes, empenhadas e diligentes. Mas não passam disso mesmo, excepções.

O resto é uma máquina pesada, ineficiente e caríssima que asfixia este país.

Atingindo todos os sectores mesmo os mais nevrálgicos como a Saúde, a Educação e a Justiça. E não há estado de direito que resista, por muito perfeita que sejam a Constituição e as leis.

Tendo os agentes dessa administração a noção, correcta alias, que os seus votos são um peso decisivo no “jogo” democrático e que, por conseguinte, não há partido, com ambições de poder, que se “atreva” a desafiá-los.

E assim tem sido desde o 25 de Abril. O que leva a que saudosos do salazarismo e outros-que-melhor-não-entendem façam apelos ao regresso ao passado.

Confundindo tudo. Porque o que este país precisa não é de uma versão reciclada do dinossauro excelentíssimo mas sim de uma autoridade democrática que cumpra e faça cumprir as leis.

Uma autoridade constituída com base no voto e no sufrágio popular mas que se decida a servir e não a servir-se. Que saiba usar, sem tibiezas ou complexos, a autoridade que lhe foi conferida para defender os cidadãos e os seus direitos.

Sobretudo num país em que a ileteracia ainda tem um peso muitíssimo significativo e aonde as tradições democráticas são muito recentes e que, por isso mesmo, precisam de ser consolidadas pelo exemplo que tem que vir precisamente da classe política e dos agentes da administração.

Muito se escrito sobre isto, muito tem se tem barafustado mas sem resultados à vista. A abstenção aumenta sistematicamente e os exemplos que por ai abundam em nada ajudam.

Veja-se o último caso bem ilustrativo da javardisse a que chegou a política portuguesa. Um politico é condenado em tribunal a prisão efectiva e a perda de mandato e tudo o que se lembra é de começar, nesse momento, a sua campanha para as próximas eleições!

Tudo isto não é normal e atesta, eloquentemente, a degradação a que chegou a cidadania em Portugal. Uns fingem que não estão a ver, outros que não percebem e o povinho, esse “coitado”, fica de boca aberta a indagar-se sobre para que servem os tribunais e a justiça.

A nossa democracia bem precisa de uma lufada de ar fresco, que terá de vir de um número crescente de pessoas que, individualmente ou organizadas, passem a exercer uma cidadania esclarecida, interventora e fortemente reivindicativa.

Assim não sendo o polvo não parará de crescer.



P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, julho 24, 2009

São rosas, meu Senhor!

São rosas, meu Senhor!



Faz parte do nosso património religioso e cultural a mentira piedosa que a Rainha D. Isabel pregou ao seu marido, El-Rei D. Dinis. Uma lenda que sempre entusiasma quem a ouve.

Vem isto a propósito ou a despropósito do turismo nos Açores. Considerado um potencial de desenvolvimento económico tem-se sobre ele mantido algumas mentiras piedosas.

Analisando-o sob a perspectiva do aumento do numero de camas e de dormidas tem-se defendido a tese de que o sector mantêm um bom crescimento e que as perspectivas de futuro são animadoras.

Mas basta uma pequena rabanada de vento como a paragem da vinda para São Miguel dos suecos para que seja claro que o negócio do turismo é uma actividade de 3 meses. E o que o resto é um arrastar-se para aí.

O turismo na Região tem inegáveis potencialidades porque temos recursos naturais únicos na Europa e uma estabilidade e segurança invejáveis sendo que os segmentos do turismo de natureza e bem-estar são os que mais crescem.

Contudo os transportes mantêm-se exorbitantemente caros e as acessibilidades inadequadas, faltando um conceito que venha dar uma resposta estruturante para as longuíssimas noites da época baixa.

As mais-valias acumuladas nos três meses de Verão são, rapidamente, comidas pelas despesas do exercício da actividade no longo período em que procura cai abruptamente.

E assim o investimento fica-se mesmo por aí. Sendo bom quando já é possível assegurar as despesas fixas e o serviço da dívida durante todo o ano. Reinvestir torna-se, por conseguinte, crescentemente problemático.

O turismo precisa nos Açores de um grande abanão.

Sendo essencial criar um verdadeiro “brainstorming” que envolva agentes económicos, políticos e, por fim, profissionais internacionais do turismo vocacionados para estabelecer diagnósticos e propor medidas.

Iniciativa e custos que devem caber ao Governo Regional que agora encetou funções e que precisa de encontrar uma resposta cosmopolita, criativa e global para o sector.

Dizer que são rosas o que, verdadeiramente, são espinhos não colhe e, muito menos, serve um objectivo nobre como o defendido pela Rainha D. Isabel. Sendo certo que os tempos são de crise podem, por isso mesmo, aguçar o engenho e a arte.

Fica o desafio.


P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, julho 10, 2009

O Amor em tempo de crise

Em Portugal a aventura acaba na pastelaria
Alexandre O’Neill



O Amor em tempo de crise



De vento em popa lá se foi, ou vai indo, o amor à antiga portuguesa! Um amor previsível e seguro, embora cheio de alçapões, enganos e desenganos. “Amor” de vida inteira, com uma outra facadita à mistura.

Amor de papel assinado e bênção de eterna fidelidade. O homem angariador e dominante, a mulher submissa e mãe de filhos. Deus, Pátria, Família: a Trilogia da Educação Nacional. O lar perfeito, rústico, humilde, analfabeto, patriarcal e cristão.

Sendo certo que nessa altura já havia os ballet rose e outras perversidades do regime que eram, contudo, apenas usufruídas pelos privilegiados dos corredores do poder. E, claro, a burguesia urbana que já fugia ao cenário edílico do mundo rural e agrícola.

25 de Abril, revolução dos cravos e do costumes.

Em pouco mais de trinta anos passa-se de oito para oitenta. A pornografia irrompe nos mais longínquos lugarejos e a televisão torna-se no omnipotente omnipresente meio de comunicação que ainda hoje é.

A mulher assume, progressivamente, um papel socialmente relevante e invade as universidades em que detêm, hoje, uma maioria qualificada. E com a emancipação e a liberdade vêm, inevitavelmente, uma reviravolta radical nos costumes.

A Igreja Católica perde pé e passa a não conseguir impor a sua ortodoxia moralista que durante anos lhe garantiu um lugar privilegiado à mesa dos poderosos. Incapaz de se adaptar aos novos tempos perde sacerdotes e influência.

A moral e o sexo liberalizam-se e o divórcio assume carácter da maior naturalidade. As relações de facto vulgarizam-se estimando-se que no presente já ultrapassam os casamentos. O sexo pré marital tornou-se uma “pandemia”!

A homossexualidade sai do armário e torna-se num lóbi poderoso que já conquistou em muitos países o direito ao casamento. Sendo previsível que o mesmo venha a acontecer em Portugal a curto prazo.

O casamento e a família como as conhecíamos tornaram-se em instituições em vias de desagregação. E, como tudo está em grande ebulição, ainda se não enxerga bem o futuro: famílias mono parentais, pluri parentais, homossexuais, transsexuais?

E o amor? Esse certamente continua, mas irrompe das maneiras mais diversas possíveis. Sem as mascaras de uma sexualidade reprimida ou de sentimentos de culpa, pleno de desejo e de paixão. Saltando os paredões da convenção e assumindo a descoberta.

O amor e a paixão são intemporais mas, como quase tudo o resto, não estarão a resvalar para o “fast” e o descartável? Talvez por isso o amor on-line se tenha tornado quase mais popular do que o propriamente dito.

Os meios de comunicação e a rapidez das telecomunicações tornaram o mundo numa aldeia global mas a comunicação pessoal e directa parece ter-se vido a tornar mais difícil. Passam-se horas no telemóvel e na Internet mas a qualidade da comunicação parece ter piorado.

Ter-se-á somado à crise económica uma crise de afectos de proporções igualmente preocupantes? Será que o consumismo terá inquinado também o coração e o deixado à mercê dos mercados volúveis da moda e do politicamente correcto?


P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, abril 24, 2009

Turismo em tempo de crise

Turismo em tempo de crise

São previsíveis dificuldades no turismo açoriano, como em todo o lado. A retracção do consumo irá, inevitavelmente, reflectir-se num sector de actividade que dele tanto depende.

Não sendo as férias e o passear uma prioridade de primeira linha para a generalidade das pessoas será uma das despesas a reduzir nos orçamentos familiares, mesmo em países de maior desafogo.

Os Açores, sendo um destino caro, não estarão na primeira linha das opções de férias de muita gente. Sobretudo no nosso mercado emissor mais importante que continua, ainda, a ser o continental.

Mas as crises, como tudo na vida, têm coisas más e boas. E, neste caso, as boas serão a possibilidade de reflectirmos, calmamente, na sustentabilidade do nosso modelo de desenvolvimento turístico.

Embora sustentabilidade seja uma palavra que muito se poluiu de tanto ser usada, a propósito de tudo e de nada, não deixa de ser um conceito inteiramente actual e indispensável ao progresso.

Tempos de vacas gordas, geralmente, não convidam muito á reflexão. Estando toda a gente mais ou menos bem, não importa muito filosofar. Nem que se esteja a correr no fio da navalha.

E foi um pouco o que aconteceu na Região. A SATA Internacional tornou-se uma realidade de mais valia – sobretudo pela abertura de rotas directas para os Açores, os mercados emissores expandiram-se e o número de camas e dormidas explodiu.

De um destino quase desconhecido passamos a ter níveis de notoriedade interessantes que foram ampliados por alguns reconhecimentos internacionais como o selecção da vinha do Pico como património mundial ou o painel da National Geographic.

Sendo certo que o aumento exponencial de camas turísticas dos Açores não teve como base um aumento sólido da procura nem se fez com base num conceito de turismo devidamente identificado.

Cresceu-se e pronto.

Agora, em tempo de vacas magras, será a melhor altura para avaliar o que foi feito e para programar o futuro com base numa análise de mercado rigorosa e num conceito que resulte da experiência acumulada, da sensibilidade dos agentes económicos e da vontade dos políticos.

A excessiva confiança não deverá dar lugar ao desânimo. Os Açores são um destino com inegáveis potencialidades nos mercados já estabilizados e noutros – que urge explorar – como os americano e canadiano.

Seria interessante organizar, ao nível da Região, uma mega operação de reflexão sobre o que temos, o que devemos fazer e para onde queremos ir. E tempos de crise são, por natureza, os mais criativos ou não fosse a necessidade a melhor forma de aguçar o engenho.



P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, março 27, 2009

O preservativo da discordia

O preservativo da discórdia


Poderá parecer excessivo voltar à questão das declarações do Papa Bento XVI a propósito do uso do preservativo. Contudo foram feitas no âmbito da sua visita a África, continente aonde vivem 70% dos infectados com a Sida.

Uma epidemia de proporções colossais e cuja erradicação passa pela tomada de medidas muito drásticas e que não se compadecem com leituras da vida completamente desajustados dos dias em que vivemos.

Tecnicamente é um facto indiscutível que a prevenção primária da Sida, para além da irrealista abstinência, passa pela utilização de uma barreira física que impeça a contaminação. E que essa barreira se chama preservativo.

Esta é, por conseguinte, uma questão básica de Saúde Pública. Que tem levado a que a generalidade dos países ocidentais faça campanhas de utilização do preservativo. Com o apoio explicito e activo da Organização Mundial de Saúde.

O que difere a Sida de outras doenças contagiosas também muito graves é o facto de ser uma doença tipicamente adquirida por via sexual, embora o possa ser de outros modos. Facto que não a desqualifica como um verdadeiro flagelo.

Sendo o sexo a forma, habitual e corrente, de propagar a espécie humana e, simultaneamente, o resultado de um dos instintos nucleares do homo sapiens fácil será perceber que o combate à Sida tem pela frente um obstáculo formidável.

Tentar limitar o seu combate à abstinência sexual e a monogamia será, pelo menos, tão difícil como abrir, outra vez, as águas do Mar Vermelho. Sobretudo se atendermos a culturas tão diferentes, perante o sexo, como as africanas.

A questão da utilização do preservativo é, desse modo, uma questão que ultrapassa de todo as questões da moral em abstracto para se ter tornado num imperativo cívico para quem quer erradicar uma doença tão grave e que atinge milhões de inocentes, nomeadamente crianças.

A Igreja Católica tem como organização religiosa tem todo o direito de assumir as posturas morais que entender adequadas mas não deveria em nome dessas posturas fazer contracorrente em relação a uma medida de prevenção da doença tão importante como é preservativo.

O Papa, em vésperas de visitar África, poderia ter escolhido outro tema mais adequado como as ditaduras, a corrupção e a miséria. Situações endémicas nesse continente tão prodigioso e, ao mesmo tempo, tão carente.

A mensagem de Cristo foi – exemplarmente – uma mensagem de compaixão e solidariedade. Um Cristo humilde e profundamente tolerante que fez do amor o centro da sua vida.

Custa, agora, ver o seu sucessor perorar, do alto dos seus brocados, sobre uma moral pequenina que vê o mundo através do buraco da fechadura do Vaticano e se esquece do mundo de sofrimento e miséria que gravita em torno de uma doença perfeitamente evitável.


P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, março 13, 2009

Criar Riqueza

Para distribuir é preciso criar riqueza.
José antónio saraiva



Criar Riqueza


São impressionantes palavras recentes de Francisco Louçã. A propósito de uma operação de crédito da CGD afirmou que os 62 milhões dados a um empresário dariam para pagar 100 mil subsídios de desemprego.

Não se sabendo se os 62 milhões foram efectivamente dados a um empresário, esse dado também não é essencial. Porque a crítica não veio no sentido de saber se esse empresário cria riqueza real e postos de trabalho.

Até pode ter sido uma daquelas de situações de compadrio de “alta finança” que têm assolado a país e a comunidade internacional. Até pode ter sido uma daquelas situações em que foi o empresário a lucrar pessoalmente com a negociata.

E aí, temos que concordar, teria que haver responsáveis sobretudo por se tratar da CGD que é na prática o Banco do Estado. Mas o que ressaltou do que disse Louçã não foi o protesto por uma eventual falcatrua ou um negócio doloso.

A crítica veio para defender a tese da subsidiação do desemprego como se este fosse combatível por essa via. O desemprego existe, tem crescido e ameaça tornar-se um problema social da maior gravidade. Quer em Portugal quer no mundo.

Sendo essencial combater o desemprego como é indispensável ajudar quem realmente não o tem ou a ele não tem genuinamente acesso. Porque o subsídio de desemprego ainda representa para muita gente uma forma de garantir absentismo.

A precariedade e escassez de emprego são hoje realidades incontornáveis. Mas essa realidade combate-se criando riqueza que permita assegurar postos de trabalho e quem cria riqueza são, salvo melhor opinião e correlativa demonstração, os empreendedores e os empresários.

O Estado cria postos de trabalho que são necessários ao funcionamento do país mas todos bem sabemos que se tratam de postos de trabalho sui generis para não lhes chamar outra coisa. Sui generis porque não se baseiam numa lógica de produção-remuneração-responsabilização-manutenção.

São postos de trabalhos vitalícios e inamovíveis. Muito pouco ou nada dependentes de qualquer cadeia hierárquica e disciplinadora e que usufruem de uma política de reformas inexistente para quem trabalha por conta de outrem na privada.

Esses postos de trabalho não dependem nem do mercado e, muito menos, da boa gestão. Dependem do orçamento do estado e como este, em princípio não vai à falência os outros factores não são relevantes.

Mas os postos de trabalho públicos são finitos.

E para criar postos de trabalho é necessário criar riqueza. Porque para os remunerar há que ter dinheiro e não há dinheiro, de forma sustentada, que não corresponda a criação de riqueza. Riqueza que aliás possibilita ao estado a cobrança de impostos, fonte essencial da sua receita.

De modo que impressiona que Louçã, um economista e universitário, venha usar tão infantil demagogia. Tudo o que é mau é mau, sejam políticos empresários, banqueiros, trabalhadores, etc. Não há, apenas, bons de um lado e maus do outro.

Postos de trabalho só se atingem criando riqueza e a iniciativa privada é o seu motor. Axioma que a própria China já percebeu. Quando será que alguns dos nossos putativos políticos de esquerda vão perceber isso e emergir no século XXI?


PEDRO DAMASCENO

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

O fim de um paradigma

Acredito que só sairemos verdadeiramente da crise com sangue, suor e lágrimas
Miguel Sousa Tavares




O fim de um paradigma



Comunismo de um lado, capitalismo do outro. A queda do muro de Berlim e a implosão do comunismo. O regabofe do capitalismo desregulado e de casino, totalmente unilateralista.

Um “directório de países ricos” com pouca ou nula sensibilidade para um conjunto interminável de países miseráveis. Uma visão maniqueísta de um mundo desigual, injusto e explosivo.

A ascensão do capitalismo sem regras capitaneado pela Administração Bush – provinciana e conservadora – que encontrou no terrorismo o argumento para uma política externa totalmente desastrada. A queda abrupta dos valores e dos princípios.

O fim das ideologias que se condensariam, agora, num capitalismo mais ou menos mitigado. Sendo essa coisa de direitas e esquerdas, por conseguinte, pura estultice intelectual desprovida de carácter prático.

O estado social e do bem-estar, menina dos olhos da social-democracia europeia (e sobretudo nórdica), entrando em colapso progressivo com previsões muito negativas sobre a sua sustentabilidade.

Os políticos a perderem densidade e credibilidade tornando-se em mais um bem descartável ao sabor das sondagens e dos votos. Uma crescente promiscuidade entre poder político e poder económico e a rarefacção de verdadeiros estadistas.

A crise surge. Ou melhor, o moderno capitalismo como o vínhamos conhecendo colapsa – quase de repente – deixando o menino nas mãos do estado que, entretanto, perdera a sua vocação de protector e regulador da economia.

Gurus da nova economia e do seu crescimento exponencial passam de heróis a malfeitores de direito comum. Os bancos e seguradoras abrem falência em catapulta e os offshores aparecem como os tentáculos mais visíveis da fraude generalizada.

E agora, Pedro?

Agora, como disse Barack Obama, “é preciso mudar o modelo económico”. Procurando um novo paradigma que mantenha e aprofunde as liberdades individuais e a economia de mercado mas que introduza factores de carácter ético, social e ambiental.

Criar, como disse Mário Soares, “ estados de direito capazes de controlar os mercados e assegurar sociedades de cidadãos livres, pluralistas e participantes, democracias não oligárquicas mas sociais, preocupadas com o bem-estar de todos, com uma justiça independente, acima dos média, e com a defesa do ambiente, indispensável à sobrevivência da humanidade e da biodiversidade”.

Iniciativa privada que terá que se manter como o motor da economia mas apostando num capitalismo inventivo e criador de riqueza para todos em detrimento de um capitalismo especulativo só para alguns. Com regras claras devidamente supervisionadas pelo estado e asseguradas por uma justiça célere, competente e independente.

É adequado anunciar o fim de um paradigma.

Há que esperar, agora, que uma massa crítica de cidadãos – activos, lúcidos, sensíveis e empenhados – ponha em marcha outro que tome em conta os erros e desvios do passado e consiga retomar, tendo em linha de conta os desafios da modernidade, o fio interrompido dos grandes valores da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade, e Fraternidade!



P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

A teologia dos autocarros

Deus existe? Em Madrid, isso depende do autocarro!
Nuno Ribeiro (Público)




A teologia dos autocarros


Madrid ameaça tornar-se no epicentro de uma verdadeira erupção teológica! Erupção que surge em forma de cartazes de publicidade colocados em oito autocarros de cinco linhas daquela cidade.

Em publicidade paga seis desses autocarros defendem a existência de Deus enquanto dois defendem o oposto. Todos eles com slogans alusivos: “Deus Existe”; “Provavelmente Deus não existe. Deixas as preocupações para trás e goza a vida”; “Quando todos te abandonam, Deus fica a teu lado”.

Todos eles da maior profundidade e que vêm repor a teologia como matéria nobre das horas de ponta da movimentada cidade espanhola. Podendo os cidadãos, entre a leitura apressada do jornal e as secas de espera nas paragens, aprofundar a sua espiritualidade.

Quiçá mesmo discernir finalmente, por entre anúncios de detergentes e perfumes lascivos, o significado supremo da vida. Se podemos, por exemplo, gozar a vida porque Deus não existe ou se não nos devemos preocupar com nada porque Ele existe e não nos deixa sozinhos.

A campanha começou em Londres por iniciativa da British Humanist Association do Reino Unido e estendeu-se a Espanha prometendo chegar a Sevilha, Valência, Saragoça e Bilbau. E porque não Lisboa, Porto, Coimbra e Faro?

Uma espécie de teologia do povo aligeirada ao estilo de fast-food espiritual. Para quê entrar em horrendas discussões académicas ou tentar ler livros chatíssimos como a Bíblia ou o Alcorão que nos põem a dormir em dois tempos?

Quando a coisa é bem mais simples: deixar de acreditar em Deus para gozar ou então simplesmente acreditar em Deus para ser feliz. Elementar.


Sendo estas questões assim simples porque não tornar os autocarros de Madrid – e mesmo do mundo – no fórum ideal para a discussão da existência ou não de Deus. Poupa-se balúrdios em peregrinações, templos, ordenados e velas.

E Deus, se existe, deve estar algures no Paraíso, morto de riso. Porque tendo-nos feito, à Sua imagem e semelhança, não resistiu a dotar-nos de uma pitada de sentido de humor que agora rende boas gargalhadas. Se não existe teremos que nos rir por conta própria.

E, claro, escolher entre se existe Deus ou não existe terá a ver com a qualidade visual e estética dos anúncios, com as cores com o lettering, etc. E porque não, no futuro, com mulheres boas nuas? Se servem para vender tudo, desde a carros a electrodomésticos, também podem servir para vender umas Sodomas e Gomorras modernas ou a castidade envolta em hard-rock.

A opção é nossa mas, no fundo, tanto faz. A felicidade/gozo está certa, com ou sem Deus. Uns porque sim e os outros porque não.

Resta-nos a consolação (pelo menos nesta parte do mundo) de poder escrever jocosamente sobre tudo isso sem termos de enfrentar amanha uma manifestação ululante de desagravo ou uma sentença de morte, decretada à revelia.

Está tudo, garantidamente, doido.


P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Eu, também, tenho um sonho!

I have a dream!
Martin Luther King Jr.




Eu, também, tenho um sonho!


Anos de 2008, 2009, 2010 (?) …. de crise, de recessão e de outros tantos palavrões que, ao fim e ao cabo, significam ainda mais dificuldades para quem já não estava muito bem.

O fim do fantasia do capitalismo sempre em crescimento e do dinheiro fácil. O fim do conto do vigário planetário com dinheiro gerando dinheiro sem criação de riqueza.

Não o fim do capitalismo, enquanto sistema baseado no principio da propriedade privada dos meios de produção e na livre iniciativa. Porque esse está para ficar e para durar.

Como a própria democracia, o capitalismo é o mal menor. Não sendo perfeito foi o sistema que permitiu avanços notáveis à humanidade e possibilitou o acesso à riqueza e bem-estar a um número recorde de pessoas.

Mas tinha, no seio, perversidades que vieram, agora, manifestar-se de uma forma incontornável. Sendo a corrupção generalizada, porventura, a mais grave. Essencialmente porque abarcou quem devia assegurar o funcionamento equilibrado do sistema.

Sendo a matriz cultural de tudo isso o endeusamento do consumo como forma suprema de felicidade e o estatuto social/económico com o meta última do sucesso. Deixando para trás as palavras luminosas de Albert Einsten: tenta ser um homem de valor em vez de tentares ser um homem de sucesso.

Eu, também, tenho um sonho!

Que esta crise/recessão tenha o condão de abrir o coração e a mente de um número crítico de pessoas. Que os faça perceber que o que se passou e está a passar é a falência da ambição desmedida, sem princípios e sem alma.

Porque a crise não é só financeira e moral é, também, ambiental. Sendo esta bem mais grave porque atinge o planeta, a nossa casa colectiva. Viver com pouco dinheiro e sem princípios é difícil mas viver sem as condições naturais indispensáveis à vida é impossível.

A delapidação dos nossos recursos naturais é uma realidade, de consequências práticas da maior gravidade, que já não é possível ignorar por mais tempo. As palavras avisadas, de quem tem lutado na linha da frente do ambientalismo, têm plena confirmação.

Eu tenho um sonho que um número crítico de pessoas perceba que o fosso de riqueza e bem-estar entre nações e pessoas só augura conflitos e violência. Que perceba que não pode haver paz aonde não há pão que chegue.

Que perceba que temos que por um ponto final á nossa ambição de ter cada vez mais e mais. Que o nosso patamar de conforto, segurança e prosperidade tem que ter como limites um mínimo de dignidade para todo e qualquer ser humano e a preservação do planeta.

Que um número crítico de pessoas deixe de desbaratar no supérfluo e se empenhe, de forma pro-activa, em actividades cívicas e políticas que consigam moralizar o nosso sistema corrupto e decadente.

Que um número crítico de pessoas volte aos princípios e aos valores para engrossar o número daqueles que – vindo das mais variadas origens ideológicas ou confessionais – já estão empenhados na mudança indispensável e urgente mas, também, possível.

Eu, também, tenho um sonho!



P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Boa, Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa!

Quem é que em Portugal já leu o Alcorão?
Cardeal Patriarca de Lisboa



Boa, Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa!


A tempestade num copo de água, gerada por alguns comentários recentes sobre muçulmanos proferidos pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, suscita algumas reflexões sobre o tema das religiões e do diálogo entre elas.

O que o Cardeal Patriarca disse, em tom descontraído e coloquial, foi: Cautela com os amores, pensem duas vezes em casar com um muçulmano, pensem; pensem muito seriamente. É meter-se num monte de sarilhos, nem Alá sabe onde é que acabam.

O que não sendo politicamente correcto é de grande bom senso e uma dose apreciável de coragem. Coragem que falta, muitas vezes, em nome de uma tolerância para quem não tem qualquer dose da dita. Ou, novamente, nas palavras do Cardeal: só é possível dialogar com quem quer dialogar e com os nossos irmãos muçulmanos o diálogo é muito difícil.

Palavras certeiras num mundo que se verga ao fundamentalismo islâmico que trouxe à era moderna uma onda de insegurança e intolerância como há muito não era visto.

Claro que a religião muçulmana em si, especialmente o Corão, não é exclusivamente representada por essa intimidação a uma escala mundial. Há, com certeza, milhares de muçulmanos que não se revêem nesse radicalismo. Gente que segue a religião com sentido de tolerância e amor.

Sobre isso não deverá haver dúvidas. Sobretudo os muçulmanos que vivem em países democratas que não são, sem excepção, muçulmanos. Porque os países assumidamente muçulmanos não são, também sem excepção, democratas.

Sendo possível que uma jovem católica ou de qualquer outra religião se possa casar com um muçulmano moderado e usufruir, num país não muçulmano, de uma relação plena de respeito e tolerância é muito difícil que tal possa acontecer num país do eixo islâmico fundamentalista.
E foi positivo que uma pessoa com as responsabilidades do Cardeal Patriarca tivesse feito essa chamada de atenção. Porque as vozes muçulmanas moderadas não devem conseguir chegar ao céu, esmagadas pelo ruído ensurdecedor dos sectores radicais.

Nada como chamar os bois pelos nomes. Sendo de apreciar que tal tenha vindo do mais alto responsável de uma Igreja que não nos habituou, propriamente, à frontalidade. Desta vez os paninhos quentes ficaram a aguardar melhor oportunidade.

É indispensável denunciar publicamente as teocracias que em nome de Deus espalham e fomentam o ódio como se tal fizesse qualquer sentido. Deus que nunca publicamente se veio manifestar, pelo menos nos tempos modernos.

Como D. José Policarpo disse, só é possível dialogar com quer dialogar. E já agora, acrescento eu, com quem procura o caminho da paz. Nunca com quem procura o confronto, a violência e o terrorismo.

Nem todos os muçulmanos são terroristas. Bem verdade. Mas hoje não restam dúvidas que o fundamentalismo islâmico – única voz do Islão que se consegue ouvir – é o seu grande patrocinador.



PEDRO DAMASCENO

sexta-feira, janeiro 09, 2009

Crise à Portuguesa

Crise à Portuguesa


Não há hipótese: levamos com a crise de manha, à tarde e a noite. Não há noticiário que se preze nem canal que se tenha em boa conta que não nos inunda com mais desgraças: falências, burlas, despedimentos, processos de tribunal, etc., etc.

A crise institucionalizou-se e tornou-se, juntamente com Gaza e o tempo frio, o tema genérico das conversas. A tal ponto que já começa a ser tratada de forma brejeira e despiciente. E não começarão a faltar as anedotas.

Ao fim e ao cabo a crise é um tema recorrente na sociedade portuguesa. Esta é diferente apenas pela sua componente internacional. Mas de resto continuamos a produzir e a investir pouco e a viver acima das nossas possibilidades.

A especulação e a burla financeira em Portugal já têm dentes. De tal modo que chamaram D. Branca a Bernard L. Madoff, o suposto mago financeiro de Wall Street que, pelos vistos, não passava de um grande vigarista que – só a Portugal – fez perder 96 milhões de euros!

De resto um esquema de jogo financeiro baseado no conceito de pirâmide (pagamento de juros elevados aos investidores mais antigos feito com o dinheiro dos mais recentes) ainda há meses circulava em Portugal com grande sucesso. E já a crise estava ao dobrar da esquina…

Ou seja: crise existe mesmo mas a generalidade dos portugueses parece ainda achar que isso tem a ver com uma meia dúzia de ricaços ambiciosos e uns bancos sem escrúpulos e muito pouco com o comum dos mortais que continua a fazer a vidinha que sempre fez.

A vidinha de cada um por si e Deus por todos. Até ir votar é uma chatisse porque os políticos são todos parecidos e é melhor um dia de praia, uma tarde a ver telenovelas ou um dia de conversas de chacha no café. Como assim, o voto não vai mudar nada.

No Natal de 2008 foi levantado mais dinheiro, nas caixas Multibanco, do que ano de 2007! Para o grande público, possivelmente, ainda se estava/ou está em mais uma daquelas situações em que o pastor veio dar o sinal falso de alarme de lobo. Ou será apenas um faz de conta?

E nós somos mestres em fazer de conta.

A crise existe, é grave e não se deve apenas à especulação financeira, às falcatruas das grandes empresas, aos paraísos fiscais e à falta de regulação dos mercados. A crise deve-se, também, a um modelo de consumo e esbanjamento das nossas sociedades ocidentais, dos países dito desenvolvidos – num caldo de perspectivas de crescimento irrealistas.

E as soluções não estão, apenas, com os economistas e os políticos. As soluções passam, também, por todos nós que elegemos os políticos e que, por essa via, decidimos persistir num modelo de sociedade em que os valores supremos são o dinheiro e o bem-estar material num contexto do menor trabalho possível.

Esse modelo não era viável e implodiu.

Só uma solução de compromisso entre as nossas expectativas de conforto e os imperativos sociais – nacionais e internacionais – poderão tornar possível um modelo realista. Em que as diferenças entre as pessoas e entre as nações sejam atenuadas para níveis aceitáveis.

Arregaçar as mangas, prescindir do supérfluo e assumir uma cidadania responsável/interventiva serão ferramentas ao alcance de todos e que poderão fazer a diferença. Meter a cabeça na areia e esperar que a crise passe não prenuncia nada de bom.

Longe vai, felizmente, o tempo dos homens providenciais.




P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, dezembro 26, 2008

As dores da informação/comunicação

Agora estamos no início do furacão da revolução da informação
Comcascaetudo



As dores da informação/comunicação



De facto poderemos estar no início do furacão da informação, mas nem tanto para estes lados do mundo. Não tanto os media que esses vivem disso mas tudo que seja empresa que supostamente deve informar o publico é uma dor de alma.

Satas, Taps, Transmaçores, Edas, Postos de turismo, etc. etc…

Ou se fica tempos sem fim à espera que atendam, ou não sabem dar a informação e não fazem qualquer esforço para descobrir ou desembocamos numa fatídica mensagem gravada. E, cúmulo, às vezes não atendem de todo, horas e vezes seguidas.

Todos nós temos essa experiência desgastante, stressante e, totalmente, frustrante. O que sendo mau para todos nós é, certamente, muito pior para um turista com expectativas de informação minimamente sólidas e atempadas.

A um aumento da sofisticação das telecomunicações e da informática parece corresponder um decréscimo da qualidade e celeridade da informação. O que só explicável pela falta de treino para atendimento do público de grande parte do pessoal dessas empresas e, cumulativamente, por falta de controlo dessas empresas sobre as políticas de informação.

Para o exercício de qualquer função minimamente sofisticada é necessário ter o perfil adequado e dá impressão que as competências de comunicação com o público não são consideradas decisivas para pôr alguém nessas funções.

Percebe-se que haja muita gente que não tem perfil e, porventura, ainda menos vontade para lidar com o público, situação perfeitamente compreensível e aceitável. O que não se percebe é que esse tipo de pessoas continue a atender telefones e a “prestar” informações.

O turismo é, por excelência, uma indústria de simpatia. Simpatia que não pode restringida aos hotéis, aos restaurantes e às empresas directamente ligadas ao sector. Tem que ser transversal e estar presente no comércio local, nos transportes, nas repartições oficiais, nos hospitais e, mesmo, no público em geral.

A maneira como um povo recebe os seus turistas pode fazer a diferença no destino. Mas, pelo menos, que as pessoas ligadas ao serviços tenham uma postura adequada, mesmo que não directamente ligadas á actividade turística.

Sendo tão vultuosas as verbas dispendidas na promoção do destino Açores e nos apoios concedidos aos investidores faria todo o sentido que fossem aplicadas verbas significativas na educação para o turismo.

Educação para o turismo entendida como uma acção destinada a sensibilizar, de forma genérica, os agentes económicos (do turismo ou não), os serviços públicos e entidades prestadoras de serviços para o fenómeno do turismo enquanto actividade fortemente condicionada pela informação e pela simpatia.

Nem sempre tudo pode correr bem com os turistas. As falhas são inevitáveis. Mas o modo como essas falhas forem colmatadas e aligeiradas por uma boa comunicação/informação pode tornar o turista num nosso embaixador de excelência ou no maior detractor.

E não há nada que chegue à palavra de boca.



P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Declaração Universal dos Direitos do Homem

Declaração Universal dos Direitos do Homem
60 Anos de vida



Faz hoje 60 anos – 10 de Dezembro de 1948 – que foi aprovada a Declaração Universal dos Direitos do Homem, no rescaldo da II Guerra Mundial. Os horrores da guerra que terminava tinham legado um documento que visava construir um futuro em que tudo isso fosse banido.

Eleanor Roosevelt foi a grande impulsionadora do documento e um dos direitos consagrados punha o papel o conceito do direito à felicidade, porventura o mais ambicioso de todos. Um direito que é, também, a nossa maior ambição.

Mas infelizmente esse direito, quase utópico, continua como um miragem enquanto outros bem mais comezinhos como os simples e elementares direitos de liberdade e de integridade física continuam bem afastados de muitos áreas deste nosso conturbado planeta.

Nesta altura a Índia ainda tenta alcançar as consequências dos ataques terroristas de Bombaim; no Darfur continua-se a morrer de fome ou violência; a Somália abeira-se de uma tragédia igual; a birmanesa Aung San Suu Kyi continua presa na Birmânia; e não foram libertados milhares de reféns na Colômbia. O campo de Guantánamo ainda não foi fechado.

No Zimbabué, o tenebroso criminoso Robert Mugabe continua agarrado ao poder enquanto o seu povo morre de cólera e de fome e a inflação duplica todos os dias. Um cenário dantesco perante o qual a comunidade mundial se mostra impotente.

Na grande e impenetrável China – essa mesma dos milagres económicos – os direitos humanos, com declaração e tudo, continuam a ser letra morta. O tranquilo Tibete do Dalai Lama que o diga. A potência mundial de maior crescimento económico continua com o papel na gaveta.

Por cá os direitos, liberdades e garantias vão andando e, felizmente, vão longe estão os tempos do austero ditador de Santa Comba Dão. Mas as diferenças sociais continuam a aumentar e já há quem mande avisos à navegação, elegendo Salazar com o maior português!

O ambiente – condição essencial ao bem-estar e à felicidade – está como se sabe. Com muita gente que duvida ainda do aquecimento global e o acha um exagero dos ambientalistas, mesmo perante provas crescentes que algo vai muito mal com o nosso clima.

A droga, sobretudo as ditas pesadas, tornou-se um flagelo do dito mundo civilizado atingindo mesmo as nossas bucólicas e longínquas ilhas. Mesmo neste Pico que não é das ilhas de coesão mas que também não é das outras. Este mesmo Pico que continua com um miserável voo semanal no Natal enquanto outros tem duas mãos cheias.

Enfim, Eleanor Roosevelt tinha razão mas está visto que 60 anos foram bem poucos….

A nota final não pode ser negativa porque os níveis de conforto e de liberdade de muita gente melhorou dramaticamente. Mas, para muitos mais, este nosso mundo continua a ser um vale de lágrimas.

Os recursos aumentaram exponencialmente, as tecnologias evoluíram quase à velocidade da luz mas parece faltar-nos a alma para o resto que é muito, muito mais do que já se fez.





PEDRO DAMASCENO

sexta-feira, novembro 21, 2008

Razões que a razão desconhece

Razões que a razão desconhece




A Ilha do Pico tem uma área total de 447 Km2 e uma área protegida de 143,74 Km2 que representa, por conseguinte, 32% da área total da ilha. Área protegida esta que representa 34% da área protegida total dos Açores que se cifra em 418, 2 Km2!

No Pico situa-se a Vinho do Pico – Património Mundial da Humanidade. Área que pela sua beleza e carácter é objecto de intensa pressão imobiliária quer por parte de particulares quer por parte de investidores turísticos.

O Pico é uma das três ilhas dos Açores que tem a flora endémica – laurassilva – preservada na sua totalidade. Sendo as outras a Caldeira de Santa Bárbara na Terceira e as Flores.

Finalmente tem a montanha – indiscutivelmente o mais imponente monumento natural da Região – e o ícone mais usado na promoção dos Açores e que é um símbolo mágico do turismo ecológico.

A Ilha do Faial tem uma área total de 172,43 Km2 e uma área protegida de 23,47 Km2 que representa, por conseguinte 11,36 % da área total da ilha. Área protegida esta que representa sensivelmente 5,6 % da área protegida total dos Açores.

De notar que com a implementação do Parque Natural da Ilha do Pico a área protegida vai aumentar ainda mais. O que vai reforçar o seu estatuto do Pico como ilha maior do ambiente.

Tal estatuto e, sobretudo, tal área protegida colocam um grande desafio aos responsáveis pelo ambiente que terão que assegurar que a protecção é efectiva e num apenas uma intenção expressa no papel.


Questão central quando se percebe que o futuro do turismo açoriano irá depender da nossa qualidade ambiental. Como uma recente avaliação levada a cabo pela prestigiada National Geographic demonstrou. Os Açores ficaram em segundo lugar, exactamente pela qualidade ambiental que ainda apresentam.

Sendo óbvio que o nosso grande desafio consiste em manter e, se possível melhorar o score ambiental. Dado que essa é a nossa galinha de ovos de ouro para o negócio do turismo para não falar da manutenção da nossa qualidade de vida.

Mas protecção implica esclarecimento, pedagogia e fiscalização. Desiderato inatingível sem adequados meios humanos e materiais e sem uma fortíssima vontade política.

Assim sendo pergunta-se: como é possível explicar que a Ilha do Faial com os 23, 47 Km2 de área protegida tenha 4 vigilantes da natureza e o Pico com os seus volumosos 143,74 Km2 tenha um?! Ou que a orgânica futura para o Pico preveja apenas três?

E os meus amigos do Faial que não se preocupem. Ninguém lhes quer tirar nada. Os quatro vigilantes do Faial estão bem. O que está mal é um único vigilante no Pico! O retrocesso do Faial nunca fará bem ao Pico do mesmo modo que a castração deste nunca será uma mais valia para aquele.

Não se exigindo os 24 vigilantes a que uma regra de proporcionalidade daria direito, teremos que falar num mínimo de seis que permitiria fazer 3 equipas de 2 pessoas e, assim, assegurar um patrulhamento minimamente sério. Tudo que seja menos do que isso é mandar o Património Mundial e o futuro Parque Natural às urtigas.

Há, de facto, razões que a razão desconhece.



P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, novembro 07, 2008

God Bless América

Que viva agora uma América esclarecida que saiba abraçar as grandes causas da paz, do combate à pobreza e à exclusão e da defesa do ambiente.
Pedro Damasceno in Ilha Maior 08.07.2007


God Bless América


A vitória esmagadora de Barack Hussein Obama nas eleições presidenciais dos Estados Unidos foi muito mais do que o resultado do engenho, arte e brilhantismo de um só homem. E o presidente eleito é, sem dúvida, um homem de excepção.

Mais uma vez a América veio surpreender tudo e todos demonstrando uma vitalidade e uma extraordinária capacidade de mudança. Uma capacidade que só um regime democrático pode permitir.

O país da abundância e do esbanjamento mas também de situações de grande pobreza e exclusão. O país dos prémios nobeis e de Holywood mas também o pai da fast-food e da obesidade – a grande pandemia do século XXI.

América.

A terra da Ku Klux Klan mas também dos hippies das flores, do amor livre e da não-violência. Pátria do McCarthy da caça às bruxas mas também de Luther King e John F Kennedy.

Today I am an American.

Hoje, mais do que nunca, sinto que faço parte desse admirável mundo novo, desse caldo efervescente de culturas e etnias que mais não é do que um microcosmos integrado nesse macrocosmos que é o planeta.

Há esperança.

Há esperança de uma ordem mundial que ponha o homem no centro das coisas e não as coisas no centro do homem. A mesma América que, ontem, nos fez empalidecer de humilhação com um Bush, patético e teleguiado, vem hoje pôr-nos no sapato o presente antecipado do Natal.

Esta eleição não foi, essencialmente, centrada em Barack Obama e John McCain. Esta eleição foi, antes, centrada num profundo desejo de mudança, mesmo que para tal fosse necessário eleger o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

Sendo certo que muito poucos países europeus (dois ou três?) fossem capazes de eleger um presidente ou primeiro-ministro de cor. Esta nossa Europa, culta e civilizada, que tantas vezes tem feito chacota do país dos cowboys.

A grande lição que todos temos que tirar é a de assumir, com humildade essa mesma lição. Uma lição de pujança democrática e de participação cívica que se cifrou numa das maiores afluências de sempre à urnas.

Os grandes temas da paz, da pobreza e do ambiente voltam ao centro da agenda política.

A Obama competirá, agora, unir a grande nação americana e estabelecer um plano de transição para um capitalismo com coração e causas. A todos nós competira acreditar, também, que a mudança é possível.

Há males que vêm por bem, diz o povo. E tem razão. Que esta crise financeira e económica mundial seja a grande oportunidade para parar, pensar e agir.

God Bless América.

I love you.



P E D R O D A M A S C E N O

terça-feira, outubro 14, 2008

Meu caro Veríssimo

Meu caro Veríssimo



Soube há dias do teu passamento. Não sabia, sequer, que estavas doente. Embora soubesse seres um homem de saúde precária.

Deixas uma marca e um vazio, como todos nós. Eras um homem muito inteligente e com um grande coração – coisas que não te serviram de muito. Tiveste tudo e tiveste pouco. Abraçaste grandes causas mas não fizeste da tua vida uma causa.

Possivelmente foste feliz à tua maneira. Mas eras um cometa apetrechado para voos muito mais altos. E tiveste na mão um jogo quase só de trunfos que desbarataste, a torto e a direito. Um homem de oportunidades perdidas.

Abraçaste, com unhas e dentes, a causa maior do planeta – nossa casa comum. Foste um ambientalista convicto e esclarecido num tempo em que isso não era moda e o ambiente uma disciplina menor da política.

Mas quando decidi escrever-te esta carta não estava a pensar num daqueles panegíricos delicodoces que não fazem bem nem mal. Sei que não gostarias, sobretudo vindo de mim. Sempre cultivámos uma relação crítica e mordaz.

Por isso esta minha carta acaba por ser mais para todos os veríssimos-deste-mundo do que, propriamente, para ti.

Tu és o mote, mas destina-se a toda a gente de muita valia e grandes recursos que, pelas voltas e contravoltas que a vida dá, de tudo isso não tirou ou tira grande proveito. Os muito capazes que da vida pouco tiram.

A vida – esse bem precioso, pessoal e intransmissível – que desbaratámos como se de artigo descartável se tratasse. Essa seiva e energia que adulterámos sem olhar para trás, como se ao virar da esquina houvesse mais.

Sem pensar – no princípio de cada novo dia que nos é dado – que tanto pode ser o último, como apenas mais um ou uma nova oportunidade para começarmos a ser aquilo que sempre pensamos poder ser e que nunca fomos.

Foi assim contigo, Veríssimo? Os projectos, os sonhos, os afectos que ficaram pelo caminho? A morte colheu-te quando colheu. Não há tarde nem há cedo. Há, apenas, que estar vivo ou não estar.

A vida devia ser trabalhada como um ourives trabalha o oiro. Com mil e um cuidados, de pinças e lupa. Vivendo com intensidade mas com igual cuidado. Distinguindo o trigo do joio.

Até prova em contrário só se vive uma vida, pelos menos como a conhecemos. Os depois-da-vida até podem ser verdade mas – sendo o que sejam – nunca serão esta vida de carne e osso que agora vivemos e, tantas vezes, sofremos.

Por mim, cada vez mais, uso a pinça e a lupa. O que não me livrando da morte me dá o conforto de saber que não me vou render de barato.

Um grande abraço.


P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, outubro 10, 2008

O estado da crise ou a crise do estado?

O estado da crise
ou a crise do Estado?



Não há muito tempo tivemos oportunidade de abordar, nesta coluna, a crise da banca. Tendo sublinhado a política virada para o umbigo que o sector vinha fazendo, centrando-se – essencialmente – em lucros altamente especulativos.

Um modelo sem sustentabilidade que as recentes falências da banca nos USA e as dificuldades da banca portuguesa vieram, infelizmente, comprovar. Um modelo criado sob a batuta de gestores ambiciosos sem escrúpulos, num cenário de neo-liberalismo desenfreado.

O circo da especulação financeira tentando gerar dinheiro apenas com dinheiro esquecendo a máxima fundamental de que o dinheiro é um bom servente mas um mau amo. Tornando o investimento não produtivo a pedra de toque.

Como escrevi então: os bancos criaram as condições para a festa do consumo desenfreado na área da habitação e dos equipamentos como se não fosse possível saber que, mais menos dia, os juros iriam disparar. Quantos bancos não incentivaram o consumo sugerindo mobílias, carros e etc. debaixo do guarda-chuva da habitação?

Sendo bem irónico que tenha sido a administração Bush, conservadora e ultra-liberal, a ver-se obrigada a injectar dinheiro dos contribuintes num sector financeiro que viveu, essencialmente, do desrespeito por esses mesmos contribuintes.

Depois da falência do modelo soviético e do colapso dos regimes comunistas ficou claro que o estado não tem vocação nem competência para dirigir a economia, num modelo centralista e totalitário. Sendo necessário passar para o sector privado as capacidade de iniciativas e criatividade.

O estado é, tipicamente, um mau gerador de riqueza. Não tem esse talento nem precisa de ter. Precisa, isso sim, de criar as oportunidades e definir, com clareza, as regras do jogo. O estado não deve tentar anular o privado como este não deve tentar anular o estado.

O estado deve ser o garante do cumprimento das regras e o responsável pela definição dos sectores prioritários e das grandes opções de desenvolvimento. O estado tem que ser responsável por todos nós e cada um de nós responsável por si próprio.

O actual estado de coisas é fruto de uma situação mundial complexa. Reduzir tudo às questões da economia é errado e redutor. Mas colapso da economia é um factor de instabilidade que vem ajudar a deflagrar o barril de pólvora em que nos tornamos.

O estado e o modelo capitalista têm que ser repensados. Precisamos de melhor estado e de melhores investidores. De um estado mais regulador e de um sector privado mais responsável. E precisamos, acima de tudo, de não esquecer os mais carenciados, sejam eles nações ou indivíduos.

Sem esquecer a punição dos responsáveis. O crime económico, sobretudo desta gravidade, não pode ser isentado.

O ultra neo liberalismo está morto e enterrado e vai nos custar os olhos da cara. Sendo por conseguinte necessário que para alem do tratamento de choque se estabeleça um diagnóstico e se trate a doença de fundo.

Um sistema sem competência, rigor e eficácia não funciona. Mas um sistema sem coração também não.



P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, setembro 26, 2008

SER AÇORIANO

Que bom é ser açoriano
Carlos Cesar




SER AÇORIANO


A frase “que bom é ser açoriano”- embora slogan político - só nos pode fazer bem à alma. Sobretudo depois de um povoamento que foi tão difícil e doloroso. Um passado duro bem atestado por tantas paredes de pedra e maroiços.

Mas como diz Dias de Melo: Já quando os homens chegaram pela primeira vez à Ilha, a encontraram rasa de pedra, que fora fogo vomitado pelos vulcões:pedras colossais, amontoadas a esmo,[...] - mas combatento, braços entesados e mãos crispadas, a grande batalha contra as pedras negras da Ilha.Estarraçaram, escavaram, removeram, abriram caminho - e a terra começou a surgir!

Ser açoriano é, antes de tudo, ser herdeiro dessa saga de suor e sangue. Desse batalhar de sol a sol e de tantos anos de esquecimento e abandono, apenas amenizados pelos dias esparsos de São Navio.

Ser açoriano é ser filho desse casamento entre as terras de lava e o mar. Amamentado por um céu infinito e por ares pouco navegados e criado num berço verde, espesso e a perder de vista.

É poder estar sentado, num dia soalheiro, a olhar do Pico para o Faial, com os ilhéus em frente. Ouvir o suave barulho das ondas de um mar calmo que vem brincar com as rochas e nos devolve a paz de um mundo que ainda não está perdido.

É ser capaz de partilhar, em pleno, com os socalcos que vão por aí acima até à montanha (sobranceira e distante) a energia que imana desse testemunho da força do ventre que lhe deu origem.

Ser açoriano é saber amar a natureza, a tranquilidade e pureza do ar e do mar. É saber sentir esse privégio único que é estar (quase) a salvo desse vale de lágrimas em que grandes zonas do nosso planeta se estão a transformar.


É perceber e sentir que o que foi o nosso calcanhar de Aquiles – a distância e o isolamento – se transformou num ganho. O que é ampliado por não termos, felizmente, auto-estradas de três ou quatro pistas que aqui desemboquem e nos tragam mais carros e garrafões.

E interiorizar, portanto, que o essencial é conseguirmos preservar aquilo que veio – via adversidade – a transformar-se num património invejável: a natureza, a tranquilidade, a segurança e a paz. Bens que, hoje no mercado mundial, ultrapassam – de longe – o valor do barril de petróleo.

Não tendo óleo, temos o melhor óleo do mundo.

“Óleo”que, essencialmente, vale por não ser “extraído”. Sendo o desenvolvimento indispensável e desejável é necessário que não mexa com aquilo que é a essência dos Açores: a ruralidade e casamento, para a vida e para morte, com a natureza.

Ser açoriano é perceber bem isso e não ceder às tentações do consumismo desenfreado e ao dourado plastificado do betão. É sim melhorar o conforto, a segurança e a qualidade de vida sem pôr em causa a matriz que nos identifica e nos faz sentir no topo do mundo.

“Que bom que é ser açoriano” é, por isso, um empolgante desafio que deverá ir muito para lá da acção política para se transformar num bom dia de todos nós quando perdermos a vista no horizonte longínquo do nosso mar azul sem fim.



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sexta-feira, setembro 12, 2008

As voltas que o lixo dá!

As voltas que o lixo dá!


Claro que os aterros sanitários são imprescindíveis e incontornáveis e a crescente quantidade de lixo impõe a sua separação e tratamento adequado nomeadamente a reciclagem.

As poucas lixeiras tradicionais que ainda existem pela ilha vão desaparecer, em breve. É a vida. Assim o impõem os novos desafios da preservação do ambiente e as quantidades astronómicas de lixo que os próprios agregados familiares geram.

Mas, perdoem-me a nostalgia, o desaparecimento dessas lixeiras tradicionais vão deixar triste um público próprio. Um público que vai desde os sucateiros aos angariadores de objectos para uso ou divertimento próprio mas, sobretudo, a pessoas que no lixo procuram e encontram verdadeiras preciosidades.

Preciosidades que tanto podem ser um velho baú da América cheio de autocolantes como uma imagem sacra ou um velho brinquedo de madeira ou porcelana. Como podem ser pratos antigos rachados ou cadeiras desengonçadas ou objectos pessoais como cartas ou roupas.

As lixeiras tradicionais sempre foram um manancial para quem nelas consegue (ou conseguia) descortinar vidas através dos despojos que lá vão/iam parar. Verdadeiros repositórios de vidas mudadas ou, simplesmente, acabadas. Sítios fascinantes para quem para tal tem sensibilidade e paciência.

Porque se a vida dá muitas voltas, o lixo acompanha-as e ilustra – como verdadeiros epitáfios – essas cambalhotas e reviravoltas. Permitindo trilhos e pistas que quase nos levam a sentir as vidas que já lá vão.

A prima Gestrudes foi criada com uma gota de água numa couve. Filha única e dotada para as artes nunca logrou, contudo, casar. Idos os pais e longe os pouco parentes directos lá foi fazendo o resto da sua vida, ponteada de solidão e bastante amargura.

Da menina de seus pais passou a velha e doente vivendo, sempre, na mesma casa modesta em que fora criada e aonde convivia com os objectos que, no fundo, eram também a história e o testemunho da sua vida.

E morreu, como todos nós vamos ter que fazer. Depois de uma longa agonia que não lhe permitiu usufruir a “sorte grande” que o terramoto lhe trouxera. Na forma de uma casa novinha em folha que, embora no mesmo sítio e do mesmo tamanho, lhe poderia ter proporcionado maior conforto.

Nem nisso a prima teve sorte. Ou melhor nem para gozar a sorte teve sorte. Decapitada, há muito anos, a árvore que lhe dava sombra, aí ficou, triste e solitária como a dona-que-não-chegou-a-ser, a casa que foi cenário de muito talento e sabedoria.

E da casa triste resultou também um trilho subtil na lixeira. Primeiro uns camelos de madeira de oliveira da Terra Santa. Depois um livro com marcas e cartas ainda com notas pessoais. E lá, bem mais longe, jaz o passaporte já caducado da prima. Ainda com os caracóis bem presentes na fotografia a cores.

Um trilho subtil mas que ainda assim deixou, aberta ao público, um pouco da exposição de uma vida. Que, como tantas outras que lá também foram parar, teve de tudo mas acabou em nada.

As voltas que o lixo dá! Ou dava?

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sexta-feira, agosto 29, 2008

Extinção das lagoas do Pico - um crime público

Extinção das lagoas do Pico
Um crime público


Não tendo o Pico a riqueza das lagoas de S. Miguel tem, contudo, um conjunto de lagoas lindíssimo. Com realce especial para as Lagoas do Capitão e do Caiado que, com a montanha, são um lugar obrigatório de visita para quem demanda a ilha.

A da Capitão pelo enquadramento vegetal das suas margens e pela presença constante do Pico. A do Caiado pela visão ímpar sobre o canal e São Jorge. E todas as outras, como a do Peixinho e do Paúl.

Infelizmente as Lagoas do Pico estão muito doentes. Por eutrofização como consequência do uso excessivo de adubos na vizinhança e pela utilização da sua água quer para uso agrícola quer, mesmo, para uso público.

Mas enquanto que as lagoas de S. Miguel têm sido objecto de grande preocupação nas do Pico pouco gente parece reparar. E, contudo, todas elas definham a olhos vistos. Sendo o seu desaparecimento uma questão de pouco anos.

Todos sabemos que a lavoura luta com falta de água para o gado no verão mas a sua utilização a partir das lagoas é uma situação totalmente intolerável em termos ambientais. E certamente, ainda mais, para outros fins.

A luta pela preservação de tão valioso património natural tem que ser de todos. O seu custo não poder ser apenas imputado a quem vive de uma actividade para qual é indispensável o uso de água e a utilização do solo.

De modo que é necessário a assegurar que o abastecimento de água à lavoura não passe pela sua extracção das lagoas e que quando esta for dispensável os prevaricadores sejam devidamente punidos.

Sendo também imperativo que seja suspensa a utilização da água da Lagoa do Caiado para fins públicos. Situação anómala que nunca deveria ter, alias, acontecido e que estabeleceu um precedente inaceitável.

Da mesma forma que é necessário encontrar formas de indemnização para quem tem explorações agrícolas nas imediações das lagoas. A protecção de um bem público tem que ser suportada pelo erário público.

O que não podemos é ficar, todos ou quase todos, indiferentes à deterioração galopante das nossas lagoas. Pesem, embora, planos de ordenamento e declarações públicas de defesa do ambiente. As lagoas do Pico estão a morrer, muito rapidamente

Ainda recentemente tive a acesso a um projecto de protecção da biodiversidade da Paisagem Protegida das Lagoas de Bertiandos e S Pedro de Arcos, uma área situada entre Ponte de Lima e Viana do Castelo. Um projecto designado “Biodiversidade” e destinado a alunos das Escolas do 2.º e 3.º Ciclo do Concelho de Ponte de Lima.

Projecto detalhado com objectivos bem definidos. Promover a educação e o respeito pelo meio ambiente. Sensibilizar a população escolar para a biodiversidade do nosso Planeta. Desenvolver o sentido de responsabilidade. Alertar para a importância da preservação da Natureza e das espécies.

Um exemplo que nos chega do norte e que bem ilustra a importância que é posta em valores ambientais idênticos aos nossos. Continuar a não fazer nada que se veja e se traduza na melhoria efectiva, urgente e visível das nossas lagoas será um crime público que o futuro não perdoará.

Aqui fica o desafio a todos.




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sexta-feira, agosto 15, 2008

Parabéns, Nelson Mandela

….nada de humano pode ser construído sobre o ressentimento, o ódio e a vingança
Jornal Publico



Parabéns, Nelson Mandela


Nelson Rolihlahla Mandela completou, há pouco dias, 90 anos. Uma longa vida ao serviço de um ideal e um exemplo único de coragem cívica e intransigência de princípios, mesclado de grande realismo político.

Após um longo cativeiro de 27 anos conseguiu vencer a apartheid e impedir a guerra civil – desiderato que nos parecia impossível – na Africa do Sul. Um exemplo único de tenacidade e estatura moral.

O homem que gosta de apreciar o pôr-do-sol ao som da música de Handel ou Tchaikovsky. O Prémio Nobel que dedicou a honraria que lhe foi concedida a todos os que lutam pela paz e contra o racismo.

Tomou posse como primeiro presidente, democraticamente eleito, da África do Sul em 10 de Maio de 1994 tendo abandonado a vida pública em 1999, apesar de todas as pressões para que continuasse. Assim demonstrando desapego ao poder e às honrarias.

Voltando para Qun, seu lugar de nascimento, aonde vive uma vida frugal e disciplinada. Não prescindindo do seu exercício diário e da militância em prol da paz e da tolerância.

Mandela foi uma pessoa para quem o sofrimento – e sofreu muito, durante muito tempo – foi uma oportunidade de crescimento. O seu longo encarceramento e as humilhações que sofreu poliram a sua têmpera e carácter ao invés de o tornarem um indivíduo revoltado e violento.

Certamente por isso Mandela sempre considerou Gandhi como seu mentor, quer pela filosofia da não-violência como também pela postura de dignidade face à adversidade.

Sendo, também por isso, um exemplo.

Numa África dilacerada por conflitos tribais e liderada por um vasto conjunto de tiranos corruptos, Mandela foi um verdadeiro farol. Sobretudo se pensarmos na outrora opulenta Rodésia que por via de um ditador demente e sanguinário se transformou no miserável Zimbabué de hoje.

O seu país está, ainda longe, daquilo que Mandela imaginou: uma democracia multiracial, próspera e em paz. Mas foi evitada a grande tragédia da guerra civil e da vingança e foram lançados os alicerces para o futuro, assim o queiram os actuais dirigentes sul-africanos.

A imagem de serenidade e confiança que construiu são o seu grande legado. Pois apenas líderes assim serão capazes de vencer os preconceitos raciais – ainda tão espalhados – e dar à África a dignidade de que tanto precisa.

Talvez Mandela tenha, mesmo, tido alguma responsabilidade no fenómeno Barack Hussein Obama. Talvez tenha despoletado parte do impulso que tornou possível a um negro com nome muçulmano ser um candidato credível à Casa Branca.

Parabéns Nelson Mandela, pelos noventa anos e pelo exemplo que nos deste.



P E D R O D A M A S C E N O

sexta-feira, agosto 01, 2008

Novos tempos,novos desafios

Quem trabalha assume responsabilidade
Manuel Tomás





Novos tempos, novos desafios



Ao dobrar os vinte anos, Ilha Maior ganha um novo director. Desta feita um jornalista, homem da casa, que tem a difícil tarefa de prosseguir o trabalho iniciado por Manuel Tomás, que deu ao jornal o timbre de qualidade que o impediu de se quedar por ser mais uma folha de couve da província.

Ilha Maior conheceu grandes momentos de jornalismo esclarecido, erudito e, sobretudo, descomprometido. Sem se tornar num mero entretenimento de elites conseguiu criar um quinzenário e, depois, um semanário de referência na imprensa regional.

Tive o privilégio de colaborar, praticamente, desde a primeira hora. Sempre com a maior liberdade e com os indispensáveis estímulos para prosseguir. Por isso e porque acredito, também, no futuro do jornal aqui me encontro com o entusiasmo do princípio.

A Manuel Tomás coube o lançamento dos alicerces e a consolidação do sonho do poeta. Cabe, agora, a David Borges vencer os desafios de confirmar o rumo, em plena liberdade e pluralismo, para tempos de crise.

Liberdade e pluralismo que são a base da democracia. Pilares que o próprio poder político, se esclarecido, tem todo o interesse em fomentar. Sob pena de os jornais se poderem tornar, apenas, em correias de transmissão que – ao fim e ao cabo – ninguém acaba por ler.

E que não servem, por isso, qualquer causa. Nem a dos políticos porque elogio sem isenção acaba por ser ratoeira a prazo, nem a dos leitores porque informação louva-minha e condicionada não fomenta cidadania nem promove dignidade.

Terras pequenas, em que todos se conhecem, tornam difícil a crítica, por muito correcta e justa que seja. Mas não há outro caminho. Já que, somente, este pode proporcionar pedagogia democrática e uma cultura de frontalidade amigável.

Ferramentas indispensáveis ao progresso.

Tenho orgulho de ao longo de todos estes anos ter escrito sempre o que pensava sem ter dado origem a qualquer polémica, panfletária e corriqueira. Talvez porque sempre procurei trabalhar a palavra – um instrumento da maior importância – com elevação e isenção.


Como dizia na primeira crónica que redigi para o Ilha Maior apenas pretendo ser um grão de areia. Fazendo desta coluna um espaço de reflexão, tentando intervir de forma crítica e criativa no nosso dia a dia. Procurando sempre as faces ocultas das pessoas, das ideias e dos acontecimentos.

A aventura humana é um autêntico caleidoscópio que nos revela, constantemente, uma riquíssima multiplicidade de imagens e emoções. Sendo necessária humildade e generosidade na procura dos nossos caminhos colectivos. O futuro é, necessariamente, um salto para o desconhecido que, no fundo, é o nosso destino.

Questionar o presente com coragem e determinação é a chave para um futuro mais sólido. Aceitar um quotidiano baço e cinzento por via da intimidação e da chantagem não é, portanto, caminho aceitável para quem quer o progresso e o bem-estar.

A imprensa tem, hoje, um grande peso. Que lhe confere grandes responsabilidades e lhe exige ponderação, correcção e exactidão – num contexto profundamente livre, independente e pluralista.

Acredito que seja este o rumo do novo director a quem desejo os maiores êxitos. Os novos tempos que se avizinham vão exigir novos caminhos. A Ilha Maior que deu, por via do poeta, o nome a este jornal disso bem precisa.


PEDRO DAMASCENO

sexta-feira, julho 18, 2008

POBRE ONU!

POBRE ONU!



Para quem ainda tivesse dúvidas, a incapacidade da ONU para decidir aplicar sanções severas ao regime totalitário, torcionário e sanguinário de Robert Mugabe e ao “seu” Zimbabué é sinónimo da sua nulidade.

A ONU não serve, no presente figurino, para nada. Ou melhor serve para fingir que a comunidade internacional tem um organismo que defende o direito internacional e assegura o respeito pelos direitos humanos.

Quando na prática acaba por sancionar as maiores iniquidades e ser, ela própria, agente de atrocidades como os mais recentes casos de violações e abusos perpetrados pelos seus soldados – os capacetes azuis.

A intervenção no Kosovo e a ocupação do Iraque são, por razões diferentes, dois falhanços clássicos que bem se inserem no rol de incapacidades e falhanços da comunidade internacional na Somália, no Ruanda, na Chechénia. Juntando a impotência geral perante o Darfour, o Tibete, a Birmânia e, agora, o Zimbabué.

A ONU não serve, nem sequer, para tapar o sol com a peneira.

Acaba por ser pior manter uma farsa colossal, que custa à comunidade internacional verbas colossais, do que assumir que a ONU como organização destinada a promover a concórdia e a paz, está morta e enterrada.

Embora os Estados Unidos tenham perdido a hegemonia indiscutível de que dispunham na arena internacional, a eleição do próximo presidente poderá mostrar-se crucial para o futuro daquela organização.

Se dessa eleição sair Presidente que assuma uma liderança pró activa no sentido de iniciar um processo de reforma profunda e valorização de um órgão que se pode mostrar crucial nos novos equilíbrios internacionais.

Uma ONU que tenha em linha de conta o bloco das democracias consolidadas mas que assuma o papel emergente da China, da Índia, da Rússia e do bloco islamista liderado pelo Irão e que não se esqueça da África e da América do Sul.

O mundo hoje está diferente, muito diferente. Com um declínio claro dos Estados Unidos e a ameaça silenciosa do fundamentalismo islâmico que se pode vir a mostrar o grande perigo do século. E uma China que já domina no mundo financeiro e se expande incessantemente.

O veto da China e da Rússia às sanções ao Zimbabué não surpreendeu dados os antecedentes conhecidos daqueles países. Mas veio por a nu, mais uma vez, a total incapacidade da comunidade internacional para lidar com os mais elementares arremedos de estado e as mais brutais ditaduras.

O Zimbabué passou de um país rico a um país miserável aonde se morre ou de fome ou de tiros, capitaneado por um desviante tirano octogenário acompanhado de uma esposa que esbanja ostensivamente nas capitais da moda o que o país não tem.

Uma opereta do pior gosto que se mantêm como prova de vida da impotência de uma organização que deveria ser justamente o garante das liberdades e dos direitos desde o cume dos Himalaias até às cordilheiras do Peru, passando por tudo o resto.

Pobre ONU!


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sexta-feira, julho 04, 2008

Discriminação positiva da pobreza. Utopia?

Discriminação positiva da pobreza
Utopia?



Parece ser hoje facto assente que países, ditos desenvolvidos, em que se incluem os Estados Unidos têm no seu seio pessoas que vivem em pobreza. Portugal, por maioria de razões, não é excepção.

Facto que decorre do agravamento dos desníveis sociais, com ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres. E que se agrava com o envelhecimento da população e a diminuição do número de trabalhadores activos.

O estado, cujas receitas não têm vindo a aumentar, tem progressiva dificuldade em manter-se como estado providência. Circunstância que penaliza, em primeira linha, os cidadãos mais vulneráveis: seja ao nível do ensino, das pensões ou da assistência médica.

Estando provado e tornado a provar que uma perspectiva de total igualitarismo dos cidadãos não é exequível nem justa seria, contudo, de esperar que sociedades democráticas e desenvolvidas garantissem padrões mínimos de qualidade de vida.

A cada um de acordo com as suas capacidades e desempenho. Mas com condições de partida semelhantes entre as quais avulta o ensino que deveria saber atenuar as diferenças de berço. Só a escola pode repor défices educacionais e culturais de origem familiar.

A maturidade de uma sociedade deveria ser avaliada pela forma como lida com o seus cidadãos mais vulneráveis: crianças, idosos, deficientes, doentes e excluídos sociais. Nunca pelo seu PIB ou pelo rendimento per capita.

O que custa muito dinheiro e implica muito rigor. Sobretudo em países como o nosso em que a avaliação dos realmente necessitados e carentes sofre de uma crónica miopia e de compadrios e fraudes sem fim.

Só assim se explica que um conceito, tão bem intencionado e necessário, como rendimento mínimo nacional se tenha tornado num tema recorrente do anedotário nacional. Porque as fraudes e a falta de rigor lhe retiraram a credibilidade.

Sabe-se lá as voltas que tanto dinheiro deu mas que não foram, decisivamente, aquelas que deveria ter dado. Vindo demonstrar que não há em Portugal uma rede de assistência que saiba identificar e acompanhar, como deve ser, as situações reais – e são muitas – de exclusão e pobreza grave.

Dá-se a quem não precisa e não se dá como deveria ser a quem precisa.

Persiste ainda a mentalidade de esmolinha e de arranjar uma coisinha em detrimento da procura de formas de integração e de contrapartidas por parte de quem recebe. Continua a dar-se o peixe (tantas vezes a quem não tem fome) e não se ensina a pescar.

A actual crise mundial que já se sente bem Portugal veio pintar de cores mais escuras os problema da pobreza e da exclusão. E não será o mero crescimento do PIB (quando e se chegar) que os irá resolver.

Terão que ser criados mecanismos eficazes e devidamente monitorizados que consigam compensar (e progressivamente anular) as profundas desigualdades e carências que ainda existem na sociedade portuguesa.

Desigualdades e carências que não servem a ninguém: nem a quem as sofre nem aos outros. Apenas uma sociedade com elevados padrões de justiça e de igualdade de oportunidades é genuinamente democrática e propiciadora de paz e bem estar.

Ou será a discriminação positiva da pobreza apenas uma utopia?





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sexta-feira, junho 20, 2008

A crise e nós

…a nossa cultura é que está à beira do colapso.
Simon Dolon



A crise e nós


O país tem assistido às mais variadas manifestações contra a alta dos combustíveis e as dificuldades daí derivadas. Tendo o mesmo acontecido na França, na Grã-bretanha ou na Índia.

A alta dos preços do óleo é global e os “nossos” preços reflectem essa realidade. Quaisquer medidas que o governo português possa vir a tomar não irão resolver o problema de fundo – uma séria crise energética mundial.

Apesar das anteriores crises e de subidas vertiginosas dos preços do crude, pouco ou nada, aprendemos. Após o pânico inicial voltamos ao cenário de laxismo energético.

O consumo desenfreado não abrandou e o parque automóvel tem crescido incessantemente. Os sucessivos governos não conseguiram pôr de pé nem uma política energética inovadora/alternativa com pés e cabeça nem, muito menos, implementar transportes públicos, eficazes e baratos.

As filas intermináveis de carros, com apenas uma pessoa, continuam a ser o pão-nosso de cada dia. Num esbanjamento cego e totalmente insustentável. Mesmo, entre nós, o número de carros por agregado familiar continua a crescer.

As tentavas tímidas de pôr no mercado veículos movidos a energias alternativas não tem passado disso mesmo: tentativas tímidas e sem impacto visível. E quem tivesse dúvidas ficou, certamente, esclarecido como se passou há dias em Lisboa. O caos esteve a um passo.

E, como sempre, todos se viram para ou contra o governo (seja este ou outro qualquer) como se houvesse uma solução mágica ou como se não fossemos, nós próprios, também parte do problema.

A grande dependência que as sociedades de consumo têm da energia proveniente dos combustíveis fósseis tem a ver com uma cultura de desperdício e desresponsabilização que se baseia na ideia que os recursos do planeta são infinitos e que tudo o resto são tretas de ambientalistas.

Naturalmente tendo como pano de fundo os interesses multi-multi-milionários das indústrias petrolífera e do automóvel. Que estão aí para crescer, se possível exponencialmente. Nem que isso implique custos ambientais astronómicos que todos nós já sentimos na pele.

O nosso ADN (ácido desoxirribonucleico!), um sensível conjunto de moléculas que contém as instruções genéticas que coordenam o nosso desenvolvimento e funcionamento, foi formado, ao longo de milhões de anos, em contacto com uma natureza muito diferente daquela hoje existe (urbana, poluída e violenta).

Não está, de todo, preparado para os impactos exteriores a que agora é submetido ficando abertas, por conseguinte, as portas à doença e ao sofrimento. Crescendo, assustadoramente, o número e variedade de cancros e tantas outras doenças civilizacionais.

Realidade pela qual todos nós somos, em maior ou menor medida, responsáveis. Todos nós consumimos, esbanjamos e votámos. Seja através de banhos excessivamente longos, de uma luz acesa esquecida ou de voltas e mais voltas desnecessárias de carro. Ou seja votando em políticos sem sensibilidade e/ou respeito pelo ambiente.

A crise energética que hoje se vive bem pode ser o último aviso sério para que passemos, todos nós, a ter outra atitude perante o consumo e assumir um papel mais activo na redução da dependência gravíssima que desenvolvemos em relação aos combustíveis fosseis.

Uma nova cultura e um novo estilo de vida são as chaves indispensáveis. Uma cultura que se centre na nossa condição de seres vivos inteiramente dependentes da natureza e um estilo de vida que respeite e pacifique este nosso – tão mal tratado – ADN.



PEDRO DAMASCENO